Waters destaca o exemplo da Albânia, onde os protestos mostram pessoas que "estão a levantar-se, a dizer 'não entregar o país a Trump'", o presidente dos Estados Unidos, "mesmo que no ano passado as Nações Unidas e o Conselho de Segurança tenham dado Gaza à família Trump".
Roger Waters, fundador dos Pink Floyd, diz que a vaga de protestos pela Europa deixa o continente "a arder", porque as pessoas estão fartas da elite no poder, numa entrevista conjunta à Lusa com a artista palestiniana Mona Miari.
Roger Waters, fundador dos Pink FloydLusa
"Isto [os protestos] é a insurreição de que falávamos, de que nos sentimos parte. [...] São muito recentes. A Europa está a arder, está em todas as manchetes. Estamos de volta ao Maio de 68... O planeta é completamente capaz de dar a todos um teto. Todos aqueles direitos inalienáveis que foram tão falados quando da fundação das Nações Unidas... Hoje, nada tem a ver com nada a não ser o lucro", afirma o músico.
Roger Waters falava à Lusa à margem do Escritaria, festival literário em Penafiel no qual atuará hoje ao lado de Mona Miari, que o convidou para um concerto de homenagem a Luís Represas naquele evento, vendo como positivo o momento na Europa, com a luta pela habitação e contra o custo de vida, incluindo em Portugal.
Waters destaca o exemplo da Albânia, onde os protestos mostram pessoas que "estão a levantar-se, a dizer 'não entregar o país a Trump'", o presidente dos Estados Unidos, "mesmo que no ano passado as Nações Unidas e o Conselho de Segurança tenham dado Gaza à família Trump".
"Quê? Estão doidos? São doidos, sim. Mas as pessoas estão a levantar-se e a dizer: 'São doidos'". Por isso, prossegue, a essas elites "respondemos: Não!"
Em primeiro na lista de prioridades do músico, "está uma Palestina livre e democrática", mas Waters apontou, ao longo da entrevista, uma miríade de causas que defende, da luta antifascista ao apelo ao voto em Lula da Silva nas presidenciais brasileiras, para impedir que "as elites que governam roubem tudo a que chamas casa".
Mona Miari, que escreveu, compôs e interpretou com o músico britânico uma nova versão, reimaginada e enquadrada na luta palestiniana, da música "Comfortably Numb", dos Pink Floyd, apresentada hoje ao vivo em estreia mundial em Penafiel, vê os movimentos de luta pela habitação, como os que decorrem em Portugal, no Porto e em Lisboa, como "empoderadores e muito importantes".
"É a mais natural resposta ao imperialismo e capitalismo que temos sofrido durante tantos anos. Dá-me muita esperança, e leva-me a acreditar que não estamos dormentes ['numb']. Estamos a responder a isto, a dizer 'não, não queremos viver assim'. É muito importante continuar, não podemos ter uma reação e desistir. Queremos respostas, e respostas são completamente diferentes de reação. É o mesmo com o genocídio [do povo palestiniano], porque mesmo que seja duro e horrífico, foi a primeira vez que Israel foi exposto em todas as atrocidades que comete", afirma a artista.
Para a palestiniana, que vive em Nova Iorque mas tem os pais no país natal, este momento é "uma continuação da batalha" pela liberdade de todos os povos, da espécie humana, e "veio mesmo a tempo", porque "dizem que a História se repete, mas ela nunca acabou", esperando agora que as pessoas tenham abdicado do privilégio de "estarem confortáveis, a escolher não saber, não se educarem".
"A luta pela liberdade é uma luta universal, independentemente da nacionalidade, etnia ou religião. Estamos a continuar esta batalha de libertação completa de todos os humanos. Todos os oprimidos, seja na Palestina, em Timor-Leste, Sudão, Congo... É tempo de nos libertamos e vivermos pacífica e dignamente", defende Mona Miari.
A artista falou, ainda, sobre a edição presente do Escritaria, com Timor-Leste em foco por via do autor Luís Cardoso, o homenageado desta edição, e de Luís Represas, cujo legado musical irá honrar no concerto de hoje.
Lembrando a canção "Home", que escreveu em 1987, Roger Waters recorda que "todos têm algum lugar a que chamam casa", e que toda a gente tem de decidir protestar e lutar por isso, seja na luta contra um genocídio ou pela habitação digna.
"É isso que é o fogo na Europa, é o que está a acontecer. E fazem-no pelas pessoas em Timor, na Palestina, por todos os povos oprimidos por todo o mundo, por todos os escravos dos últimos 400 anos ou lá quanto tempo foi. Estamos a olhar para um mundo renascido em que se exige que não haja mais escravos ou senhores", garante.
Roger Waters aponta às elites no poder que "querem roubar o lítio ou o cobre ou o níquel ou o que for, e não querem saber de ninguém", uma luta que tem tido também expressão em manifestações em Portugal, relativamente a Covas do Barroso (Boticas, Vila Real).
Questionada sobre a situação da Palestina nos últimos anos, em especial depois do 07 de outubro de 2023, Miari admite que quase "perdeu fé na Humanidade" após ver como, ano após ano, as pessoas iam lidando com o que se passa no seu país, mas desde 2023, com a guerra em Gaza, vê "as coisas a mudar".
"Não quero descartar todos os ataques, mas desde há uns cinco anos, e a insurreição em Sheikh Jarrah [em 2021, uma expulsão em massa de um bairro de Jerusalém], há mudanças sobretudo no mundo ocidental, por causa do que considero um uso inteligente das redes sociais. Toda a gente em Gaza e na Cisjordânia passou a estar em direto, a documentar a ocupação, os ataques, o genocídio. Israel é uma máquina genocida, e o mundo estava confortavelmente adormecido. (...) Desde o 07 de outubro, tenho visto mudanças", analisa.
A artista considera que o sionismo está alicerçado numa máquina de propaganda, mas tem esperança, como afirma, na forma como o ativismo palestiniano tem ajudado mais pessoas a compreenderem as "atrocidades horrorosas que a Palestina sofre há mais de 78 anos".
Ainda assim, é preciso "continuar a forçar", a protestar, "a fazer arte, escrever, qualquer coisa possível", para continuar a avançar a causa, sem parar até à libertação e ao fim do genocídio, e a um "verdadeiro cessar-fogo, não só no papel ou nos jornais".
Roger Waters concorda, e acrescenta que o mundo se encontra "numa batalha existencial pelo futuro da espécie humana", e pela sua alma, congratulando-se com a forma negativa como Israel é visto pelo mundo fora e exigindo uma Palestina livre de qualquer império, para um mundo que não assente "no sistema capitalista neoliberal e em 500 anos de hegemonia ocidental".
"O Estado de Israel tem de deixar de existir, e criar-se um estado democrático unificado da fronteira com o Líbano, a norte no Sinai e a sul, e do rio Jordão até ao mar. Todos iguais. (...) Criámos 'Confortably Numb Reimagined' juntos, para que toque as pessoas no coração, e na sua imaginação. E temos a sorte de termos mais voz juntos do que teríamos individualmente", nota Roges Waters.
Sobre a canção, Mona Miaria considera-a "tão genuína e direta como os pensamentos", o que a torna uma "voz da razão" proveniente do seu país, para notar a forma como o seu povo continua a lutar e, no meio disso, continua "a tentar viver e desfrutar das coisas simples na vida, amar, ser feliz".
Durante um tempo, não cantou ou criou, por lhe parecer impossível criar "durante um genocídio", uma sensação "sufocante" que ainda sente, por vezes, dada a dor e a sensação de impotência que a atravessam, mas o encontro com Roger Waters levou-os a criar uma "troca entre vozes" que amplia a luta por liberdade.
"Escrever a canção foi como uma correspondência entre duas pessoas. (...) A questão fundamental, política e filosófica, é que o sionismo foi sempre uma ideia terrível. (...) Os Governos do Ocidente têm inexplicavelmente apoiado este genocídio e o estado de Israel desde 1948, e apoiaram mentiras monstruosas e o que este estado defende, que é o fascismo, o extremismo, o racismo, o homicídio, o genocídio", insiste Roger Waters.
O músico regressa várias vezes a esta denúncia do estado de Israel, de que é, no setor da Cultura mundial, uma das vozes mais críticas e mais abertamente posicionadas a favor da Palestina, mas também a favor de um mundo, sonhado ou esperado, em que se possa viver de maneira diferente, "como iguais", com liberdade.
"Mona e eu temos falado sobre isto, porque - quem sabe? -, há esta possibilidade de o mundo renascer. Um mundo renascido, onde a empatia prevalece, e não a ganância. Isso é a base fundamental. Ou queres saber do lucro, ou queres saber das tuas irmãs e irmãos, estejam onde estiveram, sejam quem forem, pelo mundo, mas em particular os nossos irmãos mais desafortunados", conclui Roger Waters.
Roger Waters diz que "Europa está a arder" contra elite que governa
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