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Pedro Proença Advogado
06.03.2026

Base das Lajes, uma escala geopolítica num mundo em guerra

Confundir a utilização de uma base para fins logísticos com um envolvimento militar direto constitui um erro frequente no debate público.

Sem querer usurpar funções e competências dos valorosos especialistas em relações internacionais e em geopolitica que diariamente nos elucidam sobre o actual momento conturbado do mundo, a verdade é que vivemos numa era em que acabamos todos por ser, de alguma forma, geopoliticos, quanto mais não seja porque o mundo se tornou demasiado interligado e o jogo das potências passou a ser também o imaginário quotidiano das sociedades.

É por isso que me atrevo a fazer uma incursão no tema polémico da utilização da Base das Lajes no contexto do conflito em curso no Médio Oriente na medida em que este tema é, talvez, o único ponto de contacto da reduzida dimensão geoestratégica de Portugal com esse conflito.

A utilização da Base das Lajes no contexto do atual conflito no Médio Oriente voltou a desencadear uma polémica recorrente em Portugal. Sempre que surgem notícias sobre a passagem de aeronaves militares norte-americanas pelos Açores, renova-se o debate público: estará Portugal a ser arrastado para guerras que não são suas? Estará o território nacional a servir de plataforma para operações militares controversas? E, sobretudo, estará o Estado português a perder controlo sobre uma infraestrutura estratégica situada no seu próprio território?

Estas perguntas são politicamente eficazes, mas nem sempre assentam numa análise rigorosa da realidade jurídica e estratégica que envolve a Base das Lajes.

Antes de mais, importa recordar um dado essencial: a Base das Lajes é uma infraestrutura portuguesa, localizada na ilha Terceira, cuja utilização por forças norte-americanas resulta de um acordo bilateral de cooperação no quadro da NATO. Esse acordo, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial e sucessivamente revisto, não representa uma cedência de soberania. Trata-se antes de um regime de utilização partilhada, no qual Portugal mantém a titularidade do território e a autoridade sobre as condições de utilização da base.

A presença norte-americana nas Lajes não é, portanto, um fenómeno novo nem excecional. Pelo contrário, ela constitui um dos elementos estruturantes da arquitetura de segurança do Atlântico Norte desde a década de 1940. A localização geográfica dos Açores, aproximadamente a meio caminho entre a América do Norte, a Europa e o Médio Oriente, transformou naturalmente a base num ponto logístico de enorme valor estratégico. Durante a Guerra Fria, foi um elo fundamental na ligação aérea entre os Estados Unidos e a Europa. Depois do fim do bloco soviético, continuou a desempenhar funções relevantes em operações de transporte, reabastecimento e apoio logístico.

É neste contexto que deve ser analisada a atual polémica. A maior parte das operações associadas às Lajes consiste em voos de trânsito, escalas técnicas ou reabastecimentos, atividades que fazem parte da logística militar internacional e que não implicam necessariamente participação direta em operações de combate. Confundir a utilização de uma base para fins logísticos com um envolvimento militar direto constitui um erro frequente no debate público.

Do ponto de vista jurídico, a responsabilidade internacional de um Estado por atos militares depende de fatores muito mais exigentes do que a simples passagem de aeronaves estrangeiras pelo seu território. Para que Portugal pudesse ser considerado parte ativa num conflito, seria necessário demonstrar que autorizou ou participou diretamente em operações militares específicas. O uso de infraestruturas para fins de trânsito ou apoio técnico dificilmente preencheria esse requisito.

Outro elemento frequentemente ignorado no debate é o facto de que as relações de defesa entre Portugal e os Estados Unidos são parte integrante do sistema de alianças da NATO. A cooperação militar entre aliados implica necessariamente algum grau de partilha de infraestruturas, capacidades logísticas e apoio operacional. Se cada utilização de uma base por forças aliadas fosse interpretada como participação direta num conflito, o funcionamento de qualquer aliança militar seria praticamente impossível.

Há ainda um segundo equívoco que alimenta a polémica: a ideia de que Portugal não tem qualquer controlo sobre o que acontece nas Lajes. Embora muitas operações militares sejam classificadas por razões de segurança, isso não significa ausência de supervisão institucional. As atividades na base são enquadradas por acordos diplomáticos e militares que definem regras de utilização e canais de comunicação entre os dois Estados.

Naturalmente, em democracia é legítimo discutir o grau de transparência das operações militares e o papel do parlamento na fiscalização das políticas de defesa. Contudo, essa discussão deve assentar em factos e não em perceções. Transformar cada movimento logístico numa narrativa de envolvimento bélico apenas contribui para obscurecer a análise estratégica.

Por fim, convém reconhecer que a existência da Base das Lajes também representa vantagens para Portugal. Para além da importância geopolítica que confere ao arquipélago dos Açores, a base tem desempenhado um papel relevante em missões humanitárias, operações de evacuação e resposta a crises internacionais. Ao longo das décadas, serviu igualmente como plataforma para cooperação científica, meteorológica e de segurança no Atlântico.

A polémica sobre as Lajes tende, assim, a repetir um padrão conhecido: a transformação de uma questão logística e estratégica complexa numa narrativa política simplificada. Entre o alarmismo e a realidade existe um espaço que exige análise informada e serenidade.

Portugal não é um espectador passivo nem um ator militar beligerante por causa das escalas técnicas realizadas nos Açores. É, antes de tudo, um membro de uma aliança internacional que participa num sistema de segurança coletiva — sistema esse que, goste-se ou não, implica cooperação militar e partilha de infraestruturas estratégicas.

Desconstruir a polémica das Lajes passa, portanto, por distinguir entre perceção e realidade: entre a ideia de envolvimento num conflito e a função logística de uma base que, há mais de setenta anos, constitui um dos pontos-chave da ligação estratégica entre os dois lados do Atlântico.

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