Japão tem uma bem desenvolvida rede de alta velocidade há seis décadas e nunca registou qualquer fatalidade.
Espanha chora a morte de pelo menos 115 pessoas em dois trágicos acidentes ferroviários no espaço de 9 meses e no Japão, país que tem alta velocidade há seis décadas, nunca se registou sequer uma fatalidade. Kana Azuma, especialista do Instituto de Investigação Ferroviária do Japão, confessou numa entrevista ao jornal ABC estar chocada com o que aconteceu em Adamuz, em janeiro, e em Toledo esta semana.
Acidente ferroviário em Espanha Frame AP
"O acidente recebeu ampla cobertura televisiva no nosso país. Estou profundamente chocada. Como especialista no Shinkansen [sistema ferroviário de alta velocidade do Japão] tenho dificuldade em entender como um acidente tão devastador pôde acontecer. É particularmente alarmante que vários acidentes graves tenham acontecido em Espanha num período tão curto. Acredito que seja importante examinar, não apenas possíveis erros individuais, mas também as potenciais deficiências do sistema como um todo", aconselhou a especialista.
Kana Azuma explica que agora "a prioridade deve ser reconstruir com precisão o que aconteceu antes da colisão". "A questão fundamental não é apenas perceber por que o acidente aconteceu, mas também por que os sistemas de segurança e os procedimentos operacionais falharam". A especialista acrescenta que "a segurança ferroviária depende de múltiplas camadas de proteção", por isso, "quando alguém comete um erro ou algum equipamento falha, os mecanismos de segurança devem impedir uma catástrofe de grandes proporções. Os investigadores devem determinar o que falhou."
O Japão também não está imune a acidentes, até porque "os seres humanos cometem erros". Mas, "é exatamente por isso que os comboios precisam de múltiplos mecanismos de segurança, para garantir que uma única falha não leve a uma catástrofe."
Azuma acrescenta que "os acidentes relacionados a erros humanos não podem ser simplesmente ser atribuídos a isso e considerando-se, depois, o assunto encerrado". "Temos de nos perguntar por que razão a organização e seus sistemas de segurança foram incapazes de impedir que um erro se transformasse numa tragédia."
E o que faz do Japão e do seu Shinkansen um dos países com a rede ferroviária mais confiável do mundo? "Diversos fatores, incluindo o uso de linhas exclusivas, separadas das linhas férreas convencionais, a ausência de passagens de nível e o controlo automático de velocidade por meio do sistema ATC [Automatic Train Control, Controlo Automático de Comboios]. Outra caraterística importante é a possibilidade de parar os comboios ao menor sinal de problema. Por exemplo, os serviços podem ser suspensos se alguém entrar nas linhas, se for detetado um ruído inexplicável, se a precipitação exceder os limites de segurança estabelecidos ou se os sistemas emitirem um alerta de atividade sísmica. Como passageiros, podemos às vezes sentir-nos frustrados com os atrasos, mas acredito que essas interrupções refletem o quão profundamente enraizado está o princípio de dar prioridade à segurança acima de todas as outras considerações. Esse compromisso é uma das lições mais importantes que o Shinkansen pode oferecer."
Recorde-se que um choque de comboios esta quarta-feira em Urda, Toledo, causou pelo menos 69 mortos. Em janeiro, outras 46 pessoas morreram num acidente de comboios em Adamuz, Córdova.
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