Secções
Entrar
Pedro Ledo Jurista especialista em Cibersegurança
22.08.2026

A Coragem de construir literacia em IA: O caso da AQIA portuguesa

Portugal tem uma academia de IA à altura dos desafios dos próximos dez anos.

Quando surgem projetos verdadeiramente transformadores no ecossistema português de tecnologia, merece-se parar e reconhecer a coragem de quem ousa construir sem esperar por modelos internacionais já consolidados. A Academia para a Qualificação em Inteligência Artificial, mais conhecida por AQIA, é precisamente um desses casos em que um punhado de visionários decidiu que Portugal não poderia mais estar dependente de formação estrangeira para qualificar a sua força de trabalho em inteligência artificial.

Quando se olha para o mercado europeu de educação em IA, predominam as plataformas anglo-saxónicas. Coursera, Udacity, edX estabeleceram um padrão que parecia incontornável: aulas gravadas em inglês, contextos internacionais, ausência de comunidade local. A AQIA rompeu com este padrão. Pedro Esteves, Duarte Drumond e Rui Silva compreenderam algo que frequentemente passa despercebido nos círculos de decisão portuguesa: a formação em inteligência artificial não pode ser descontextualizada. Não basta traduzir conceitos. É necessário criar um ecossistema próprio onde profissionais, empresas e instituições aprendem a aplicar IA com método, responsabilidade e foco na realidade portuguesa.

A criação de uma academia de IA em Portugal em 2024 representa uma aposta estratégica numa altura em que a Comissão Europeia ainda equacionava regulamentação através do AI Act. Enquanto muitos organizavam seminários para discutir o futuro, esta equipa construía infraestrutura educativa. A AQIA oferece hoje cursos gravados em português, tutores virtuais disponíveis 24/7, quizzes interativos, comunidades de apoio e uma aplicação gamificada que acompanha a evolução do utilizador. Não é um portefólio de formações soltas. É um ecossistema pensado para diferentes níveis de aprendizagem: do primeiro contacto com ferramentas de IA até à utilização avançada, automação, prompt engineering e inteligência artificial generativa.

O impacto já é mensurável. A AQIA expandiu-se para empresas como plataforma de formação interna, permitindo que organizações capacitem os seus colaboradores em horário laboral com rastreabilidade de horas e resultados. Isto não é menor. Estamos a falar de um modelo de educação corporativa que funciona e que está a servir PMEs e grandes empresas em simultâneo. A estrutura modular da AQIA reconhece que o mercado português não é homogéneo: uma startup tem necessidades de IA diferentes de uma administração pública ou de um departamento legal.

O que torna esta iniciativa particularmente admirável é a consciência ética que permeia todo o projeto.

A missão explícita da AQIA é que os profissionais dominem as ferramentas, compreendam os riscos e saibam aplicar IA de forma responsável, útil e transformadora. Não é apenas a promessa de dominar ferramentas de produtividade. É construir literacia em IA, o que implica compreensão de implicações, governance e impacto real. É exatamente o tipo de formação que os reguladores europeus esperavam de instituições quando conceberam o AI Act.

A trajectória de cada fundador reforça este comprometimento com excelência e pragmatismo.

Pedro Esteves trouxe experiência consolidada em formação, empreendedorismo e publicação de conhecimento através do livro "Inteligência Artificial com Confiança" e do portal IA Hoje. Duarte Drumond, com sua especialização em prompt engineering e coautoria de "Inteligência Artificial como Copiloto", representa a dimensão técnica aplicada.

Rui Silva, com percurso como formador e consultor de IA, especializado em automação e impacto empresarial real, garante que tudo é ancorável em resultados mensuráveis.

Não são apenas formadores. São profissionais que continuam a trabalhar com empresas reais, garantindo que o conteúdo da AQIA não envelhece numa torre de marfim académica.

Em contexto europeu, Portugal precisava disto.

Enquanto França investe em estruturas governamentais de IA, Espanha expande centros tecnológicos e a Alemanha consolida ecossistemas industriais de IA, tínhamos que construir a base educativa que permitisse ao tecido empresarial português acompanhar esta transformação. A AQIA é essa base. Merecia reconhecimento não por ser perfeita, mas por ser necessária e por ter sido construída com rigor.

Existe um aspecto crítico que frequentemente passa despercebido nos debates sobre inteligência artificial em Portugal. Não basta ter ferramentas. É imperativo que quem trabalha com IA o faça com qualidade e rigor metodológico. A diferença entre uma implementação de IA que cria valor e uma que gera problemas legais, operacionais e éticos reside precisamente na formação de qualidade. Quando um profissional aprende prompt engineering numa plataforma online genérica, pode ganhar produtividade a curto prazo. Mas quando aprende através de um programa estruturado que contextualiza inteligência artificial no ecossistema português, considerando regulamentação europeia, implicações éticas e governance corporativa, está a construir competência durável. A AQIA compreendeu isto. Não oferece atalhos. Oferece método. Oferece compreensão de porque é que cada técnica funciona e qual o seu impacto. Esta abordagem disciplinada é o que distingue uma academia de simples disponibilização de conteúdo.

O rigor na instrução de IA torna-se ainda mais crucial quando consideramos a responsabilidade jurídica e de conformidade. Profissionais que trabalham com automação, processamento de dados pessoais através de modelos de IA, ou desenvolvimento de sistemas de decisão automatizada precisam compreender não apenas como funcionam, mas também quais as suas obrigações legais sob o AI Act, o RGPD e a legislação portuguesa em evolução. Uma formação superficial cria exposição regulatória. Uma formação rigorosa cria confiança e segurança jurídica. Quando a AQIA forma equipas de empresas em IA generativa, está a criar profissionais que não apenas produzem mais, mas que o fazem de forma responsável, rastreável e em conformidade com o enquadramento regulatório europeu. Esta é a diferença entre ter pessoas com acesso a ferramentas e ter organizações verdadeiramente preparadas para a era da IA.

Parabéns a Pedro Esteves, Duarte Drumond e Rui Silva por terem tido a coragem de construir, em português, uma instituição educativa que já faz inveja a muitas iniciativas internacionais consolidadas. Portugal tem uma academia de IA à altura dos desafios dos próximos dez anos.

Mais crónicas do autor
22 de agosto de 2026 às 07:00

A Coragem de construir literacia em IA: O caso da AQIA portuguesa

Portugal tem uma academia de IA à altura dos desafios dos próximos dez anos.

15 de agosto de 2026 às 07:00

O Profissional de Cibersegurança: Uma formação que não admite atalhos

A formação académica de um profissional de cibersegurança deve ser obrigatoriamente uma licenciatura: Engenharia Informática ou Direito pelas áreas jurídicas complexas e exigentes.

08 de agosto de 2026 às 07:00

Vale a pena aprender inteligência artificial? O futuro terá um copiloto

A IA não vai substituir a maioria das pessoas, mas as pessoas que a dominam vão, inevitavelmente, ocupar o lugar das que a ignoram. O futuro não pertence às máquinas. Pertence a quem souber comandá-las, mantendo as mãos nos comandos e o pensamento crítico ligado.

30 de julho de 2026 às 12:12

Análise minuciosa ao trabalho do Governo na Modernização Tecnológica do Estado

A simplificação administrativa deixou também de ser slogan e passou a ter métricas. O diagnóstico assumido pelo próprio ministro Adjunto e da Reforma do Estado foi cru: cerca de 356 horas para abrir uma empresa e mais 391 horas em obrigações burocráticas, ou seja, perto de 750 horas por ano perdidas em papelada, o equivalente a um terço do ano de trabalho de um empresário.

27 de julho de 2026 às 10:15

As máquinas entraram no santuário: a inteligência artificial ao serviço dos serviços secretos

Análises publicadas sobre a Operação Epic Fury, iniciada a 28 de fevereiro de 2026, descrevem cerca de 5.500 a 6.000 alvos atingidos no Irão em três semanas, com os primeiros mil ataques nas primeiras vinte e quatro horas, suportados por uma plataforma que fundiu nove sistemas de informações militares numa única interface.

Mostrar mais crónicas