Baralho o vulgar e o intelectual
Aqui chegados, noto algo que submeto agora ao crivo do Leitor: a mais das guerras e dos seus efeitos directos e indirectos e de proclamações do clube dos populistas vivos, as outras causas que cativam a atenção dos media e de quem publica nas redes sociais raramente são as moderadas.
Em vez de dizer que, cada vez mais, me custa entender a actualidade, recorro no título à interessante letra de “Impressões digitais”.
Nos últimos meses, atrás de guerra veio guerra, atrás de dificuldades veio inflação e atrás de pessimismo a indolência pútrida do desânimo… Ou ando com azar nas companhias, ou começo a ter dificuldade em encontrar adultos que proclamem abertamente a sua felicidade.
À mingua de habilitações para uma análise sociológica ou psicanalítica, cinjo-me ao noticiário político. E, aqui chegados, noto algo que submeto agora ao crivo do Leitor: a mais das guerras e dos seus efeitos directos (ceifa de vidas e destruição) e indirectos (aumento dos preços, designadamente, dos combustíveis e alimentos) e de proclamações do clube dos populistas vivos, as outras causas que cativam a atenção dos media e de quem publica nas redes sociais raramente são as moderadas.
Argumentemos: ultimamente falámos da “lei das burcas” que era muito mais do que uma lei sobre as ditas. Veio depois um diploma que, na voz corrente, tinha como fito principal proibir o hastear da bandeira da causa LGBT em edifícios públicos que – não excluindo que os arautos (CDS e Chega) pudessem querer, principalmente, este efeito -, mais uma vez, é bem mais genérico e abrangente. Por fim, debateram-se iniciativas que foram propaladas (com adeptos e adversários) como sendo contrárias, por pura devoção ideológica, à autodeterminação da identidade e expressão de género, quando há muito mais que se lhe diga, pelo menos na iniciativa que conheço melhor.
Ora bem, independentemente da minha opinião em cada uma destas matérias e de entender facilmente que o facto de não haver uma maioria absoluta obriga a leituras não apenas estratégicas, mas também tácticas, o ponto é que são os temas fracturantes e, dentro de cada um deles, os aspectos mais contundentes os que marcam a agenda durante mais tempo e com mais agudez.
No fim do dia, quem mais lucra com estes debates são os partidos que vivem no TikTok e de sound bites e que usam os mesmos assuntos como granadas de fumo, ocultando a ausência de um ideal social e de propostas realistas, e, ao mesmo tempo, de fragmentação, já que os estilhaços de uma discussão que nunca se ganha ferem sempre os moderados, que têm uma agenda muitíssimo mais vasta.
Note bem: não significa isto que os partidos consociativos de massas (vulgo, catch-all parties) – os que pertencem ao espectro da governação – não devam tratar de matérias que, sendo politicamente marginais (afectando uma minoria, leia-se), dizem respeito a interesses legítimos de uma parte da sociedade. O que quero dizer, isso sim, é que bem pode um governo moderado e responsável apresentar excedentes orçamentais, orçamentos consecutivos sem aumento de impostos, um ambiente escolar pacificado (com recuperação do tempo de serviço e mais professores na Escola), forças de segurança dignificadas, o fim do caos na imigração e tantos passos na direcção correcta, que em nenhum destes pontos logrará a emotividade dos assuntos prévios.
Sim, e daí?! – perguntará o Leitor.
Daí que, se continuarmos a privilegiar a emoção sobre a razão e os temas fracturantes sobre as matérias estruturantes, não se espantem de, numa segunda-feira qualquer, acordarem com um demagogo ao leme.
E tudo isto culmina na ideia de felicidade com que comecei. Bem sei que muitos andam zangados com a vida, em geral, e outros tantos com os políticos, em particular, mas a solução para adocicar a primeira e melhorar os segundos não é viver a espuma dos dias, mas sim empenharmo-nos no debate sobre os temas que podem mudar a percepção que temos de ambos. “Back to basics”, diria John Major.
Baralho o vulgar e o intelectual
Aqui chegados, noto algo que submeto agora ao crivo do Leitor: a mais das guerras e dos seus efeitos directos e indirectos e de proclamações do clube dos populistas vivos, as outras causas que cativam a atenção dos media e de quem publica nas redes sociais raramente são as moderadas.
Murais
Teresa Morais logrou algo de ganho imediato: fazer cair a nova máscara de André Ventura. Desde as eleições presidenciais que o “grande líder da direita” tentava criar uma nova persona ou mudar de maquilhagem para conservar o eleitorado moderado que granjeou na segunda volta das eleições presidenciais.
O Bom, o Mau e o Capitão
Os meus “fregueses” preferidos, além de uma berraria insana (que traduz, salvo melhor opinião, a ausência de algo inteligente para dizerem), acusam-me de fazer stand-up comedy. Ora, desprovido que sou do muito talento que requer a actividade circense, fico-me pela acusação de fazer comédia.
12 garrafas depois
Apesar da demagogia de carregar garrafas de água e de haver dúvidas sobre a genuinidade da quantidade de precipitação que aparece num dos vídeos em que Ventura se “transveste” de Super Homem, Seguro venceu em toda as zonas atingidas pelas tormentas.
Sem anos
Numa altura em que se avolumam evidências dos riscos que trazem os populismos de direita, dou por mim a constatar que se cumpre este ano o centenário do golpe de 28 de Maio de 1926, que viria a pôr fim à I República e a abrir caminho ao que seria o Estado Novo.
Edições do Dia
Boas leituras!