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Mónica Ferro Diretora do escritório de Londres do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA)
08.03.2026

Quando os direitos das mulheres se tornam a primeira vítima das crises

Em contextos de crise, os direitos das mulheres são frequentemente os primeiros a perder prioridade— e os últimos a ser restaurados.

(O artigo desta semana de Mónica Ferro é escrito a duas mãos com a ajuda de Sara Tavares, estagiária do UNFPA - Londres e aluna do ISCSP.)

No momento em que celebramos o Dia Internacional das Mulheres, somos chamados não apenas a reconhecer conquistas, mas também a enfrentar realidades incómodas. Entre discursos de progresso e compromissos renovados, há milhões de mulheres e raparigas que, silenciosamente, continuam privadas de direitos fundamentais — desde o acesso à justiça até aos cuidados de saúde essenciais. Não por falta de conhecimento. Não por ausência de soluções. Mas, demasiadas vezes, por falta de vontade política e de financiamento.

O tema global deste ano — Direitos. Justiça. Ação. Para Todas as Mulheres e Raparigas — lembra-nos que os direitos só existem verdadeiramente quando se tornam realidade na vida das pessoas. Hoje, essa realidade está ainda longe de ser alcançada.

A cada dez minutos, uma mulher ou rapariga é morta por um parceiro íntimo ou por um membro da própria família. Quase uma em cada três mulheres no mundo — cerca de 840 milhões — sofrerá violência física ou sexual ao longo da vida. E, ainda hoje, em muitos países, uma mulher precisa da autorização de um marido ou de um familiar para aceder a serviços de contraceção.

Estes números não pertencem a um passado distante. São a realidade de 2026.

Mas existe uma diferença profunda entre leis escritas e direitos vividos.

Em média, as mulheres no mundo dispõem de apenas 64% dos direitos legais reconhecidos aos homens. E mesmo onde existem leis, estas são frequentemente mal implementadas, subfinanciadas ou inacessíveis para quem mais precisa. Para milhões de mulheres e raparigas, a justiça continua a ser uma promessa distante.

É neste ponto que os números começam novamente a ganhar rosto.

Desde o início de 2025, cortes significativos no financiamento internacional afetaram gravemente programas de saúde sexual e reprodutiva e de combate à violência baseada no género em contextos humanitários e frágeis. Em 19 países onde o UNFPA — o Fundo das Nações Unidas para a População — opera em situações de emergência, mais de 11 milhões de mulheres e raparigas perderam acesso a serviços vitais.

Por detrás deste número há histórias muito concretas.

Há clínicas de saúde materna que continuam de portas abertas, mas já não têm parteiras. Há prateleiras vazias onde antes havia contracetivos. Há sobreviventes de violência que deixam de encontrar um espaço seguro para pedir ajuda. Mais de 1.000 centrsos de saúde e clínicas móveis foram forçadas a encerrar. Mais de 260 espaços seguros para mulheres e raparigas fecharam. Quase 6.000 profissionais de saúde – muitos deles mulheres na linha da frente – perderam os seus empregos.  

Estes números representam muito mais do que cortes orçamentais. Representam retrocessos no direito à saúde, à dignidade e à autonomia.

Em contextos de crise, os direitos das mulheres são frequentemente os primeiros a perder prioridade— e os últimos a ser restaurados.

Em países como o Afeganistão, o Iémen ou o Sudão, onde os sistemas de saúde já enfrentavam fragilidades profundas, os cortes de financiamento estão a agravar riscos de forma dramática. Milhões de mulheres deixaram de ter acesso a cuidados pré-natais, a partos assistidos por profissionais qualificados ou a serviços de apoio em caso de violência.

Quando uma parteira deixa de estar disponível numa comunidade remota, o impacto mede-se em vidas. Quando um espaço seguro encerra, o silêncio e o medo voltam a ganhar terreno. Quando faltam kits pós-violação, o trauma agrava-se.

Há ainda uma consequência menos visível, mas igualmente grave: a perda de profissionais de saúde. Em contextos de fragilidade, treinar novas parteiras e especialistas pode levar anos. Quando esses profissionais desaparecem do sistema, o impacto prolonga-se muito para além da crise imediata. Se hoje desinvestimos, amanhã pagaremos um preço ainda mais elevado — humano e financeiro. 

 Direitos das mulheres são pilares do desenvolvimento 

O Dia Internacional das Mulheres não é apenas uma celebração simbólica. É uma chamada de atenção para que os direitos das mulheres são a espinha dorsal de sociedades justas, resilientes e prósperas. 

Investir nos direitos das mulheres não é apenas uma questão moral. É também uma decisão estratégica.

Investir na saúde sexual e reprodutiva reduz a mortalidade materna, fortalece famílias, melhora resultados educativos e impulsiona economias locais.  Os nosso programas mostram que cada euro investido em planeamento familiar e cuidados maternos gera múltiplos retornos sociais e económicos. E que, quando esses serviços desaparecem, o custo não desaparece — apenas se transforma. Surge sob a forma de complicações obstétricas evitáveis, aumento da violência, maior vulnerabilidade económica e ciclos de pobreza reforçados.

E num mundo cada vez mais fragmentado, o multilateralismo continua a ser o mecanismo mais eficaz para enfrentar desafios globais complexos. Nenhum país, isoladamente, consegue responder às crises humanitárias que atravessam fronteiras e gerações.

O sistema das Nações Unidas foi criado precisamente para garantir que, mesmo nos contextos mais difíceis, existe uma rede de solidariedade internacional capaz de proteger as pesssoas em situação de vulnerabilidade. O UNFPA atua frequentemente como prestador de último recurso na resposta à violência baseada no género e lidera a ação em saúde sexual e reprodutiva em emergências. Quando outros parceiros reduzem ou suspendem operações, as expectativas recaem sobre as agências multilaterais. Mas nós só podemos cumprir o nosso mandato se tivermos financiamento previsível, flexível e sustentado.  

Enfraquecer o financiamento multilateral não significa apenas reduzir orçamentos. Significa fragilizar a capacidade coletiva de garantir direitos fundamentais. Significa aceitar que milhões vão ficar para trás.

Num momento em que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável enfrentam atrasos significativos, preservar um multilateralismo forte é essencial para manter viva a promessa central da Agenda 2030: não deixar ninguém para trás.

E, no entanto, estimamos que em 2026, que quase mais 10 milhões de pessoas possam perder acesso a serviços essenciais se o financiamento não for restabelecido. Centenas de clíinicas de saúde e espaços seguros permanecem em risco de encerramento.

Perante este cenário, a pergunta que se impõe é simples: que mundo queremos construir?

Um mundo onde os direitos das mulheres se tornam negociáveis em tempos de crise? Ou um mundo onde, precisamente nas crises, reafirmamos o nosso compromisso com a dignidade humana, a justiça e a igualdade?

Neste Dia Internacional das Mulheres, a melhor homenagem que podemos prestar não é apenas celebrar progressos passados. É, sobretudo,  proteger as conquistas alcançadas ao longo de décadas.

Isso exige liderança política, compromisso financeiro e uma renovada confiança no multilateralismo.

Exige reconhecer que investir nos direitos das mulheres não é caridade. É justiça.

E quando falamos de 11 milhões de mulheres e raparigas, não falamos de estatísticas. Falamos de mães, filhas, estudantes, profissionais, sobreviventes e líderes.

Falamos de vidas reais.

Não deixar ninguém para trás não pode ser apenas um slogan. Tem de ser uma escolha política concreta.

E essa escolha começa por garantir que os serviços essenciais que salvam vidas continuam disponíveis — hoje, amanhã e para as gerações futuras.

Sara Tavares, estagiária do UNFPA - Londres e aluna do ISCSP DR

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