E que diferença um dia faz!
Há momentos que são marcantes e cujas consequências são definitivas e perenes na vida das pessoas e dos povos.
Hoje é o dia em que, pela décima-primeira vez desde 25 de abril de 1974, iremos votar para eleger o Presidente da República portuguesa.
E, por essa razão, neste meu escrito, é minha obrigação - legal, mas também ética - evitar manifestar qualquer sinal de incentivo à votação numa qualquer das pessoas que se está a candidatar a essa eleição.
Mas posso assinalar a importância desse acto que hoje os eleitores e as eleitoras inscritos/as nos cadernos eleitorais vão poder realizar.
Daí o título deste texto, que é uma tradução mais ou menos literal do nome da versão em inglês, popularizada pela artista estado-unidense Ruth Lee Jones (cujo nome artístico era Dinah Washington) em 1959, de uma canção escrita em 1934 pela autora e cantora mexicana Maria Grever.
Esse título é “What a difference a day makes”. E, realmente, vinte e quatro pequenas horas podem fazer toda a diferença do Mundo. Ou, neste caso, as horitas que decorrem entre as 8 e as 19 em Portugal Continental e na Madeira, e nos Açores entre as 9 e 20 horas, considerando a hora continental.
A canção alude ao amor por uma pessoa, o que aqui não é deslocado ou despropositado porque também deve haver amor à Democracia.
Claro que poderia ter igualmente escolhido uma canção em português.
E se calhar deveria tê-lo feito porque, como Caetano Veloso, eu gosto de sentir a minha língua a roçar na língua de Camões.
Até porque existe uma magnífica canção de Chico Buarque de Holanda – aliás e como sempre, assente num belíssimo poema desse cantautor - chamada “Basta um dia”, cujos versos iniciais são os seguintes:
“Pra mim
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
Me dá só um dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um belo dia”.
Esta ideia de que um dia vale muito também serviu de inspiração para muitos outros tipos de obras artísticas.
Por exemplo, livros, entre os quais destaco (mas poderiam ser muitos outros), “Ulysses” do irlandês Jaime Joyce - que, confesso, nunca li -, mas igualmente “Após o anoitecer”, do japonês Haruki Murakami, que relata uma série de encontros e desencontros ocorridos entre o anoitecer e o raiar da manhã seguinte (mais exactamente entre as 23 horas de um dia e as 6:45 horas do dia seguinte) protagonizados Mari Asai, uma rapariga solitária e tímida que abandona a casa dos pais para enfrentar a noite nas ruas de Tóquio, “Cosmopolis”, do estado-unidense Don DeLillo, que nos dá conta de múltiplas e variadas peripécias vividas por um multimilionário de 28 anos chamado Eric Packer, no interior da sua luxuosa limousine no caminho para um corte de cabelo numa barbearia localizada no centro de Nova York (Manhattan), e “Um dia na vida de Ivan Denisovich” do russo Alexander Soljenitsin, publicado pela primeira vez em novembro de 1962, e que, apesar de ser uma história ficcionada, constitui um relato seco e muito duro do quotidiano dos que estavam encarcerados nas prisões siberianas a que foi dado o nome de “Gulag” (por acaso, a prisão em questão situar-se-ia numa região que actualmente faz parte da República do Cazaquistão).
Mas também filmes e séries de televisão.
Quanto aos primeiros, novamente, um entre muitos, refiro “O dia antes do fim”, que nos apresenta uma versão do que aconteceu nas 24 horas que antecederam o crash da Bolsa de Nova York decorrente da falência da financeira Lehman Brothers ocorrida a 15 de setembro de 2008 (e que deu origem à chamada “Crise do Subprime”, e, quanto às segundas, a série “24” que teve 9 – nove – temporadas e que nos deu a conhecer nove dias do tornado famoso agente antiterrorista Jack Bauer, da sua engenhosa filha e de todos restantes personagens (amigos e inimigos) dessa empolgante história de ficção.
Quero com tudo isto significar que há momentos que são marcantes e cujas consequências são definitivas e perenes na vida das pessoas e dos povos.
Momentos que alteram completamente o que antes existia e em que, depois deles, as coisas não voltam a ser as mesmas.
Por alguma razão, nos países ocidentais há o antes e o depois de Cristo.
Mas há também, numa escala infinitesimamente menor, mais ainda assim relevante, o dia 24 de junho de 2004, quando Ricardo, o guarda-redes da selecção de futebol de Portugal (de seu nome completo Ricardo Alexandre Martins Soares Pereira), no jogo do Campeonato da Europa de Futebol realizado nesse ano contra a Inglaterra que nos garantiu o acesso à final desse campeonato (que perdemos ingloriamente frente à Grécia), tirou as luvas para defender - e defendeu - o último penálti marcado pelos ingleses, e, depois, cheio de adrenalina, exigiu ser ele a marcar o último penálti da equipa portuguesa, que, para nossa grande alegria, concretizou, e, de igual modo, o dia 10 de julho de 2016, que foi aquele em que Éder (de seu nome completo Éderzito António Macedo Lopes) marcou o golo contra a França que deu a Portugal, pela primeira vez na sua história, um Campeonato da Europa de Futebol.
Em suma, para usar as palavras de uma antiga campanha promotora da segurança rodoviária, vale mais perder um minuto na vida do que a vida num minuto.
E, sem qualquer dúvida, vale mesmo a pena pensar muito bem em quem vamos votar hoje.
No final do dia veremos qual foi o resultado deste “jogo” tão importante para as vidas de todos nós.
E que diferença um dia faz!
Há momentos que são marcantes e cujas consequências são definitivas e perenes na vida das pessoas e dos povos.
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