Já ninguém dança. Dançar tornou-se insustentável
A digitalização das nossas vidas e a sua transposição permanente para a web afastaram-nos do essencial.
Raramente pensamos sobre o privilégio de poder pensar e dizer o que pensamos. A internet democratizou esse acesso ao espaço público e à palavra, dando voz a qualquer um de nós. Contudo, como quase tudo no digital, isso não é necessariamente bom. Nem necessariamente mau.
A internet cansa.
A digitalização das nossas vidas e a sua transposição permanente para a web afastaram-nos do essencial. Falei recentemente de agricultura num espaço no qual escrevo quase sempre sobre tecnologia. Não foi por acaso. A palavra tecnologia vem do grego tékhne, ofício, habilidade, técnica, e de logos, estudo. Tecnologia é, no fundo, aplicação do conhecimento para resolver problemas.
A questão é outra: porque continuamos a criar tecnologia que amplifica os problemas anteriores ou cria novos problemas para resolver?
Foi por isso que falei de agricultura, como poderia falar de qualquer coisa que nos ajude a recuperar consciência ou presença. Não numa lógica simplista de que antigamente é que era bom. Contudo, existe, no passado, qualquer coisa que ultrapassa a nostalgia vendida pelas tendências retro. Havia menos controlo. E, mesmo quando éramos manipulados, existia sofisticação no processo. Hoje, o mecanismo está à vista de todos e, ainda assim, ninguém parece conseguir vê-lo.
Escrevi também sobre o fim da encriptação de mensagens na Meta Platforms, sobretudo no Instagram. Se, por um lado, isso dificulta a ocultação de atividades ilegais, por outro, expõe volumes gigantescos de informação privada. Conversas, fotografias, conteúdos partilhados entre amigos. E mesmo sabendo que as plataformas conseguem aceder a quase tudo o que existe nos nossos dispositivos, desvalorizamos completamente essa ideia.
O que significa privacidade hoje?
Muito pouco.
Andamos na rua e somos identificados. A justificação é sempre a mesma, segurança. Mas, ao mesmo tempo, governos, empresas e autoridades passam a conseguir mapear com mais detalhe quem somos, onde estamos e o que fazemos. O modelo panóptico deixou de ser teoria para passar a ser a infraestrutura invisível da vida contemporânea.
A vigilância permanente está a alterar profundamente o comportamento humano porque estamos constantemente a ser observados. Redes sociais digitais expõem o melhor e o pior das nossas vidas. Plataformas de partilha de imagens íntimas limitam liberdade e confiança. Sistemas de reconhecimento facial identificam milhões de pessoas por dia apenas por circularem no espaço público.
O que muda, quando tudo mudou?
O discurso de Connor Leahy, investigador na área da inteligência artificial, na Nexus Conference 2025, tornou-se particularmente relevante precisamente por isto. Ao falar sobre vigilância excessiva, dá um exemplo aparentemente banal, mas revelador: os jovens deixaram de dançar.
“Vão a clubes e não dançam. Porquê? Porque estão a ser filmados.” A frase parece exagerada até pensarmos nela seriamente.
Se tens 18 anos e vais a uma discoteca, és filmado. Se falhas socialmente, és filmado. Se fazes figura ridícula, alguém publica. Tudo pode transformar-se em conteúdo. Tudo pode circular. Tudo pode permanecer. E isso altera comportamento.
Mas Connor Leahy vai mais longe quando fala sobre aplicações de encontros e algoritmos, explicando que os algoritmos não são desenhados para que alguém encontre o amor da sua vida, antes para maximizar permanência, retenção e retorno à aplicação. No fundo, entregámos as nossas normas relacionais, a forma como nos aproximamos uns dos outros e até a nossa intimidade a empresas tecnológicas que optimizam relações humanas segundo lógica publicitária. A conversa é sempre a mesma. Tudo se resume à atenção, retenção e dinheiro. Alguém ganha com isso. E, seguramente, não somos nós.
Nem os miúdos, que já não dançam. Ou os pais dos miúdos, que se esqueceram de como era dançar.
Já ninguém dança. Dançar tornou-se insustentável
A digitalização das nossas vidas e a sua transposição permanente para a web afastaram-nos do essencial.
Privacidade insustentável
Com uma pequena alteração nos termos e condições, a Meta passou a poder aceder ao conteúdo das mensagens diretas do Instagram, incluindo imagens, vídeos e notas de voz. Encriptação? Foi-se. Termos e condições? Os que aceitamos sem ler e os quais, sem aceitar, não podemos usar a aplicação. Justo?…
Insustentavelmente (des)informados
Há quem acuse os media de apresentar problemas sem soluções. Uma análise prévia aos media de serviço público, sobre as notícias relativas às alterações climáticas, concluiu isso mesmo.
Cara nova, dados insustentáveis
No final, a Meta Platforms ganha sempre, não porque manipula directamente cada decisão mas por estruturar um ambiente impossível para essas decisões.
Desligar para existir: insustentável cansaço digital
Estará o modelo de subscrição musical digital ameaçado? Ainda não mas, se pensarmos que veio substituir décadas de relação individual com a música, e que são os mais jovens a procurar alternativas para abandonar esta lógica, talvez estejamos perante uma inflexão cultural.