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Mónica Ferro Diretora do escritório de Londres do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA)
01.07.2026

A violência que a guerra esconde

Os conflitos modernos travam-se também sobre os corpos dos mais vulneráveis. Em demasiados contextos, a violência sexual continua a ser utilizada como arma de guerra, instrumento de terror, mecanismo de controlo e forma de destruição do tecido social das comunidades.

Há números que chocam. E há números que nos obrigam a agir.

O mais recente relatório do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre Violência Sexual em Conflito revela que os casos de violência sexual contra crianças aumentaram 35% em 2024. Por detrás desta estatística estão milhares de vidas interrompidas, infâncias roubadas e futuros em risco.

Quando pensamos em guerra, imaginamos tanques, armas e cidades destruídas. Mas os conflitos modernos travam-se também sobre os corpos dos mais vulneráveis. Em demasiados contextos, a violência sexual continua a ser utilizada como arma de guerra, instrumento de terror, mecanismo de controlo e forma de destruição do tecido social das comunidades.

As principais vítimas são, cada vez mais, crianças e adolescentes. Sobretudo raparigas.

O deslocamento forçado, a separação das famílias, o colapso dos sistemas de proteção e a fragilidade das instituições criam condições perfeitas para que a violência prospere. Em campos de deslocados, em rotas migratórias perigosas ou em comunidades devastadas pela guerra, milhões de crianças encontram-se expostas à exploração sexual, ao tráfico humano, aos casamentos forçados e a múltiplas formas de abuso.

A adolescência, que deveria ser um período de descoberta, crescimento e esperança, transforma-se frequentemente numa fase marcada pelo medo, pela violência e pelas oportunidades perdidas.

No Haiti, a violência sexual cometida por grupos armados aumentou 163% entre 2024 e 2025. Quase todas as sobreviventes identificadas eram mulheres e raparigas. E sabemos que estes números representam apenas uma fração da realidade. No primeiro trimestre de 2026, apenas 1% dos casos registados de violência baseada no género foi reportado às autoridades. O silêncio continua a ser imposto pelo medo, pelo estigma e pela ausência de proteção.

Na Ucrânia, desde a escalada do conflito em 2022, foram documentados centenas de casos de violência sexual. 

No Sudão, uma das crises humanitárias mais graves da atualidade, estima-se que 12,4 milhões de mulheres e raparigas estejam em risco de violência baseada no género em 2026. O colapso dos mecanismos de proteção, a deslocação massiva da população e a redução do acesso a serviços essenciais estão a criar um cenário de enorme vulnerabilidade.

Mas a realidade pode ser ainda mais grave do que os dados sugerem.

A violência sexual permanece um dos crimes mais subreportados do mundo. Muitas vítimas nunca denunciam. Muitas crianças não têm sequer palavras para descrever o que lhes aconteceu. Em muitos contextos, procurar ajuda pode significar enfrentar rejeição familiar, exclusão social ou novas ameaças à própria segurança.

É precisamente por isso que os sobreviventes devem estar no centro de qualquer resposta.

No terreno, o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) trabalha diariamente para garantir que mulheres, raparigas e crianças sobreviventes de violência tenham acesso a cuidados de saúde, apoio psicossocial, proteção e assistência jurídica. Em situações de emergência, os serviços prestados pelo UNFPA podem significar a diferença entre a recuperação e um ciclo contínuo de trauma e exclusão.

A experiência demonstra que responder à violência sexual não se resume a tratar as suas consequências. Exige prevenir novos abusos, reforçar sistemas de proteção, apoiar cuidadores, envolver comunidades e garantir que as vítimas participam nas decisões que afetam as suas vidas.

Exige também justiça.

A violência sexual nos conflito não é inevitável. Não é um dano colateral da guerra. Não é uma consequência inevitável da instabilidade. É uma grave violação dos direitos humanos e do direito internacional.

Quando os responsáveis não são investigados nem julgados, a impunidade torna-se combustível para novos crimes. A justiça não apaga o sofrimento das vítimas, mas constitui um passo essencial para quebrar ciclos de violência que se perpetuam geração após geração.

No entanto, enquanto as necessidades aumentam, os recursos diminuem.

Em 2026, as organizações humanitárias necessitam de 445 milhões de dólares para responder à violência baseada no género em situações de emergência. Em meados de junho, apenas 17% desse valor tinha sido alocado.

Este défice de financiamento tem consequências concretas. Significa menos centros de apoio. Menos profissionais especializados. Menos acesso a cuidados médicos. Menos espaços seguros para crianças e adolescentes. Menos oportunidades para reconstruir vidas.

Num momento em que o mundo parece cada vez mais concentrado em disputas geopolíticas, rearmamento e segurança militar, importa recordar uma verdade fundamental: não existe verdadeira segurança enquanto milhões de crianças continuarem a ser vítimas de violência sexual em conflitos armados.

Proteger crianças e adolescentes não é apenas uma obrigação moral. É um investimento na paz, na estabilidade e no futuro.

Cada criança protegida representa uma possibilidade de reconstrução. Cada sobrevivente apoiado representa uma vitória contra a violência. Cada agressor responsabilizado representa uma mensagem clara de que estes crimes não serão tolerados.

As guerras podem destruir escolas, hospitais e comunidades. Não podemos permitir que destruam também a esperança de uma geração inteira.

O silêncio protege os agressores. A ação protege sobreviventes.

E perante uma realidade destas, a indiferença nunca é uma opção.

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