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João Paulo Batalha
15.01.2026

As mulheres são descartáveis

No assédio, para qualquer denunciado, presunção de inocência. Para qualquer denunciante, certeza de culpa.

O meu instrutor de condução, já lá vão quase 30 anos, era um javardo intragável. Sentado no lugar do pendura, enquanto eu conduzia inseguro pelas ruas e redondezas de S. João do Estoril, ia comentando o corpo de qualquer mulher que circulasse no passeio, ou se cruzasse connosco de carro. Apontava rabos e mamas num ronco repugnante, incessante. Nunca o confrontei ou fiz queixa dele (na altura nem isso me ocorria). Nunca ouvi dizer que tivesse assediado alunas. Fiz as aulas obrigatórias e passei no exame de condução o mais depressa que pude. Nunca tendo sido alvo, mas apenas plateia, da javardice, esqueci o assunto.  

Claro que se o meu instrutor de condução fosse hoje candidato à Presidência da República seria mais do que natural que eu comentasse com amigos (num grupo fechado numa rede social, por exemplo), que aquele tipo era nojento e que detestaria vê-lo em Belém. Como eu entretanto declarei o meu apoio a outro candidato – António José Seguro – seria fácil atirar isso contra mim, se os meus comentários viessem a público, por ação de outros e contra a minha vontade, como parece ter sido o caso dos comentários da ex-assessora da IL Inês Bichão sobre João Cotrim Figueiredo. Não vale a pena lançar teorias da conspiração: é óbvio que a proeminência pública de alguém é motivo suficiente para que histórias que estavam guardadas numa gaveta de resignação venham a público. Um comportamento que se come e cala vindo de um deputado (até pelos custos pessoais, conhecidos, da denúncia) ganha outra dimensão e gravidade se o deputado quiser ser Presidente da República. Força alguém a reponderar o seu silêncio. É tão simples quanto isto. 

Sucede que, na verdade, nem de “denúncia” podemos falar, neste caso. Inês Bichão fez um comentário no seu perfil de Instagram, cujo acesso é limitado a pessoas aprovadas por ela – é portanto um circuito fechado. Alguém tornou público o desabafo, ao que tudo indica contra a vontade da própria, que depois apagou a publicação. Acresce que, foi entretanto noticiado, estas alegações já tinham circulado na IL há anos – e foram ignoradas ou silenciadas. Não nasceram na última semana de campanha por causa das boas sondagens do candidato, como convém à teoria da conspiração. A IL não confirma nem desmente e a sua líder tem-se mantido em silêncio. A única parte ruidosa da reação à denúncia é a mais previsível em Portugal: apedrejar a mulher. 

Que fique claro: nos termos em que foi feita, a alegação é vaga demais para permitir a alguém formar opinião. João Cotrim Figueiredo tem, obviamente, todo o direito de negá-la nos termos mais categóricos possíveis – como fez. Tem até o direito de anunciar uma queixa-crime por difamação e pôr o Ministério Público a caçar este gambuzino inútil durante uns meses. Tal como qualquer eleitor tem o direito de ignorar estas alegações ao decidir o seu voto – precisamente porque lhes falta detalhe, e até intencionalidade, que nos permita avaliá-las com um mínimo de frieza. Não alinho no simplismo de que é preciso acreditar sempre nas mulheres. Mas o que se exigia era dar um espaço seguro para a denúncia e, a seguir, investigá-la. Em vez disso, como sempre, lançaram-se as matilhas. 

Não espanta. Bem sei que nos anos mais recentes vimos muita gente da direita em geral, e da IL em particular, degustar com prazer as acusações de assédio contra Boaventura Sousa Santos. Essas denunciantes, claro, mereciam ser protegidas dos ataques da claque esquerdalha que estava com Boaventura. Já esta mulher, que aponta o dedo a um homem de direita, é uma megera que não merece segurança, recato ou sequer respeito.  

Seja a hipocrisia de esquerda ou de direita, isto não muda: as mulheres são descartáveis. Têm de ser ouvidas e defendidas quando acusam um adversário; têm de falar “nos canais próprios” ou “nos momentos próprios” quando queremos que se calem. Se denunciam em público, é para se promoverem. Se denunciam em privado, é para se esconderem. Se falam com amigos, deviam ir à polícia. Se vão à polícia, deviam denunciar internamente e resolver a bem. Como é óbvio, neste clima social, qualquer mulher pensa dez vezes antes de fazer uma denúncia – ou sequer de desabafar com amigas. É um gigantesco apelo ao silêncio e um violento incentivo ao abuso. Haja o que houver, o acusado fica protegido (como deve) com a presunção de inocência, a acusadora fica exposta à certeza da culpa. É assim que, em Portugal, as mulheres aprendem o seu lugar. No país da violência doméstica, nem sempre é preciso fazer sangue.  

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