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João Carlos Barradas
25.04.2026

Hoje é feriado e para o ano também

Era a hora de «acabar o estado a que chegámos».

Disse aos homens, na parada da Escola Prática de Infantaria de Santarém, e isso é certo, que naquela madrugada era a hora de «acabar o estado a que chegámos».

É indiscutível que, chegado à Avenida Ribeira das Naus, em Lisboa, granada no bolso, altivo e seguro, impusera a vontade de outro estado de coisas frente aos blindados do regime.

Assim, ante a determinação do capitão Salgueiro Maia, o brigadeiro Junqueira do Reis viu-se traído pelos militares da sua coluna que renegaram a fidelidade ao regime e o confronto com os revoltosos.

As fotografias de Alfredo Cunha e Eduardo Gageiro mostram esses instantes em que um golpe militar estava em vias de abrir passo a uma revolução.

É possível que, no Terreiro do Paço, Salgueiro Maia, antes de subir ao Largo do Rato, tenha dito à mulher que pedia que a deixassem passar para ir trabalhar: «Minha senhora, vá para casa. Hoje é feriado e para o ano também.»

Os cravos de Celeste 

No Quartel do Carmo Marcelo Caetano nem sabia dos cravos de Celeste Caeiro, mas presumia o pior.

De molho de cravos na mão – ficara sem efeito a festa do primeiro aniversário do restaurante onde trabalhava com flores para as senhoras e cálice de Porto para os senhores –, Celeste voltara a casa.

O destino levou-a a oferecer as flores do seu molho de cravos aos soldados pela Rua do Carmo e o Chiado.

Triste, solitário e final, o presidente do conselho teve, necessariamente, consciência da enormidade daquela quinta-feira.

O capitão Maia, ao confrontá-lo no quartel da GNR, deixou um relato seco.

«Estava pálido, barba por fazer, gravata desapertada, mas digno. Fiz-lhe a continência da praxe e disse-lhe que queria a rendição formal e imediata. Declarou-me já se ter rendido ao Sr. General Spínola, pelo telefone, e só aguardava a chegada deste para lhe transferir o Poder, para que o mesmo não caísse na rua!

Estive para lhe dizer que estava lá fora o Poder no povo e que este estava na rua. Declarou esperar que o tratassem com a dignidade com que sempre tinha vivido e perguntou o que ia ser feito dele.

Declarei que certamente seria tratado com dignidade, mas não sabia para onde iria, pois isso não me competia a mim decidir.»

Seguiu-se a revolução, consequência da revolta corporativa de oficiais exaustos por uma guerra colonial sem perspectivas de negociação.

Maia, depois, renegando responsabilidades políticas que lhe deveriam incumbir como um dos principais operacionais do golpe de estado, escusou-se ao empenhamento nos anos convulsivos da Revolução.

Recusaram-lhe uma pensão em 1988, acto vergonhoso do governo de Cavaco Silva que posteriormente se penitenciaria, e um cancro matou-o aos 47 anos em 1992.

Agarrou-lhe a amargura a precisão de Sophia de Mello Breyner Andresen, que solenizara «O dia inicial inteiro e limpo».

Sophia, em 1970, adivinhara o destino de Maia, e de outra gente de valia:

Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

«Camões e a tença», os cravos, são a legítima justificação e a amargura do momento em que convulsivos e livres «habitamos a substância do tempo.»

Feriado, portanto, e para o ano também.

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