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Paula Cordeiro Especialista em comunicação
11.05.2026

Privacidade insustentável

Com uma pequena alteração nos termos e condições, a Meta passou a poder aceder ao conteúdo das mensagens diretas do Instagram, incluindo imagens, vídeos e notas de voz. Encriptação? Foi-se. Termos e condições? Os que aceitamos sem ler e os quais, sem aceitar, não podemos usar a aplicação. Justo?…

Segredo para muitos de nós, esta é uma informação que passa ao lado e que deveria ocupar um lugar central na nossa relação com a tecnologia: eles estão a ver. Vivemos num Big Brother ao estilo Black Mirror, a série da Netflix, e não queremos saber. Trocamos a comodidade do entretenimento e a utilidade de alguns serviços por tudo, até a nossa privacidade. Voltemos atrás. Em tempos, Mark Zuckerberg fez uma promessa que ficou registada, afirmando que "o futuro é privado". Nas aplicações da Meta, as comunicações privadas seriam seguras, a encriptação ponta a ponta chegaria a todas as aplicações do grupo. Agora, com uma pequena alteração nos termos e condições, a Meta passou a poder aceder ao conteúdo das mensagens diretas do Instagram, incluindo imagens, vídeos e notas de voz. Encriptação? Foi-se. Termos e condições? Os que aceitamos sem ler e os quais, sem aceitar, não podemos usar a aplicação. Justo?…

O timing da decisão merece atenção. A mudança aconteceu doze dias antes do prazo legal imposto pelo "Take It Down Act", uma lei norte-americana que obriga as plataformas a remover imagens íntimas não consensuais em 48 horas. Como a encriptação ponta a ponta tornaria esse cumprimento tecnicamente impossível, a solução foi suprimir a encriptação. Resolvido. Simples, não? E soubemos pela comunicação social. Cada vez melhor.

A Meta não está sozinha neste padrão de decisões tomadas sem pedir licença. O Chrome, o browser mais utilizado no mundo, está a instalar silenciosamente um modelo de inteligência artificial nos dispositivos dos utilizadores, sem aviso e sem consentimento. O ficheiro, de cerca de quatro gigabytes, corresponde ao Gemini Nano, o modelo de linguagem da Google concebido para correr diretamente no dispositivo. Se o utilizador o eliminar, o ficheiro volta a ser descarregado na próxima vez que o browser arrancar. A Google respondeu dizendo que o modelo existe desde 2024 e que passou a oferecer, em fevereiro, uma opção de desativação nas definições do sistema. A opção existe, de facto. O que ainda falta é saber como a desativar.

Zoë Hitzig era investigadora na OpenAI. Demitiu-se. O seu argumento é perturbador porque coloca o problema onde ele realmente está: nos incentivos.

O ChatGPT acumulou aquilo que Hitzig descreve como o arquivo mais detalhado do pensamento humano privado alguma vez reunido. As pessoas falam com o sistema sobre medos de saúde, problemas de relacionamento, dúvidas existenciais, coisas que não dizem a ninguém. Introduzir publicidade nesse contexto cria uma pressão que tende a alterar, de forma gradual e quase impercetível, aquilo que o sistema é incentivado a fazer. Hitzig viu o mesmo acontecer com o Facebook. A diferença é que desta vez o arquivo é muito mais íntimo. E os incentivos comerciais, uma vez instalados, raramente andam para trás.

Sentei-me a ler notícias e encontrei este fio condutor: aprender a usar para não ser usado foi, durante muito tempo, o meu princípio o qual, já não é suficiente. As plataformas fazem escolhas sobre o que os utilizadores merecem saber, sobre o que podem recusar, sobre onde termina o serviço e começa a extração de valor. E fazem-nas sem permissão, porque sabem que a ausência de informação é também uma forma de consentimento.  A privacidade nas grandes plataformas sociais está a deixar de ser um padrão para se tornar uma exceção, uma escolha deliberada que exige esforço e conhecimento para ser feita. Quase como os termos e condições. Ou aceitamos, ou estamos fora.

Hoje, aprender a usar a tecnologia é, antes de mais, aprender a reconhecer quando é que nos está a usar. Ou seja, quase sempre.

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