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Mariana Sottomayor
26.04.2020

A pandemia Covid-19 e o Ocidente

O que temos no mundo dito ocidental e supostamente desenvolvido?

Temos uma OMS a reboque da catástrofe sanitária, a decretar medidas e alertas depois de os próprios países as terem já tomado, perante a gravidade da situação em que tinham mergulhado. Uma OMS  continuamente incapaz de tomar a dianteira e dar orientações que ajudem verdadeiramente os países, nomeadamente na questão das máscaras, que é uma questão fulcral, na qual a OMS se enrola de uma forma totalmente irracional.

Temos a arrogância que se transforma em estupidez de quem, do alto do seu suposto desenvolvimento, se pensa imune a uma epidemia sanitária que todos vimos placidamente sentados nos nossos sofás em frente à televisão, dia após dia, colocar em estado de sítio país oriental a seguir a país oriental. Vimos e comentamos com humor a construção de um novo hospital do nada em Wuhan para lidar com uma nova doença claramente de uma contagiosidade e gravidade inéditas, sem que isso nos perturbasse o sossego de cidadão de um mundo global onde tudo se move e comunica. Mas a questão é que essa arrogância e estupidez não foi apenas do cidadão comum, sentado no seu sofá a relaxar no final do seu dia de trabalho, foi também e ainda mais, a arrogância e estupidez dos governos e autoridades sanitárias do ocidente, a quem compete por inerência de funções não ignorar estas situações, pelo contrário, compete estuda-las, tirar ilações e tomar medidas de prevenção. Foi a arrogância e estupidez de governos e autoridades sanitárias que só acordaram quando estavam a braços com a catástrofe, como na Itália, França e Espanha, ou quando as forças vivas da sociedade finalmente despertas pelas notícias dos países vizinhos as obrigaram a faze-lo aos primeiros sinais de alarme, como foi o caso do nosso país. O que explica tal absurdo? O termos também o que continuo a expor.

Temos os líderes mais medíocres de sempre da nossa história recente senão da nossa história global, atingindo-se os reconhecidos pináculos caricaturais nos líderes do Reino Unido e da maior potência ocidental, um que chegou a estar a braços diretos com a doença que quis ignorar, e o outro a sabotar diariamente os esforços das autoridades sanitárias do seu país. Os países ocidentais levam décadas de propagação insidiosa da mediocridade em todas as instâncias do poder, mercê do imperialismo da capacidade mediática dos líderes em detrimento da sua qualidade, associada ao nepotismo, e muito mais que os sociólogos e politólogos poderão explicar. Mas não é preciso ser um desses estudiosos para constatar o resultado, está bem patente, e entra-nos neste momento pelos olhos, pela bolsa e pior, pela esperança de vida dentro!

Temos uma organização político-social, científica e produtiva, que se auto denomina desenvolvida e se considera ser o cume da organização mundial, com a sua democracia, o seu bem-estar, o seu respeito pelas liberdades individuais e o seu respeito pela vida humana, associados a uma avançada capacidade científica e produtiva. Acontece que tudo isto tem resvalado para uma falácia cada vez mais profunda que ficou neste momento totalmente ao léu. O Ocidente vive de facto num pós-desenvolvimento em que quem dita as leis é o capital, quem faz de conta que as dita é quem melhor domina o discurso mediático com aldrabices, os princípios da liberdade e do respeito pela vida humana são como no Triunfo dos Porcos, mais para uns do que para outros, a capacidade científica tem sido minada por décadas de políticas absurdas de financiamento da ciência (e já não é exclusivo seu, felizmente neste caso), e a capacidade produtiva foi em grande parte deslocalizada e perdida devido às conveniências do capital e à exploração desumana de países pobres. Resultado? Estamos totalmente impotentes para produzir o que e necessário para resolver a crise que deixamos que nos caísse em cima da cabeça sem qualquer medida de preparação prévia.

Mas ainda há mais! No fundo do buraco para onde resvalamos sem nos dar conta, persistimos com uma irracionalidade irredutível em não fazer o que é necessário, como usar uma simples máscara! Porque isso seria reconhecer a superioridade dos países orientais que controlaram rapidamente a crise? Porque isso viola a nossa noção de liberdade individual de ter a cara a descoberto e espalhar os agentes infecciosos que tenham decidido também livremente habitar as nossas vias respiratórias? Ou porque nos tornamos, além de arrogantes, totalmente incapazes de pensar e tomar decisões perante a multiplicidade de vozes e poluição sonora que as nossas sociedades produzem em contínuo num ruído infernal?

Penso que vamos sair deste buraco, sim, mas não havia necessidade nenhuma de cairmos tão fundo, haver tantas mortes, tantas falências, nem de levarmos tanto tempo como vamos levar a voltar a subir a encosta – augura-se um declive do caraças.

Mariana Sottomayor

Porto

 

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