O mercado não está a funcionar na habitação e é esse o problema
Os custos de construção subiram 36%, mas os preços subiram 90%. A diferença não é lucro. O índice que usa, o do INE, mede apenas materiais e mão-de-obra. Não inclui terreno, licenciamento, taxas, financiamento nem impostos. Não se pode comparar esse índice com o preço final e chamar “ganância” à diferença.
Se os preços estão mais altos do que nunca, porque é que os promotores, movidos pela ganância que certa esquerda lhes atribui com tanta convicção, não constroem mais? Um capitalista de caricatura, perante casas que quase duplicaram de preço em seis anos, andaria a espetar gruas em cada esquina. Não anda. Segundo o INE, em 2025 concluíram-se pouco mais de 30 mil fogos, menos de um quarto de 2002. Ou a ganância tirou uns anos sabáticos, ou alguém a impede de trabalhar. Daniel Oliveira culpou o capital e deu-lhe o título: “O mercado está a funcionar na habitação e é esse o problema”. Um mercado a funcionar faz o contrário do que ele descreve. Preços altos atraem promotores, capital e construção. A concorrência trata do resto. Não necessariamente com descidas nominais, mas com preços abaixo dos que teríamos com a oferta estagnada. Quando, pelas contas do próprio autor, os preços sobem 90% e a oferta mal se mexe, o mercado não está a funcionar. Está de pés e mãos atados. Os economistas chamam-lhe inelasticidade (ou rigidez) da oferta. Os promotores chamam-lhe câmara municipal.
A procura reage em semanas, a oferta em anos. Segundo dados do Banco Mundial citados pela OCDE, uma licença de construção levava, em 2023, entre 272 dias no Funchal e 548 em Coimbra. Em Lisboa, 545. Os preços sobem muito antes de as casas aparecerem, e depois culpa-se o mercado pela rigidez que o Estado fabricou. É como amputar as pernas a alguém e acusá-lo de não saber correr. O meu argumento nem sequer é uma excentricidade liberal. No Economic Survey: Portugal 2026, a OCDE conclui que a oferta está travada por barreiras elevadas à construção, com encargos regulatórios que aumentam custos e incerteza, e recomenda simplificar e harmonizar o licenciamento. Talvez a OCDE também tenha sido seduzida pela perigosa teoria de que produzir mais de um bem alivia a sua escassez. Sim, o mesmo relatório regista que o parque de habitação social português está entre os mais pequenos da organização. Mas habitação social não substitui oferta para a esmagadora maioria, ainda para mais quando o Estado é tão ineficiente a construir. A OCDE nota também que a mobilidade é travada pelos impostos sobre transacções e por um arrendamento atrofiado, e que as reformas do arrendamento falharam por causa da fragmentação regulatória e das mudanças constantes de lei. Pede, por isso, menos IMT e mais IMI. Eu iria mais longe: extinguir o IMT e substituir o IMI por um imposto sobre o valor do solo (land value tax), neutro em receita, que tribute a escassez em vez da construção e tornando caro reter terrenos à espera de valorização.
Vamos às contas do autor: entre 2019 e 2025, os custos de construção subiram 36%, mas os preços subiram 90%. A diferença não é lucro. O índice que usa, o do INE, mede apenas materiais e mão-de-obra. Não inclui terreno, licenciamento, taxas, financiamento nem impostos. Não se pode comparar esse índice com o preço final e chamar “ganância” à diferença, ignorando tudo o que o Estado e a escassez fruto do aumento da procura acrescentam pelo caminho. Boa parte da diferença vai para o solo, porque o solo com capacidade construtiva é escasso e administrativamente racionado. Qualquer avaliador o sabe: o terreno vale o que sobra depois de custos e margem, e quando o direito de construir é raro, a raridade capitaliza-se no chão. Chama-se a isto o método residual (de avaliação). A OCDE confirma que as reformas do ordenamento de 2014 e 2015, do Governo do PSD/CDS, reduziram o solo disponível e terão feito subir o preço dos terrenos. Altere-se essa lei. Some-se o tempo: cada mês de licenciamento é juro, risco e capital parado, e pesa quase o mesmo num T2 em Odivelas e numa penthouse na Lapa. Quem pensa que a espera é gratuita nunca pagou juros. Só o segmento alto aguenta a conta. A classe média não foi expulsa pela ganância, mas pelos custos fixos de construir uma casa em Portugal. E o exemplo que o autor escolhe para ilustrar a voracidade do mercado, um T0 a mais de 10 mil euros por metro quadrado, saiu de uma operação que envolveu terrenos municipais. O mercado, esse vilão, tinha a câmara como sócia.
O autor escreve que Gaia licenciou 14 mil fogos desde 2019 e que os preços subiram 126%. O gráfico que acompanha o argumento chama-se “Onde mais se licenciou, os preços não subiram menos”. Ora, licenciar não é construir: as famílias não vivem em licenças, vivem em casas. E construir também não é construir o suficiente. Se a procura justificar 20 mil casas e só se construírem cinco mil, os preços sobem por causa das quinze mil que faltam. E licencia-se onde há procura, não o contrário. Concluir que as licenças não estancam a subida dos preços é ver que os hospitais estão cheios de doentes e concluir que os médicos não tratam ninguém. A solução não é fechar os hospitais. De resto, concelhos não são mercados estanques. Lisboa licenciou pouco e a procura atravessou o rio: a Moita subiu 181%. O Porto, que licenciou como poucos, subiu 80%, abaixo da média. Está no gráfico do próprio autor, com etiqueta e tudo.
No seu artigo de há uma semana, culpar os imigrantes era demagogia. Esta semana, a culpa é dos compradores estrangeiros. A fronteira, percebe-se, mede-se em euros por metro quadrado. A tese é esta: os imigrantes pobres não fazem subir preços, já os imigrantes ricos açambarcam as casas todas. A minha tese é mais simples: todos fazem aumentar os preços das casas. Mas comparar medianas sem controlar localização ou tipologia mede apenas que compram casas diferentes em sítios diferentes. A própria OCDE nota que a procura externa se concentrou nos imóveis mais caros. E se, segundo o autor, os estrangeiros pagam 8,2% do valor transaccionado, os residentes pagam mais de 90%. Com a oferta limitada, os estrangeiros não desistem. Ganham o leilão. Solução? Construa-se mais.
Quer o autor regular o uso, porque há casas fechadas. Fechadas porquê? Quem conheceu décadas de rendas congeladas, o arrendamento coercivo e agora ouve falar de tectos às rendas prefere uma casa vazia a um inquilino que não pode tirar nem actualizar. A OCDE di-lo sem rodeios: impedir a actualização das rendas desincentivou o investimento e fez subir as rendas para quem procura hoje uma casa.
O verdadeiro privilégio não está em permitir que alguém construa. Está em impedir que outros construam, protegendo a valorização dos imóveis de quem já os tem. É essa escassez protegida que condena os jovens a viver em casa dos pais: segundo a OCDE, Portugal tem uma das maiores proporções da União Europeia de adultos entre os 29 e os 35 anos que ainda lá vivem. É a escassez que transforma a habitação num privilégio de quem chegou primeiro. E é extraordinário que parte da esquerda, tão preocupada com as desigualdades, continue a defender respostas que perpetuam precisamente essa divisão entre proprietários e excluídos.
Ficaria muito satisfeito se o Estado pusesse os seus devolutos ao serviço da habitação e construísse casas. Há só um pequeno problema: o Estado não sabe onde tem os devolutos. Ano após ano, o Tribunal de Contas repete que não existe um inventário completo do património imobiliário público. E quando o Estado promete construir, já sabemos como acaba. Em 2018, António Costa prometeu resolver a carência habitacional de 26 mil famílias até aos 50 anos do 25 de Abril. Em Outubro de 2023, admitiu que falharia. É a este Estado que se quer entregar a construção de bairros inteiros?
Num ponto estamos de acordo: a garantia pública e a isenção selectiva de IMT para jovens empurraram a procura num mercado sem oferta e acabaram em aumento do preço. Sou favorável à extinção do IMT, herdeiro da velha Sisa a que António Guterres chamou, em 2001, o “imposto mais estúpido do mundo”. Mas acabar com ele para todos é corrigir uma distorção; isentar um grupo de compradores, como o Governo fez, é criar outra. Quanto à garantia pública, sou contra. Imaginemos o rombo que uma crise como a de 2008 traria às contas públicas, ao activar essas garantias do Estado. Serviram, isso sim, para aquecer a procura. Esta é, de qualquer modo, uma medida do Estado, não do mercado. O mercado tem costas largas, mas não pode ter culpa dos estímulos estatais.
O Estado está em todo o lado: no prazo da licença, no PDM, no IVA que bateu nos 23%, no IMT que pune quem se muda, no travão às rendas, na garantia pública que empurra a procura. Está até no congelamento de rendas que o Estado Novo manteve em Lisboa e no Porto em 1948, que foi estendida ao país em 1974 e que ainda sobrevive nos contratos anteriores a 1990. Isto não é o mercado a funcionar. É o Estado a atrapalhar. E é esse o problema. “Falta o Estado”, diz Daniel Oliveira. E tem razão. Falta que o Estado nos saia da frente.
O mercado não está a funcionar na habitação e é esse o problema
Os custos de construção subiram 36%, mas os preços subiram 90%. A diferença não é lucro. O índice que usa, o do INE, mede apenas materiais e mão-de-obra. Não inclui terreno, licenciamento, taxas, financiamento nem impostos. Não se pode comparar esse índice com o preço final e chamar “ganância” à diferença.
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