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João Paulo Batalha
26.03.2026

Esta história não é Tua

A morte silenciosa da linha do Tua é a crónica de um Estado capturado. E de como Portugal despreza os portugueses.

Deixa-me rir. A Assembleia da República tem em cima da mesa, desde janeiro, um para reintegrar a Linha do Tua na rede ferroviária nacional. Está na Comissão de Mobilidade, onde não parece ter-se movido desde que deu entrada. Uma resolução parlamentar vale pouco, não vincula ninguém nem obriga a nada. É, no fundo, um recado inócuo. Mas nem esse recado inócuo avança no Parlamento, nem para que se decida sim ou não. Bate certo: no que toca à linha do Tua, a imobilidade é a constante.

Recuemos uns anos. O primeiro troço da linha, entre Mirandela e a ligação à linha do Douro, na estação de Tua, foi inaugurado com pompa e circunstância pelo Rei D. Luís em 1887, chegando a Bragança já no início do séc. XX. O traçado, cheio de pontes e túneis pela escarpada encosta do rio Tua, era um prodígio de engenharia e um marco civilizacional: o Estado chegava finalmente ao nordeste transmontano. 100 anos depois de aberta, a linha já estava ameaçada. No final dos anos 1980, por falta de manutenção básica, os comboios entre Mirandela e Bragança não passavam dos 30 km/hora – “De Bragança a Lisboa são 9 horas de distância”, lamentavam os Xutos & Pontapés em 1988.

Entre investir no território e na infraestrutura ou fechar a porta e deitar fora a chave, a eficiência cavaquista tomou a opção mais barata: a ligação entre Mirandela e Bragança fechou em 1991. Quaisquer vagas esperanças de reabertura morreram na madrugada de 13 de outubro de 1992, quando as últimas carruagens ainda estacionadas na capital de distrito foram colocadas em camiões e levadas, para nunca mais voltarem. A cidade ainda recorda (justamente) o incidente como uma ofensa cometida contra o povo e o território, pela calada da noite.

A morte do resto da linha foi ainda mais ignominiosa e mistura-se com a nossa subserviência tóxica ao poder dos grandes lóbis. Em 2007, José Sócrates, esse príncipe da corrupção de Estado, lança o Plano Nacional de Barragens, que prevê uma barragem na foz do Tua, que teria (e teve) como consequência alagar 16 quilómetros da linha férrea, precisamente no ponto em que ela se liga ao resto da rede ferroviária nacional. O caderno de encargos previa que fosse construído um troço de substituição das vias inundadas.

Dois anos depois, a obrigação de manter a ligação entre as linhas do Tua e do Douro já tinha desaparecido. É que, entretanto, em agosto de 2008, um acidente mortal numa via deixada praticamente ao abandono tinha ditado o corte dos comboios. Isolada, a linha estava agora mais fácil de matar. O famoso Plano de Mobilidade do Vale do Tua, apresentado em 2009, propunha uma solução risível

para servir as populações: umas centenas de metros de comboio, da estação do Tua até às proximidades da barragem, seguida de um funicular (mais tarde substituído no plano por um autocarro) até ao coroamento da barragem, seguido de um trajeto de barco até à estação de Brunheda onde, então sim, se apanharia um comboio para Mirandela. Dois ou três transbordos em três ou quatro meios de transporte diferentes até pode ser um passeio turístico com piada, mas nunca seria uma solução de mobilidade.

Tanto faz que o plano não prestasse: nunca foi implementado. A barragem de Foz-Tua ficou completa em 2017, a linha ficou submersa, uma via alternativa nunca foi construída, o plano de mobilidade nunca foi concretizado. Como contrapartida da barragem foi criada uma Agência de Desenvolvimento do Vale do Tua, financiada pela concessão hidroelétrica, que teve como diretor executivo José Silvano, o ex-presidente da Câmara de Mirandela que tinha liderado a contestação à barragem, e logo a seguir se arrumou como serventuário da concessão.

A Agência de “Desenvolvimento” do Vale do Tua terá gastado uns 16 milhões de euros em investimentos e obras que nunca serviram para nada, a não ser para parar definitivamente os comboios que ainda andavam na pequena parte que sobrevivia da linha, operados pelo Metro de Mirandela. O empresário Mário Ferreira ganhou uma concessão para o irracional plano de mobilidade, que nunca concretizou – e que incluiu comprar um comboio, com dinheiro público das contrapartidas da barragem, que não tem condições técnicas para operar. As automotoras do Metro de Mirandela estão até hoje a apodrecer numas velhas oficinas em Carvalhais.

Deixa-me rir. A história do Tua é a nossa história. De como um conluio entre poder político e poder económico trucidaram o território e isolaram as populações, corrompendo políticos, comprando opositores com cargos de nomeação e deixando um rasto de dinheiro queimado e gente deixada à sua sorte, com promessas vagas, nunca cumpridas. Manuel Pinho, que deu a concessão à EDP, – e . Sócrates, mentor desta selvajaria, é o que se sabe. E a barragem de Foz-Tua é uma das seis que a EDP vendeu aos franceses da Engie por 2,1 mil milhões de euros, num esquema fraudulento de fuga aos impostos. Os barões banqueteiam-se com o saque, os transmontanos roem os destroços. Esta história não é Tua. É nossa.

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