Substituído ator não-trans da peça Tudo Sobre a Minha Mãe

A personagem "Lola" vai passar a ser representada pela atriz trans Maria João Vaz. Produção foi acusada de ser "transfake".

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Substituído ator não-trans da peça Tudo Sobre a Minha Mãe
Diogo Barreto 20 de janeiro
Estelle Valente

O Teatro do Vão, que levou à cena a peça Tudo Sobre a Minha Mãe, vai fazer uma alteração no elenco do espetáculo. O ator que representava "Lola", uma personagem transsexual, será substituído pela atriz Maria João Vaz. Decisão surge depois de um protesto esta quinta-feira que acusou a produção de ser "transfake".

"No seguimento de vários atos de contestação pela representação de uma personagem trans por um ator cis e pela criação de condições de acesso e representatividade para pessoas trans, o Teatro do Vão decidiu alterar o elenco do espetáculo", anuncia o Teatro São Luiz na sua página de Facebook, explicando que a peça passa a integrar "a atriz trans Maria João Vaz na interpretação da personagem Lola".


Esta quinta-feira, durante a sessão da peça, uma ativista trans interrompeu a representação da peça de Daniel Gorjão, a partir do texto de Samuel Adamson baseado no filme de Pedro Almodóvar com o mesmo título. A manifestação ocorreu quando aparece, pela primeira vez em palco, a personagem de Lola, representada até agora por André Patrício. Lola é uma personagem que permeia toda a peça, mas que só aparece quase no fim. É uma mulher transexual, mas que está a ser representada por um ator cisgénero (cuja identidade de género é a mesma do sexo que lhe foi atribuído à nascença). O protesto começou quando "Lola" sobe a palco e se ouvem gritos de "transfake" de várias partes da audiência. Segundos depois, a artista Keyla Brasil subiu ao palco semi-nua, envergando apenas umas cuecas, botas e com o peito à mostra. A ativista dirigiu-se a André Patrício ordenando-lhe que descesse do palco, antes de se dirigir à plateia para um discurso reivindicativo e inflamado.

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"Chamo-me Keyla Brasil. sou atriz e prostituta (...) o que está acontecendo agora é um assassinato e um apagamento da nossa identidade enquanto travesti", começou por referir, enquanto a produção do São Luíz baixava a cortina atrás de si e os atores saíam de cena. Brasil protestou depois contra a produção da peça, a cargo do Teatro do Vão, por ter contratado quatro mulheres e três homens, mas apenas uma atriz trans (a atriz Gaya de Medeiros, para desempenhar o papel de "Agrado", uma prostituta transexual) e não duas. "Eu trabalho como prostituta porque nós não temos espaço para estarmos aqui neste palco, neste lugar sagrado", prosseguiu.

Durante o protesto, os atores voltaram à boca de cena, sendo que Keyla saiu do palco. A atriz Maria João Luís (que é "Huma", na peça) tentou apaziguar a atriz travesti, garantindo que aquela produção pretende "defender a luta" LGBT, ao que Keyla retorquiu: "Não defende, estão excluindo".

Depois do discurso de Maria João Luís e a reivindicação de Kayla Brasil, foi altura de Gaya de Medeiros (atriz trans que está a representar a prostituto transexual Agrado) se dirigir à plateia. Não descurando a importância de ter o papel, reforçou que "a liberdade de uma não é a liberdade de todas" e que o seu papel "é apenas um começo". Aplaudiu o ato de Keyla: "Acho que hoje este ato da Keyla Brasil, uma artista que está na prostituição, deve entrar na história de Portugal, para que se entenda a importância destes corpos ocuparem estes espaços para contarem as suas histórias".

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