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Como piratas informáticos atacaram frigoríficos em França

Esta semana, hackers levaram a cabo um ataque que desligou vários frigoríficos de cadeias de supermercado francesas. Segundo a empresa de cibersegurança CyberS3C, o caso terá afetado também Portugal, embora não haja uma confirmação oficial. Mas como se desencadeia um ataque deste tipo?

Na noite de 11 para 12 de outubro, ocorreu um episódio no mínimo insólito em França. Piratas informáticos lançaram um ataque que não teve como objetivo roubar dados ou exigir resgates. Ao invés disso, de 150 a 220 lojas Intermarché e de pontos de venda das Coopératives U, obrigando à destruição de grandes quantidades de produtos frescos e congelados. O caso levou até o Ministério Público de Paris a abrir um inquérito. Mas o que aconteceu?

Ataque informático desligou os sistemas de refrigeração de vários supermercados em França
Ataque informático desligou os sistemas de refrigeração de vários supermercados em França João Cortesão

Segundo Sérgio Silva, da empresa de cibersegurança , "porta de entrada" para os atacantes terá sido um sistema que permite que técnicos acedam remotamente aos frigoríficos para fazerem atualizações ou rever avarias.

"Os alvos foram os system managers da dinamarquesa Danfoss, séries AK-SM e AK-SC", explica.

Os AK-SM e os AK-SC funcionam como uma espécie de "cérebro" de todo o sistema de refrigeração de uma loja. "Cada um comanda o frio de uma loja inteira, câmaras, arcas, vitrinas e compressores, e distribui os setpoints e os ciclos de degelo pelos controladores individuais", refere o especialista.

O problema, acrescenta, é que a "cadeia afetada tinha todos os aparelhos expostos, todos com a mesma password".

Além disso, segundo a CyberS3C, os equipamentos afetados utilizavam um "firmware desatualizado" (um tipo de software) e eram "na maioria modelos em fim de vida", o que significa que poderão ter deixado de receber atualizações de segurança do fabricante.

Para Sérgio Silva, este caso expõe um problema recorrente na cibersegurança: tratar os sistemas de refrigeração como um "equipamento técnico" e não como sistemas informáticos ligados à rede.

"Isto não é um problema de supermercados. É o mesmo equipamento que mantém vacinas nas farmácias, amostras nos laboratórios, sangue nos hospitais e carga nos armazéns", sublinha. "Os supermercados foram apenas onde se viu, porque o prejuízo aparece em prateleiras vazias no dia seguinte."

Qual é o cenário em Portugal?

Na ausência de informações oficiais sobre a situação portuguesa, a CyberS3C decidiu tentar analisar a exposição destes sistemas em Portugal.

Segundo a empresa, existem atualmente 140 centrais de frio Danfoss alcançáveis através da Internet com endereços IP português. Dessas, "71 respondem sem TLS"  - o protocolo que visa proteger a integridade de dados.

De acordo com a CyberS3C, estes números colocam Portugal como o segundo país do mundo que tem mais equipamentos distintos expostos. Segue-se depois ainda no topo da lista, a Bélgica, a Polónia, Espanha e África do Sul.

No que diz respeito à "ligação", 115 das 140 centrais encontram-se associadas ao Número de Sistema Autónomo AS12353, pertencente à Vodafone Portugal. "Os restantes repartem-se pela MEO, PT Prime e NOS."

A empresa sustenta ainda que Portugal também apareceu na lista dos países afetados pelo ataque. A informação foi inicialmente avançada pela própria CyberS3C e posteriormente noticiada pela agência de notícias Reuters. Segundo esses relatos, os incidentes abrangeram ainda países como Espanha, Polónia, Alemanha e Bélgica.

Até ao momento, nenhum governo ou loja confirmou esta informação.

O que pode ser feito?

A CyberS3C enumerou um conjunto de medidas que considera prioritárias para reduzir um ataque semelhante.

A primeira passa por "tirar a gestão da Internet" e a segunda por "procurar a intrusão e não assumir que não houve". Em seguida, recomenda "atualizar e isolar o que não tem correção" e depois "tratar a manutenção como superfície de ataque", ou seja, "se o instalador entrar sem saber a sua password", perguntar como.

O que falta saber?

Ainda existem vários aspetos do incidente por esclarecer. Nenhum grupo reivindicou até ao momento o ataque, nem houve detenções.

Entretanto, o primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu já pediu a abertura de uma investigação para apurar eventuais responsabilidades.

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