Escolas de vícios
As jotas partidárias têm má fama, mas as escolas já ensinam os piores podres da política.
Com o país chocado e o ministro enfadado, Fernando Alexandre lá anunciou ontem um inquérito às revelações do último fim-de-semana do jornal Público, que apontava que “influencers” tóxicos, produtores de conteúdos sexuais ou até pornográficos, teriam participado em dezenas de eventos em escolas de todo o país. Questionado sobre o assunto, e aparentemente aborrecido por ser chamado à conversa, o ministro da Educação queixou-se que “os diretores têm que saber qual é a sua responsabilidade, não é o ministro ou uma entidade em Lisboa que vai controlar a entrada nas escolas em todo o território nacional”. Bem visto. Fernando Alexandre não é pago para ser porteiro de escolas – e menos ainda de discotecas, que é o que parecem ser estas sessões com os influenciadores. O inquérito agora anunciado começa bem: a reportagem do Público identificou 79 escolas em que estes “influencers” estiveram. Dessas, só 15 responderam às tentativas de contacto do jornal. O inquérito terá como alvo os dois diretores que foram citados na reportagem. O crime, portanto, não foi deixarem entrar gente tóxica (isso, também 77 outras escolas fizeram), foi não calarem o bico quando a imprensa veio fazer perguntas. Podem ter a certeza: toda a gente, em todas as escolas deste país, tomou nota deste detalhe. É um enorme incentivo ao silêncio daqui para a frente. Parabéns pela iniciativa.
O ministro anunciou também um grupo de trabalho que, até ao fim do mês, produzirá “orientações” para estes casos. Décadas de enxovalho destravado e de avalanches burocráticas sobre a escola pública em Portugal resultaram nisto: sem “orientações” superiores, poucos sobram – incluindo nas direções escolares (ou começando por elas) – para exercer mínimos elementares de sentido crítico. Nos últimos anos, as escolas foram asfixiadas de gestão democrática, autonomia e capacidade criadora. O corolário: agora, até para decidir quem entra numa escola é preciso orientador despacho ministerial.
É claro que “celebridades” da cultura hipersexualizada, misógina ou até pornográfica das redes sociais não têm lugar numa escola. Ser necessário explicar isto é alarmante em si mesmo. A mim foi outro detalhe desta história que me chamou a atenção: em todos os eventos identificados, estes imbecis triunfais estiveram nas escolas a convite dos alunos, no âmbito de campanhas eleitorais para as associações de estudantes. E aqui sim, importa alargar a discussão e perguntar que raio de democracia se está a ensinar nas escolas.
Quando estive na associação de estudantes do meu liceu, já lá vão uns 30 anos, o grande risco de captura era pelas jotas partidárias. Todas manobravam para poder reclamar influência sobre cada eleição – frequentemente dispensado (sobretudo a JSD e a JS) qualquer afinidade ideológica, programática ou sequer pessoal com os candidatos que apoiassem. Tudo se resumia à velha contagem de espingardas partidária: poder proclamar que uma associação de estudantes estava alinhada com a jota era uma ferramenta de promoção política do jotinha que mandasse em cada concelho. Mostrava “capacidade de mobilização”, e nada mais importava.
Entretanto, a captura partidária evoluiu para a captura de negócio. Se na política dos crescidos entram como facilitadores e financiadores os empreiteiros, os concessionários ou os beneficiários do orçamento público, nas associações de estudantes dominam as agências de viagem. Outra reportagem do Público, em 2017, expôs a forma como estas empresas financiam campanhas e distribuem incentivos a alunos para influenciar as eleições. A contrapartida é que os representantes eleitos dos miúdos depois contratem as mesmas agências para organizar as viagens de finalistas.
Se hoje os “influencers” pornógrafos cobram cachets até 850 euros por aparição, é provavelmente este lóbi de turismo juvenil que os financia. Ainda hoje, uma das empresas citadas na reportagem de há quase dez anos, a Megafinalistas, oferece no seu site um pacote completo de “apoio” a associações de estudantes, prometendo que “fazemos acontecer na tua campanha”. Também na altura, como hoje, tanto o Ministério da Educação como os diretores de escolas disseram não saber de nada. Com as associações de estudantes em roda livre, despolitizadas e reduzidas a comissões excursionistas, as eleições reduzem-se a concursos de popularidade ou festivais de verão em período letivo, os votos compram-se e vendem-se e ninguém repara que temos aqui um problema brutal de incultura cívica e democrática, promovido bovinamente pela escola pública.
Sim, se calhar umas “orientações” calhavam bem. Não há nada que o Ministério da Educação não resolva com papel. Com isso em mente, fui consultar o Referencial de Educação para a Transparência e Integridade, uma tentativa de definir a abordagem das escolas à educação contra a corrupção prometida nas diversas estratégias aprovadas por sucessivos Governos. Confesso que não sei bem o que li, porque o documento disponível online é a versão colocada em consulta pública em maio do ano passado. Desde então, não consegui descortinar se o referencial foi atualizado com os contributos dessa consulta pública, ou oficialmente adotado, ou coisa nenhuma. Sei é que não consta lá uma recomendação que, como se vê, seria uma lição prática, necessária e urgente, de democracia e cultura de integridade: pôr cada escola a regular as eleições para a associação de estudantes, definindo para que servem, para começar, e estabelecendo regras claras, simples e exigentes para as campanhas eleitorais, desde o barulho que fazem ao financiamento que recebem. Isso seria infinitamente mais valioso do que qualquer missinha moralizadora sobre a corrupção dos crescidos. Se a bagunça dos esquemas, das informalidades, da compra de votos, do financiamento encapotado e da redução das campanhas eleitorais a festivais de boçalidade começa na escola, tudo o resto que quisermos ensinar aos miúdos é insultuosamente inútil. Oriente lá isso, senhor ministro.
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