Juiz foi apanhado a trocar mensagens com um ex-banqueiro detido por fraude e corrupção no âmbito do processo Master.
A duas semanas e meia da primeira volta das eleições presidenciais no Brasil, as atenções mediáticas estão a ser desviadas para o Supremo Tribunal da Justiça (STF). Alexandre de Moraes, um dos juízes mais influentes do país e responsável pela condenação de Bolsonaro, foi apanhado a trocar mensagens com um ex-banqueiro detido por fraude e corrupção no âmbito do processo Master.
Flávio Bolsonaro, Alexandre Moraes e Lula da SilvaAP/SÁBADO
Agora, o caso está a ser analisado para que seja decidido se o também ministro e vice-presidente do STV pode ser alvo de uma investigação judicial, no entanto a sessão foi marcada por fortes tensões e acabou por ser suspensa. Uma nova sessão foi marcada para a próxima semana.
Os contactos entre Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, foram divulgados por decisões de outro juiz do STF, André Mendonça, que aceitou tornar pública parte da investigação. André Mendonça foi nomeado por Jair Bolsonaro e está a ser acusado de usar o processo para atacar um colega que ajudou a condenar o ex-presidente brasileiro.
Os juízes do STF deveriam deliberar se o caso de Alexandre Moraes deve ser analisado num processo individual ou em conjunto com um procedimento sobre a conduta do também juiz André Mendonça, nomeadamente pela forma como este conduziu o processo judicial.
O banqueiro Daniel Vorcaro foi preso por corrupção, burlas generalizadas e suborno a autoridades e tinha como principal advogada a mulher de Alexandre de Moraes, Viviane de Moraes. O ex-banqueiro é acusado de comandar o maior esquema de fraude do sistema financeiro no Brasil.
O que diziam as mensagens?
Segundo os documentos tornados públicos no dia 14 de novembro de 2025, apenas três dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes se está “marcado amanhã lá em casa” ou se “prefere deixar para a semana que vem”. Minutos depois uma terceira mensagem: “Vou chegar 15h30 ok! La em casa marcado”.
Já na noite de 15 de novembro o ex-banqueiro pede um encontro “que pode ser bem rápido” com Moraes. Nesse mesmo dia é enviada uma mensagem que parece ser mais incriminatória: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Na véspera da sua detenção, mais uma menção à saída do país: “Já estou em voo, vou pousar 14h20 e irei direto praí, tudo bem?”.
A posição de Alexandre de Moraes
O juiz do STF negou ter favorecido Daniel Vorcaro e classificou como “inconstitucional e ilegal” a investigação que levantou suspeitas sobre a relação entre ambos.
Numa manifestação enviada ao presidente do tribunal, Edson Fachin, e divulgada pelo portal G1, Moraes afirmou que nunca favoreceu Vorcaro ou o Banco Master e que também nunca julgou processos onde o banqueiro ou a instituição estavam envolvidos. Segundo o juiz, o relatório “não apontou a existência de nenhum indício de infração penal” da sua parte.
Alexandre Moraes contesta ainda alegadas mensagens que o ligariam a Vorcaro defendendo que não existem mensagens da sua autoria que demonstrem favorecimento, consultoria jurídica ou conhecimento antecipado de operações policiais.
De acordo com Moraes as suspeitas assentam em parte em anotações encontradas no telemóvel do banqueiro, sem demonstração de que tenham efetivamente sido enviadas para si.
O juiz atribui as acusações a motivações “político-eleitorais” e a uma tentativa de “vingança”.
Lula elogiou Alexandre de Moraes
O atual presidente, e candidato, Luiz Inácio da Silva já saiu em defesa do vice-presidente do STF elogiando o seu “trabalho extraordinário” no julgamento de Jair Bolsonaro. “Acho que Alexandre de Moraes fez um trabalho extraordinário para garantir a democracia desse país, prendendo Bolsonaro e os golpistas que estão com ele”, referiu o presidente numa entrevista ao podcast Desde a Letra, publicado na passada quinta-feira.
Apesar de referir os “grandes serviços à democracia brasileira”, Lula lembrou que não foi o responsável pela nomeação de Alexandre de Morais para o Supremo Tribunal. “Eu não era presidente quando Alexandre de Moraes foi indicado para ministro do Supremo Tribunal. Ele [Flávio Bolsonaro, que também é candidato presidencial] era senador, por isso deve ter votado. Portanto, é o culpado e não eu”, referiu o presidente brasileiro. No entanto, quando foi aprovada a nomeação de Moraes para o STF, em 2017, Flávio Bolsonaro ainda era deputado estadual no Rio de Janeiro, o que significa que não participou no processo de escolha.
O candidato do PT lembrou ainda o trabalho de Alexandre Moraes quando esteve à frente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante as eleições de 2022. “Foi presidente do TSE quando ganhei as eleições e ele sabe, o Brasil sabe, a tentativa que o Bolsonaro fez para destruir a credibilidade das urnas braseiras.”
Sobre o julgamento de Moraes, Lula defendeu que “todos aqueles que cometem erros, em qualquer área, têm de ser julgados”. Ainda assim reforçou que a família Bolsonaro tem uma “obsessão” em “pegar Alexandre de Moraes”.
Flávio Bolsonaro considera que Alexandre de Moraes não tem condições para continuar no STF
O candidato Flávio Bolsonaro já defendeu que nem Alexandre de Moraes nem o juiz Flávio Dino têm condições para continuar no Supremo Tribunal Federal.
Estas declarações foram prestadas na quinta-feira, durante um discurso para apoiantes, no estado da Bahia, e o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e atual candidato presidencial referiu ainda que pode indicar até seis nomes para o Tribunal. “Eu, como presidente da república, vou ter direito a quatro vagas. Para colocar lá homens e mulheres que sejam contra as drogas, que sejam contra o aborto, que respeitem a Constituição, que não usem a caneta para perseguir adversário do governo de plantão. Só que não vão ter quatro, vão ser cinco, porque Alexandre de Moraes não tem mais condições de continuar sendo ministro do STF. Mas já estou a pensando que podem ser seis vagas, porque o Flávio Dino também não tem condição de ficar lá”, afirmou.
É importante referir que quatro ministros vão entrar na idade da reforma durante o próximo mandato presidencial enquanto os outros dois juízes referidos por Flávio Bolsonaro só saem do STF se renunciarem ou através de um processo de destituição. Flávio Dino foi o responsável por ter sido pedido mais tempo para analisar o processo antes de ser decidido se vai ser levada a cabo, ou não, a investigação a Alexandre de Moraes e foi nomeado por Lula da Silva.
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