A verdade está sempre a superar a ficção. Em fevereiro, o Washington Post escreveu um artigo sobre uma estação de correios para onde as pessoas enviam cartas aos seus mortos. Todos os dias, como apurou o jornal, chegam à estação de Awashima, uma ilha que fica a 35 quilómetros de Murakami, no Japão, 20 a 30 missivas, a maioria anónimas, sem remetente - e destinada a mortos. Palavras à Deriva, de Laura Imai Messina, é um romance escrito a partir dessa história verídica que, de tão bonita, parece inventada.
Em Awashima vivem não mais de 150 pessoas. A ilha, que tem o formato de uma hélice, é a própria definição de pacatez. Neste Palavras à Deriva, editado em Portugal pela Suma de Letras, Risa é uma jovem professora universitária, filha de um carteiro, que se oferece para se deslocar de Tóquio até à ilha para catalogar as centenas de cartas que chegaram à estação de correios nos anos mais recentes.
A nós, cumpre-nos acompanhá-la. "A casa que lhe tinham disponibilizado era uma das moradias destinadas aos artistas, onde podiam passar longos períodos a trabalhar em projetos para expor na ilha ou na Trienal de Setouchi, o evento de arte mais importante da região." Risa é recebida pela população com um misto de curiosidade e comoção, do homem que a esperava no cais e lhe agarrou nas malas logo que conseguiu à idosa que lhe arrendou a casa.
Da mulher, ouviu, à chegada: "Conte-me lá como é que lhe passou pela cabeça dedicar-nos um mês inteiro da sua vida. A mim pareceu uma loucura desde o início, mas os jovens estão cheios de loucura, é o que há de bom na vossa idade. Os vinte anos são realmente uma idade absurda!"
E é nesse mês que Risa vai entender tudo sobre a ilha. "De todos os que moram nesta ilha, alguns regressaram como adultos para cuidar dos pais idosos. A seguir, depois de os enterrarrem, em vez de regressarem a terra firme, ficaram. Se os ouvir falar, vai perceber que nem eles esperavam tal coisa", conta-lhe a idosa.
A explicação é uma lição para memória futura: "Quando somos jovens, temos medo da tranquilidade, como se fosse o fim do mundo. Mas depois, na idade adulta, começamos a persegui-la como uma quimera."
É neste tom que continua este Palavras à Deriva, um romance escrito com leveza mas profundidade, numa narrativa que é entremeada pelas cartas enviadas para a ilha. Como se pode ler na sinopse: "O trabalho que espera Risa é de monta, tão minucioso como peneirar o oceano, mas Risa fá-lo por um motivo maior: o seu pai é carteiro e toda a vida trabalhou com dedicação e tenacidade para que não se perdesse uma única carta. A verdade, porém, é que Risa nutre a esperança de que, entre aqueles milhares de palavras de amor, arrependimento, gratidão, culpa e alegria, algumas lhe sejam dirigidas a ela, e que a ajudem a encontrar as respostas que desesperadamente procura."
A autora, Laura Imai Messina, nasceu em Roma e é licenciada em Literatura. Aos 23 anos, foi viver para Tóquio para tirar um doutoramento na Universidade de Estudos Estrangeiros. É, como a sua protagonista Risa, professora universitária e, depois de vários romances publicados em Itália, escreveu três romances, o mais recente dos quais este Palavras à Deriva, que conquistaram a crítica internacional.