Um ano depois do acidente, Lisboa continua sem Glória e sem vergonha.
Nem se pode dizer que seja surpreendente, mas não deixa de ser chocante saber que, praticamente um ano depois do desastre do elevador da Glória, em Lisboa, que matou 16 pessoas e feriu outras 22, só três vítimas tenham recebido a indemnização que lhes é devida. 35 processos continuam por concluir. Não é inédito que estas questões se arrastem em Portugal, mesmo (ou sobretudo) em casos em que está em causa a negligência grosseira do Estado em garantir serviços e bens públicos em condições mínimas – e, por “condições mínimas”, leia-se “que não matem os seus utentes”. Mas a demora é uma mancha de vergonha sobre os decisores públicos e as instituições deste país.
Toda a história do ascensor que se despenhou da colina abaixo, a 3 de setembro do ano passado, é terceiro-mundista. Um equipamento público histórico de utilização intensiva, agravada pelo boom turístico da capital. Manutenção claramente insuficiente, externalizada a uma empresa aparentemente incapaz, ao melhor preço. Uma reação política e institucional cobarde e desculpabilizadora, mais preocupada com o impacto eleitoral, em véspera de eleições autárquicas, do que com a responsabilidade perante as vítimas e os lisboetas. E, desde então, percebemos agora, uma negligência cruel na reparação aos feridos e às famílias dos mortos, que vivem há um ano pendurados num trauma a que a Carris e a Câmara de Lisboa recusam pôr fim.
A mesma indiferença que destruiu o elevador da Glória há um ano continua a destroçar as suas vítimas, até hoje. Os mortos não votam, os turistas também não. Carlos Moedas e o município que lidera parecem por isso pouco preocupados em cumprir as promessas de justiça e celeridade que fizeram há um ano. A Carris lá disse à SÁBADO que tem desenvolvido “múltiplas ações para melhorar todos os processos”, embora não se vislumbre, nem eles explicam, que ações são essas. Devem ser semelhantes às que desenvolveu para garantir que os seus elevadores funcionavam sem matar os seus passageiros.
Atirando às seguradoras ou desculpando-se com procedimentalismos administrativos, a Câmara de Lisboa e a empresa municipal mantêm o padrão que originou o acidente: uma negligência instalada, uma incompetência triunfal, uma atuação exclusivamente centrada na imagem pública, e não na reparação dos impactos provocados por este festival boçal de incúria e má gestão. É um padrão, em suma, próprio de um político moderno, como Carlos Moedas, mais atuante na gravação de vídeos para as redes sociais do que no desenho e implementação de políticas públicas que sirvam a cidade. Um ano depois, o resultado é este: os mortos são desprezados por decisores desprezíveis. A crueldade institucional que tritura as vítimas num lento Inferno administrativo devia ser um escândalo nacional, mas é tão corriqueira que não comove ninguém.
Um assunto grave, que se devia ter resolvido em poucas semanas continua pendurado, praticamente um ano depois. As vítimas não conseguem fechar os processos e seguir com as suas vidas. Os elevadores históricos da capital continuam encerrados, à medida que se vão gastando centenas de milhar de euros em vistorias e auditorias, sem resultado prático verificável. Absolutamente nada se avançou, que seja do conhecimento público, para instalar um novo ascensor na Calçada da Glória, que substitua o equipamento destruído e que, como se viu, é fundamental para a mobilidade entre colinas de Lisboa. Ninguém se responsabiliza, ninguém gere, ninguém oferece soluções. Na sua infraestrutura básica, a cidade está paralisada e as pessoas ao abandono, enquanto o responsável político máximo da capital, essa nulidade sorridente, faz vídeos sobre unicórnios. Welcome to Lisbon.
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