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Francisco Mota Ferreira
28.02.2022

A NATO e a tentação imperial russa

Há quem diga que o jogo recomeçou. Eu diria que nunca parou. E nunca esteve tão perigoso.

Por estes dias têm-se multiplicado as reações à invasão da Ucrânia pela Rússia. Digo invasão, medindo todas as letras e assumindo toda a responsabilidade do que aqui se afirma, sem as tibiezas da extrema-esquerda que, em Portugal, certamente nostálgica pelo branco e preto do passado, divide as suas críticas entre as acusações ao imperialismo norte-americano e o papel da NATO.

Sejamos concretos: a Aliança Atlântica teve, de facto, uma participação relevante para o desencadear deste conflito e, talvez por isso mesmo, acredito que terá também um papel a desempenhar no futuro. Porém, e para se perceber o que está em causa, temos de recuar algumas décadas e regressar ao tempo em que existia Guerra Fria, União Soviética, Muro de Berlim, NATO e Pacto de Varsóvia.

A História do século XX pós II Guerra Mundial é, aliás, rica em exemplos de como, apesar de tudo, a comunidade internacional foi capaz de aceitar algunsdiktats– dos EUA, mas também da URSS - muitas vezes não em nome da paz ou da justa reivindicação dos povos à liberdade, mas em nome de equilíbrios ideológicos frágeis, assentes no pressuposto do medo nuclear e da destruição mútua assegurada. É por isso que se explica que o mundo tenha assistido, sem nada poder ter feito para mudar o resultado, ao esmagamento das revoltas populares na Hungria e na Checoslováquia, em 1956 e 1968, respetivamente – ou à invasão do Afeganistão em 1979. Ou, para não ser acusado de parcialidade, da crise dos mísseis de Cuba, em 1962, ou das destabilizações estratégicas, políticas e militares que os EUA foram fazendo ao longo de décadas, na América Latina, na Ásia ou em África, onde conselheiros norte-americanos e, posteriormente, forças militares, aconselhavam e defendiam governos fantoche colocados para salvaguardar os interesses do Tio Sam.

Entretanto, a Iniciativa Estratégica de Defesa (comummente conhecida como "guerra nas estrelas") proposta pelo então Presidente dos EUA Ronald Reagan em 1983 foi a machadada final numa Guerra Fria que tinha deixado uma União Soviética exangue, em falência, quer perante orçamentos militares cada vez mais vez mais ambiciosos para acompanhar a corrida armamentista, quer porque, ao abrigo da amizade socialista com os seus países satélites da Europa de Leste, Moscovo via-se obrigada a comprar, promover e patrocinar a compra de produtos que não precisava e que, no limite, eram de uma qualidade fraquíssima.

Em 1989, cai o Muro de Berlim. Dois anos mais tarde, em 1991, é extinto o Pacto de Varsóvia em março, e, em dezembro, o então secretário-geral do todo poderoso PCUS Mikhail Gorbachev coloca um ponto final na URSS.

Quem viveu esses dias lembra-se certamente que parecia que estava tudo alinhado para que as previsões sobre "O Fim da História", de Francis Fukuyama, de 1989 (e desenvolvidas no livro que lhe deu o nome publicado em 1992), fossem uma realidade. No final de contas, gerações inteiras tinham-se habituado durante décadas a assistir ao mundo dividido entre capitalismo e socialismo, a quintas colunas de ambos os lados da barricada, numstatus quo que, mal ou bem, todos se habituaram.

Com a suposta vitória dos EUA, vieram as novas teorias. De mundo bipolar, passámos para o unipolar e o multipolar. No final de contas, não caberia apenas aos EUA serem os polícias do mundo e outros atores achavam e acreditavam que teriam uma palavra a dizer (para os mais distraídos, convirá talvez recordar que o Tratado de Maastricht, que institui a União Europeia, é assinado em 1993, com promessas de federalismo europeu e de uma só voz na Europa na política internacional – Política Externa e de Segurança Comum PESC).

A Leste, a União Soviética tentava reconstituir-se do caos e dos cacos criados. Estónia, Letónia e Lituânia, ex-repúblicas soviéticas à força, fogem do abraço de urso de Moscovo (e de uma ocupação de quase 50 anos) e declaram a independência. As restantes repúblicas soviéticas fazem o mesmo (Ucrânia, naturalmente, incluída). Nesse mesmo ano, é impulsionado por Moscovo a criação da Comunidade de Estados Independentes (CEI), um novo acordo de união política que pretendia juntar as ex-repúblicas soviéticas, agora Estados soberanos, numa união livre. Neste momento, formalmente, a CEI ainda existe, mas apenas com 10 dos 15 que foram desejados desde a sua criação. Os três países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia) nunca aderiram. A Geórgia, que se juntou à CEI apenas em 1994, sai em 2008, devido ao apoio russo às repúblicas da Abecásia e da Ossétia do Sul. A Ucrânia abandona a CEI em 2014, após a anexação da Crimeia. Ou seja, da CEI saem (ou nunca a integram) os países que mais sofreram na pele o peso da determinação de Moscovo.

No meio de todo este tumulto a leste, como reagia a NATO? Depois de uma fase em que se acreditou que a Aliança Atlântica tinha perdido a sua atualidade e pertinência, a História mostrou a importância deste braço armado da democracia e da liberdade, em regiões tão distintas como a ex-Jugoslávia, durante a guerra civil e, posteriormente, no Kosovo, onde aliás ainda se encontram, 14 anos passados da independência face à Sérvia.

Ao abrigo de um novo conceito estratégico, a NATO alarga a sua esfera de influência e, desde 1997, tem-se expandido pelo leste da Europa, em vagas sucessivas de adesões que fizeram entrar 14 países que, na sua maioria, eram próximos da Rússia socialista. Olhando-se para o mapa, a leste, sobram a Bielorrússia e a Ucrânia como portas de entrada no velho continente e o último reduto para o cerco europeu à Rússia.

Talvez isso baste para perceber porque é que a Rússia fez o que fez. E porque é que, também, a NATO deixou em silêncio os sucessivos pedidos de Kiev para aderir à Aliança Atlântica. Se até aqui, consegue-se perceber a estratégia de Moscovo, confesso que me é muito difícil entender a recusa da NATO. Pelo sim, pelo não, a Rússia já veio também avisar que, se a Finlândia aderir à Aliança Atlântica e terminar com a neutralidade ativa que mantém de décadas, irá sofrer sérias repercussões políticas e militares.

Há quem diga que o jogo recomeçou. Eu diria que nunca parou. E nunca esteve tão perigoso.

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