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Miguel Costa Matos Economista e deputado do PS
17.12.2024

O valor de ser jota

Desde o 25 de abril, várias são as causas que ganharam com haver "jotas". Desde a IVG ao casamento de pessoas do mesmo sexo, sem esquecer o fim do serviço militar obrigatório.

16 anos e meio, entrei na Sede Nacional da Juventude Socialista com o sonho de uma sociedade mais justa e a crença de que, com as nossas mãos, podíamos transformar o mundo. No passado dia 14, depois de quatro anos intensos a liderar esta estrutura, foi com profunda emoção que medespedi da "minha jota".  

A política constrói-se com muitos, e um socialista nunca o esquece. Devo muito a todos os que acreditaram e contribuíram para o projeto Tempo de Agir. Queríamos que a JS fosse mais do que uma escola de futuros políticos. Ambicionámos ser uma força capaz de concretizar mudanças reais na sociedade, com trabalho, convicção e o compromisso de transformar em propostas concretas aquilo que, há muito, se repetiam de moção em moção e congresso em congresso. Ao longo de quatro anos, ousámos aproximar-nos dos militantes, do associativismo e do território, para capacitar uma nova geração de protagonistas políticos e dar voz a todos os jovens. O resultado? Dezenas de conquistas legislativas e uma JS mais forte, dinâmica e à altura dos desafios do nosso tempo. 

Desde o 25 de abril, várias são as causas que ganharam com haver "jotas". Desde a IVG ao casamento de pessoas do mesmo sexo, sem esquecer o fim do serviço militar obrigatório e outras tantas conquistas, as jotas só puderam estar à frente do seu tempo porque dispunham de autonomia política. 

Mas a autonomia não pode ser dada por adquirida. Constrói-se diariamente pela vontade e ação dos seus dirigentes, com propostas ousadas para os principais problemas da vida dos portugueses – da dos jovens, mas não só. Ela depende também da sua capacidade orçamental e administrativa. Nada disso poderia, porém, ser possível se elas não fossem organizações democráticas, distintas dos partidos que integram. Outros partidos que não dispõem desta forma de organização para os seus jovens militantes argumentam que lá "os jovens sentam-se à mesma mesa que os menos jovens." Ignora quem o diz que isso também acontece no PS ou PSD, como bem ilustra o número de deputados jovens nos últimos anos. A diferença é que, onde há jota, por muito que tentem, não são as elites partidárias, mas, sim, os jovens que escolhem quem os representa e lidera. 

Ainda assim, não deixa de ser alarmante que, numa democracia consolidada, seja tão criticável um jovem interessar-se por política, participar e assumir as suas convicções. Surpreende que a militância seja frequentemente encarada como um exercício acrítico, acéfalo ou movido por interesses próprios. Militar numa juventude partidária é, na verdade um ato de altruísmo. É escolher entregar muito do seu tempo à causa pública, enfrentar o escrutínio coletivo e, muitas vezes, a crítica injusta, para servir a sociedade –na maioria dos casos de forma totalmente voluntária. É, sem dúvida, um gesto de maior coragem do o daqueles que se refugiam na indiferença ou na crítica de "bancada" e deixam para outros a construção da mudança que todos ambicionamos.  

Recuso-me, por isso, a desvalorizar o papel formativo das jotas. Muitos dos nossos líderes políticos começaram o seu percurso como militantes de juventudes partidárias, incluindo centenas de autarcas e os últimos três primeiros-ministros. Quem os conhece sabe bem como essa experiência lhes deu capacidades de liderança e uma compreensão mais profunda do país e das pessoas. 

Não é só a oratória, a coordenação de equipas ou a resolução de conflitos. É o conhecimento sobre políticas públicas, o funcionamento do Estado e as necessidades do território. É a rede de contactos que ajuda a encontrar parceiros e identificar boas práticas. Tudo isto (e tanto mais!) se ganha ao militar numa juventude partidária. Estas competências deviam ser currículo, mas, infelizmente, cada vez mais são cadastro. 

A política parece ser a única área em que a experiência é desvalorizada em favor da novidade. Admiramos tanto os "independentes" que há quem queira eleger para Presidente um militar cujas opiniões sobre a sociedade ou a política se desconhecem por completo. Talvez por isso seja tão fácil apontar o dedo às jotas, transformando-as em bodes expiatórios para justificar a falta de jovens a votar, a participar ativamente ou a serem eleitos por determinado partido. " 

Ainda assim, é natural que se estranhe o que se desconhece. Cabe-nos, por isso, continuar a mostrar o valor, tantas vezes incompreendido ou desvalorizado, de se ser militante da Juventude Socialista. Esta foi a casa – e continuará a ser – de tantas conquistas que mudaram a vida dos portugueses. Uma casa onde o sonho se encontra com a ação, onde as ideias se transformam em propostas e onde a luta por um país mais livre e mais justo nunca se esgota.  

Termino este ciclo com orgulho no tanto que fizemos. Agora, é a hora de novas mãos, novos rostos e novas ideias. À Sofia Pereira, eleita Secretária-Geral, e a quem não faltam qualidades, desejo a irreverência, inquietação e imaginação que são necessárias para este tempo. E que saiba que, nas horas difíceis, não está sozinha: conta comigo e com todas as gerações de jovens socialistas que, ao longo destes 50 anos, foram transformando o país.  

Ser jota é acreditar que o futuro não se espera, constrói-se. Esse foi o sonho que me trouxe aqui há 16 anos e que me acompanhará, agora noutro papel, com a mesma força e a mesma responsabilidade. Espero estar à altura desse desafio e do legado que, juntos, construímos. 

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