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A história repete-se: As intervenções dos Estados Unidos na América Latina e Caraíbas

Gabriela Ângelo 11 de janeiro de 2026 às 19:58

A Doutrina Monroe, implementada pela primeira vez em 1823, tem sido utilizada para justificar invasões dos EUA a países da América Latina.

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026 as forças militares dos Estados Unidos capturaram o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a sua esposa, Cilia Flores, na sua residência em Caracas, a capital do país. Ambos foram levados para os Estados Unidos para enfrentarem acusações de ‘narcoterrorismo’. 
Homem fotografa grafitti numa parede azul na América Latina AP
De forma a justificar esta invasão, o presidente dos EUA, Donald Trump, invocou a Doutrina Monroe, uma visão política articulada pela primeira vez em 1823 pelo então presidente James Monroe, para se opor à influência europeia no hemisfério ocidental. Desde então a doutrina tem sido utilizada para justificar intervenções militares dos Estados Unidos a países da América Latina e a ilhas das Caraíbas. 

1954: O golpe de Estado em Guatemala

Em junho de 1954 o Coronel Jacobo Arbenz Guzmán, então presidente da Guatemala, foi destituído do poder por mercenários treinados e financiados por Washington, após a implementação de uma reforma agrária que ameaçava os interesses da empresa norte-americana, United Fruit Corporation.  O líder do golpe de estado, Carlos Castillo Armas, que tomou o poder depois de Arbenz, foi o primeiro de uma série de governantes autoritários apoiados pelos Estados Unidos a governar o país antes da eleição de Vinicio Cerezo em 1985.  Segundo o canal de televisão norte-americano, CBS News, em 2003, os Estados Unidos reconheceram oficialmente o papel da Agência Central de Inteligência (CIA, sigla em inglês) no golpe em “nome da luta contra o comunismo”. 
Militares armados vigiam contentores, num possível golpe na América Latina AP

1961: Invasão da Baía dos Porcos em Cuba

Pouco depois de entrar na Casa Branca, o presidente John F. Kennedy jr. aprovou um plano, que tinha sido desenvolvido durante o tempo de Dwight D. Eisenhower, para destituir o líder cubano, Fidel Castro.  A operação secreta consistia na invasão da Baía dos Porcos por cerca de 1.400 exilados cubanos treinados pela CIA, de forma a mandar abaixo o regime de Fidel Castro. Contudo, acabou por ser um desastre e uma mancha negra para as administrações de Kennedy e Eisenhower. Quando as forças apoiadas pelos EUA chegaram à praia encontraram cerca de 20 mil soldados cubanos, resultando numa aproximação de Cuba à União Soviética que posteriormente levou à Crise dos Mísseis de 1962.  Após esta tentativa, a CIA experimentou outras alternativas para tentar matar Fidel Castro, incluindo envenenar o seu charuto e colocar um búzio com explosivos na zona onde costumava praticar pesca submarina, mas nenhuma foi bem sucedida. 
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Fidel Castro numa mesa com outras pessoas
Foto: AP
Foto: AP

1964: Operação ‘Brother Sam’ no Brasil

Os Estados Unidos apoiaram em 1964 o golpe de Estado que vinha a depor o presidente João Goulart, visto como uma ameaça comunista, instaurando uma ditadura militar que durou 21 anos.  A operação ‘Brother Sam’ tinha como objetivo garantir que, caso houvesse resistência por parte dos apoiantes de Goulart, o golpe tivesse armamento e instrumentos para derrubar o governo.
Tanque em frente a um anúncio da Coca-Cola no Brasil AP

1965: República Dominicana e a “ameaça comunista”

Em 1965, por uma alegada “ameaça comunista” na República Dominicana, os Estados Unidos enviaram mais de 20 mil fuzileiros e pára-quedistas para Santo Domingo durante uma guerra civil, após o presidente Juan Bosch ter sido destituído. A intervenção dos EUA tinha como objetivo estabilizar o país, proteger os interesses norte-americanos e impedir a ascensão de um regime comunista semelhante ao de Cuba.  Hector García Godoy foi instituído como presidente interino mas as eleições de 1966, marcadas por alegações de fraude, deram a vitória a Joaquín Balaguer, um candidato favorecido pelos interesses dos EUA, que tinha feito parte do governo autoritário de Leónidas Trujillo e que se manteve no poder, não continuamente, até 1996. 
Militares dos EUA em intervenção na América Latina e Caraíbas AP

Década de 1970: Apoios a regimes autoritários

Durante a década de 1970 Washington apoiou várias ditaduras militares na América Latina, vendo-as como uma força contra movimentos armados de esquerda num mundo dividido pela Guerra Fria. A operação denominada ‘Condor’, uniu oito ditaduras militares, na Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia, Paraguai, Brasil, Peru e Equador.  Os EUA apoiaram o ditador chileno Augusto Pinochet durante o golpe de 11 de setembro de 1973 contra o presidente de esquerda Salvador Allende. Embora não tenham estado diretamente envolvidos no golpe de Estado, as administrações norte-americanas destabilizaram o país através de pressão diplomática, restrições financeiras e com o financiamento de grupos da oposição.  Poucos anos depois, em 1976, os EUA apoiaram a “junta” argentina com o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger encorajando o novo regime a pôr fim à sua “guerra suja”, segundo documentos norte-americanos desclassificados em 2003. Pelo menos 10 mil dissidentes argentinos desapareceram durante este tempo. 
Reunião de militares na América Latina, com foco em figuras importantes e contexto histórico AP

1979 e 1980: Reagan em Nicarágua e El Salvador

Em 1979 os rebeldes Sandinistas derrubaram o ditador Anastasio Somoza na Nicarágua. Preocupado com uma eventual aliança com Cuba e a União Soviética, Ronald Reagan, então presidente dos Estados Unidos, autorizou a CIA a financiar os contra revolucionários, os Contra, com 20 milhões de dólares para derrubar o governo à época.  Contudo este apoio aos Contras eram financiado parcialmente pela venda ilegal de armas dos EUA ao Irão, gerando o escândalo Irão-Contras. A guerra civil na Nicarágua durou até abril de 1990 e causou cerca de 50 mil mortes.  Em 1980 Reagan também enviou conselheiros militares para El Salvador para enfrentar os apoiantes da Frente Farabundo Martí para a Liberação Nacional, numa guerra civil que durou 12 anos e fez mais de 70 mil mortos. 
AP

1983: A invasão a Grenada, Operação Fúria Urgente

Em 1983 enquanto Grenada passava por um período de instabilidade após o assassinato do primeiro-ministro Maurice Bishop por uma ‘junta’ de esquerda, Reagan enviou para a ilha fuzileiros navais e ‘Rangers’ norte-americanos.  A pedido da Organização dos Estados das Caraíbas Orientais, o então presidente dos EUA lançou a Operação “Fúria Urgente” com o objetivo de proteger cerca de mil cidadãos norte-americanos que estariam em Granada.  A operação, que foi condenada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, fez mais de 100 mortos. 
AP

1989: Captura de Manuel Noriega no Panamá

A captura de Maduro na Venezuela dá-se exatamente 36 anos depois dos Estados Unidos terem invadido o Panamá e detido o seu líder Manuel Noriega por acusações de tráfico de droga, apesar de ter passado anos a trabalhar com a CIA a defender os interesses dos EUA na América Latina.  O então presidente George W. Bush ordenou a invasão do Panamá, enviando cerca de 24 mil soldados para derrubar o governo de Noriega. No total, a Operação “Causa Justa” fez 500 mortos, sendo que 23 deles eram soldados norte-americanos.  A queda de Noriega levou ao fim da ditadura militar no Panamá, que passou mais de 20 anos na prisão nos Estados Unidos. 
Intervenções dos EUA na América Latina e Caraíbas AP
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