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Documento expõe falhas antes de caos em Ceuta: Espanha teve conhecimento prévio

Luana Augusto 11 de setembro de 2026 às 08:42

Jornal "El Mundo" revelou a existência de um documento que indica que as autoridades espanholas tomaram conhecimento prévio da possibilidade de uma tentativa coordenada de entrada em Ceuta. As informações, obtidas através de interceções, expõem falhas na circulação dos alertas.

O jornal espanhol teve acesso a um documento-chave para compreender os acontecimentos em Ceuta, que prova que a polícia marroquina já tinha alertado três dias antes para uma possível "entrada em massa" de imigrantes naquele território. De acordo com o jornal, os avisos resultaram de "duas interceções de interesse em árabe e francês" e foram transmitidos a agentes fronteiriços marroquinos que, a 27 de julho, três dias antes, já antecipavam "uma possível entrada em massa em Ceuta".

FILE - People walk on a beach after attempting to cross from the Moroccan northern town of Fnideq to the STR / AP

"Há apelos nas redes sociais para que haja uma afluência maciça nos dias de festa, sobretudo na noite e no dia da festa do Trono", ouve-se nas duas conversas citadas pelo periódico.

Segundo o El Mundo, as interceções revelam que as Forças Armadas espanholas tomaram conhecimento prévio da possibilidade de uma tentativa coordenada de entrada em Ceuta. Nas conversas analisadas, os agentes espanhóis referem igualmente dispor de informações sobre os movimentos das Forças Armadas Reais de Marrocos.

"Ordenaram que ninguém abandone o seu posto e [que os militares] que estão a sair de serviço permaneçam no local para que, em caso de necessidade, estejam disponíveis", uma vez que "a entrada pode ocorrer tanto pela vedação como pelo mar", disseram agentes do Exército de Terra, das Forças Armadas de Espanha.

Os mesmos agentes, cujas conversas foram intercetadas, afirmaram ainda que a entrada a nado é proibida e que existiam orientações para travar eventuais tentativas de atravessar a fronteira marítima. Segundo o El Mundo, chegou mesmo a ser referida a possibilidade de furar embarcações para esse fim. 

Após recolher essas informações sobre a "probabilidade de uma entrada em Ceuta", o 32.º Regimento de Guerra Eletrónica do Exército de Terra (REW 32), com sede em Sevilha, elaborou o chamado relatório Sigintrep 01/2026 de carácter urgente destinado a "informar" os seus superiores, revelam fontes dos serviços de inteligência militar citadas pelo jornal.

As mesmas fontes afirmaram ainda que o texto data de 27 de julho e que, desde essa data até 30 de julho, o nota de alerta foi tratado "no Exército de Terra". Acontece que as Forças Armadas de Espanha só a receberam no dia do caos. Mas o que aconteceu para que demorasse três dias a chegar?

Segundo as fontes, a nota "fica no Exército de Terra durante dois dias", onde as "interceções em bruto são removidas". Têm depois de passar para o subdireitor para serem "enviadas para o Centro de Informações das Forças Armadas (CIFAS)". O documento final é, portanto, "retocado" para se tornar num alerta mesmo quando já é tarde demais. A partir do CIFAS, parte para o chefe do Estado Maior da Defesa (Jemad).

Fontes da presidência do governo espanhol reconheceram que só tiveram conhecimento desta informação na manhã de 30 de julho, quando já era tarde para agir. Apesar disso, o governo só mobilizou o Exército de Ceuta naquele dia à tarde.

No momento em que milhares de pessoas atravessavam a fronteira entre Marrocos e Ceuta, o Corpo da Guarda Civil contava apenas com cinco agentes em terra e na fronteira e com outros quatro mergulhadores do Grupo de Especialistas em Atividades Subaquáticas (GEAS), segundo o El Mundo. Mais tarde, o cenário de caos levou os 15 guardas civis que se encontravam no Quartel-General de Ceuta a encerrarem as instalações para se deslocarem à fronteira e reforçarem as operações.

O jornal acrescenta ainda que Marrocos também foi avisado pelos serviços secretos a 29 de julho que a entrada em massa teria lugar no dia seguinte, mas segundo o El Mundo, não foram tomadas medidas eficazes para impedir a mobilização que acabaria por culminar no caos em Ceuta.

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