Secções
Entrar
Miguel Costa Matos Economista e deputado do PS
14.07.2026

A próxima crise de Fernando Alexandre

Era um desastre anunciado e Fernando Alexandre decidiu seguir em frente, comprometendo a normalidade da vida de dezenas de milhares de professores e alunos.

Os portugueses assistem por estes dias à quebra de confiança no sistema de exames nacionais. Com tantas áreas do país e do Estado em crise, este era um não-assunto para a maioria dos portugueses. Uns discutiam se devia sequer haver exames, outros se deviam valer mais, mas a sua administração era fiável.

Isso acabou. Há anos que o país se prepara para a realização de provas digitais, como aliás já acontece com as provas finais do 4.º, 6.º e 9.º anos. Este Ministro decidiu mudar o planeado para os alunos responderem em folhas físicas que depois seriam digitalizadas. Num gesto de sensatez, fez uma experiência-piloto com o exame de filosofia, no ano passado. No que apenas pode ser descrito como irresponsabilidade, ignorou as detetadas tanto na plataforma de digitalização como na de classificação. Um ano depois, a história repete-se, não como tragédia, mas como farsa.

É especialmente grave que saibamos hoje que, já depois destes problemas, o IAVE tenha contratado , que nem está pronta, nem o Governo decidiu aguardar pela sua conclusão. Na verdade, resolveria apenas parte do problema, pois ela foi pensada e contratada tendo em vista o modelo anterior de realização digital dos exames. Era um desastre anunciado e Fernando Alexandre decidiu seguir em frente, comprometendo a normalidade da vida de dezenas de milhares de professores e alunos.

Por muito boa imprensa que tenha, é difícil não recordar outros incidentes que traçam o perfil de ministro trapalhão – o número de alunos sem professores que afinal “”, tendo tido que uma alegada redução de 90% desse número; o atraso no pagamento dos apoios a ; a afirmação de que o Ensino Superior era um privilégio, sendo por duas vezes impedido de aumentar propinas; a culpabilização dos pela degradação das residências; ou, ainda, a intromissão inaceitável na e na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde acabou .

Logo quando pensávamos que pior seria impossível, Fernando Alexandre prepara-se para brindar o país com outra pérola da sua irresponsabilidade e incompetência, desta feita na ação social no ensino superior. Atualmente, 79 mil estudantes dependem de uma bolsa para enfrentarem os custos de acesso e frequência do ensino superior. Nos últimos anos, uma grande parte destas bolsas eram atribuídas automaticamente, 41 mil devido à transição de um ano para o outro, e 5482 logo no primeiro ano de admissão.

A segurança e rapidez com que as bolsas eram processadas dava às famílias informação e confiança para tomarem decisões sobre onde estudar. As candidaturas deveriam abrir a 25 de junho. Este ano não abriram. Nesse mesmo dia, o Governo publica um adiando o processo para 14 de agosto, mês que normalmente fecha já com cerca de metade das candidaturas submetidas. Isso significará que os serviços de ação social, de norte a sul do país, terão de analisar muitos mais processos num menor período de tempo.

Esse, infelizmente, não é o único problema. O Governo quer implementar já este ano um novo modelo de ação social, mas que aos dias de hoje ainda não é conhecido por quem terá de o implementar. Permanecem indefinidas coisas básicas como o valor que será pago por um quarto numa residência universitária, que tanto poderá ser 91€ como 161€. Numa estranha repetição da saga vivida com os exames nacionais, há mesmo uma nova plataforma anunciada, mas que ainda não está disponível.

Tudo isto poderia ser evitado. Fernando Alexandre anunciou a revisão do modelo de ação social no ensino superior a , com um “estudo que já está em curso”. Previa-se que esse estudo, encomendado à Nova SBE, tivesse concluído a 30 de abril de 2025, para que pudesse entrar em vigor já no ano letivo seguinte. Foi só a 2 de setembro de 2025, tendo o Governo esperado até para tirar daí conclusões e estabelecer o modelo que queria. Foi preciso esperar quase outros 6 meses, até 21 de maio de 2026, para a proposta ser aprovada em .

Ainda assim, com tanto tempo para desenvolver esta reforma, os serviços de ação social, de norte a sul do país, ainda não têm a informação completa para poderem preparar a sua implementação. Os dados disponíveis ao momento pintam um cenário negro: segundo o reitor da Universidade do Porto, o número de bolseiros reduzir-se-á em , apenas nessa instituição. Já os mais carenciados poderão ver uma redução no valor das bolsas que lhes . Dar cumprimento ao para os estudantes da classe média, isso, nem se fala.

Fernando Alexandre, com estes exames nacionais, está a conduzir um dos maiores fracassos na administração escolar de que há registo. É uma crise inteiramente da sua lavra que nos diz mais da sua incompetência do que da sua ideologia. Já aí, ao virar da esquina, o Ministro prepara-se para impor à mesma geração uma segunda penalização – o atabalhoar e encurtar da ação social. Mais uma vez, sem desculpas e sem perdão.

Mais crónicas do autor
14 de julho de 2026 às 07:16

A próxima crise de Fernando Alexandre

Era um desastre anunciado e Fernando Alexandre decidiu seguir em frente, comprometendo a normalidade da vida de dezenas de milhares de professores e alunos.

07 de julho de 2026 às 07:12

Contas certas para quem?

Podem fazer o pino ou fazerem-se de estátuas para tentar conter a despesa e salvar a situação. Contudo, isso também não resolverá problemas às pessoas nem facilita a vida a governos em difíceis circunstâncias.

30 de junho de 2026 às 11:41

A verdade dos números da imigração

Tanto em 2020 como em 2025, o INE fez grandes correções às suas estimativas anteriores, aumentando retrospetivamente o crescimento de praticamente todos os anos.

23 de junho de 2026 às 07:08

Um fundo sem fundo

Mais que a incoerência, a questão central é financiar o quê e como. Portugal ainda tem uma dívida elevada e tanto Bruxelas como o Banco de Portugal preveem que o Governo vá incumprir os limites de despesa já no próximo ano.

16 de junho de 2026 às 07:10

Isto não é um Estado

Desde um pacote laboral antiquado até à Prestação Social Única, este será um dos Governos mais ideológico desde o PREC. Infelizmente, à ideologia, soma-se a incompetência.

Mostrar mais crónicas