Por que a Justiça precisa de aprender a falar com os cidadãos
A Newsletter Na Revista no seu e-mail
Conheça em primeira mão os destaques da revista que irá sair em banca.
(Enviada semanalmente)
Uma justiça que não se faz entender arrisca ser percecionada como uma justiça que não funciona.
Há uma máxima secular no universo jurídico segundo a qual "o magistrado fala pela pena, não pela língua". Durante gerações, este isolamento foi interpretado como garantia de independência, neutralidade e solenidade. Porém, na era da informação instantânea, das redes sociais e da polarização crescente, o silêncio institucional deixou de ser uma virtude protetora para se converter num terreno fértil para a desconfiança.
Como bem assinala o recente guia estratégico publicado pelo CEELI Institute (Central and Eastern Europe Law Initiative) nos seus "Guidelines on Judicial Communication", o ecossistema mediático atual impõe uma mudança radical de paradigma. Uma justiça que não se faz entender arrisca ser percecionada como uma justiça que não funciona. Para os magistrados judiciais e do Ministério Público, comunicar melhor com a sociedade não é um exercício de vaidade ou de relações-públicas. É uma necessidade democrática urgente para preservar o próprio Estado de Direito.
O argumento central desta abertura é de uma simplicidade desarmante. As pessoas não podem confiar naquilo que não compreendem. A maioria dos cidadãos nunca pisou uma sala de audiências. A sua perceção sobre a eficácia do sistema de justiça, a integridade dos magistrados ou a isenção da ação penal é moldada quase exclusivamente pelo que leem nas notícias ou encontram nos seus feeds digitais.
Quando o sistema judicial se recusa a traduzir o seu jargão técnico, o famoso "juridiquês", para uma linguagem acessível, cria-se um vazio. E no espaço público contemporâneo, o vazio não permanece vazio por muito tempo. É rapidamente preenchido por desinformação, especulações e narrativas políticas de má-fé que visam deslegitimar as instituições. Perante um ataque ou uma notícia falsa, a passividade já não sinaliza superioridade moral, mas antes conivência ou fraqueza.
É claro que esta abertura traz desafios complexos e exige cautela. O guia do CEELI Institute alerta exaustivamente para a necessidade de decoro e moderação, especialmente no uso pessoal de redes sociais por parte dos magistrados. A pressa dos "likes" ou as reações a quente não combinam com a ponderação exigida.
Por isso, o caminho passa pela profissionalização e por modelos mistos de comunicação. Os tribunais precisam de assessores de imprensa dedicados, mas também de "juízes e procuradores porta-vozes" — profissionais treinados para explicar de forma clara o impacto de uma decisão complexa ou os contornos de uma operação sem violar o segredo de justiça ou a presunção de inocência.
Além disso, a comunicação judicial deve ser proativa. Projetos de proximidade, como a introdução de programas de educação jurídica nas escolas, visitas guiadas a tribunais e a simplificação dos próprios websites institucionais (preparando-os inclusive para que os assistentes de Inteligência Artificial entreguem dados corretos aos utilizadores) são fundamentais para humanizar o setor.
Em última análise, aproximar a Justiça do cidadão comum não significa ceder ao populismo penal ou transformar julgamentos em espetáculos mediáticos. Significa, sim, assumir a responsabilidade de prestar contas à sociedade em nome da qual o poder é exercido. Num mundo fustigado pelo ceticismo institucional, os juízes e procuradores têm de aceitar que explicar as suas funções e decisões de forma clara e transparente é, hoje, o argumento mais poderoso para garantir a sua própria independência.
Por que a Justiça precisa de aprender a falar com os cidadãos
Quando, pelo contrário, o Ministério Público opta por separar processos e autonomizar núcleos de ilicitude para permitir investigações mais céleres e focadas, a crítica não desaparece, mas muda de sinal.
Uma busca não é uma declaração de culpa. É um ato de recolha. O magistrado que a autoriza ou determina não está a afirmar que o visado cometeu um crime. Está a criar as condições para que os factos possam ser apurados com rigor e com base em elementos objetivos.
Não é possível proclamar a independência dos tribunais e, ao mesmo tempo, tratar o Ministério Público como uma extensão do poder executivo, um instrumento dócil de políticas de segurança ou uma estrutura sujeita a tutelas hierárquicas que respondem perante o governo.
É cada vez mais importante numa sociedade envelhecida como a nossa que sejam criadas as condições que permitam a todas as pessoas beneficiar de uma existência condigna e independente, integrada na sociedade e na sua vida social e cultural.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.