A descambar para outra guerra
O Irão descamba para a guerra na maior das incertezas.
A União Europeia descartou negociações com o Irão como via primordial para arrancar concessões a Teerão ao designar como organização terrorista os Guardas Revolucionários, a força militar ao serviço da República Islâmica.
Ao arrolar como terroristas os cerca de 200 mil homens às ordens do Líder Supremo, Ali Khamenei, os 27 reconhecem que conversações sobre o programa militar nuclear do Irão deixaram de fazer sentido.
O acordo promovido em 2015 pela União Europeia, França, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, Rússia e China faliu definitivamente com a Guerra dos Doze Dias entre Israel e o Irão, em Junho do ano passado, que levou ao bombardeamento norte-americano de instalações militares nucleares iranianas.
A partir do momento em que estados mais reticentes como a França, Espanha e Itália retiraram objecções à classificação dos Guardas Revolucionários como terroristas, a União Europeia passou a alinhar com os Estados Unidos, Canadá e Austrália – enquanto a Grã-Bretanha prepara legislação no mesmo sentido – numa estratégia de pressão sobre o Irão que reduz significativamente a margem de negociação diplomática.
Washington exige, por sua vez, a capitulação negocial de Teerão com a renúncia a quaisquer procedimentos de enriquecimento de urânio – ou eventual recurso a plutónio –, além da entrega das reservas de urânio enriquecido soterradas em Fordow, Natanz e Isfaã após os bombardeamentos de Junho de 2025.
O desmantelamento dos programas de fabricação e dos arsenais de mísseis de longo alcance – superior a 5 500 quilómetros – é, também, exigência de Trump o que leva os decisores políticos e militares de Teerão a assumirem como altamente provável nova vaga de ataques na sequência da Guerra dos Doze Dias de 2025.
Ante as assumidas ameaças iranianas de retaliação contra bases militares norte-americanas no Médio Oriente, monarquias sunitas e Israel, o objectivo político de Trump é incerto num contexto de potencial generalização regional do conflito.
Ao invés do ocorrido na guerra limitada do ano passado ou com o assassínio pelos Estados Unidos, em 2020, em Bagdad, de Qassem Soleimani, comandante das Brigadas Al Quds – a força dos Guardas Revolucionários para operações no estrangeiro – desta feita, mesmo sem poder contar com contributo significativo do Hizballah libanês, do Hamas palestino ou milícias xiitas iraquianas, um conflito alargado é a melhor opção de Teerão.
A inexistência de organizações iranianas de oposição alinhadas com os interesses de Washington capazes de impulsionar protestos populares para se imporem como alternativas credíveis à teocrática República Islâmica exclui cenários de mudança de regime induzida do exterior.
As minorias étnicas de curdos, azeris, baluches, árabes, concentradas em regiões fronteiriças também não representam ameaça premente ao poder persa xiita.
A República Islâmica confronta-se, por seu turno, com uma crise insustentável do sistema de controlo estatal da economia.
Sem meios financeiros ou apoios russos, chineses ou indianos que lhe permitam escapar às sanções internacionais que desde 2012 constrangem a economia, agrava-se a depreciação da moeda, a alta da inflação e somam-se cortes de subsídios a produtos essenciais.
A desagregação das estruturas do poder institucional, seja pelo afastamento ou morte do Líder Supremo Ali Khamenei ou do presidente Masoud Pezeshkian, todavia, dificilmente abriria caminho a outras forças ou personalidades capazes de conterem protestos internos, recorrendo, uma vez mais à repressão em larga escala.
A abertura de negociações que permitam ao Irão obter garantias mínimas de segurança, admitindo, em troca, o direito à existência de Israel mediante o reconhecimento de um estado palestiniano e não-hostilização de estados vizinhos é pouco plausível.
O Irão descamba para a guerra na maior das incertezas.
Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945
A descambar para outra guerra
O Irão descamba para a guerra na maior das incertezas.
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