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200 anos depois, quem é Camilo Castelo Branco?

O bicentenário do autor que inspirou centenas de escritores entre os quais Aquilino Ribeiro e Agustina Bessa-Luís é celebrado por todo o País. Mas os seus livros vão sendo cada vez menos lidos.

Diogo Barreto 16 de março de 2025 às 10:00
D.R.

Celebram-se este domingo 200 anos desde o nascimento de Camilo Castelo Branco, autor mais conhecido do que lido atualmente, mas que foi um dos escritores de maior sucesso em Portugal no século XIX e um dos fundadores do género do romance no País.

Polémico e talentoso, mas igualmente popular, Camilo foi autor de mais de uma centena de novelas e romances. Teve uma vida cheia e com um fim trágico, daqueles que tanto agradavam às suas leitoras. Passados 200 anos do seu nascimento, poucas certezas temos sobre quem ele foi e a sua obra está esquecida. Mas ainda há quem veja possibilidade de salvar Camilo Castelo Branco do esquecimento. 

Quem foi Camilo?

Da biografia de Camilo pouco se sabe. É quase certo que terá nascido em Lisboa, na zona do Bairro Alto, em 1825 (apesar de ele ter sempre afirmado que tinha nascido em 1826) e ali vivido os primeiros anos da sua vida. O pai é certo que foi Manuel Botelho já a identidade da mãe é caso mais bicudo. O próprio Camilo admitia não lhe saber o nome e um amigo fez um inventário dos vários nomes que foram atribuídos à mulher cujo nome foi rasurado nos registos oficiais (a mando do pai), como recorda José Viale Moutinho ao Jornal de Letras, depois de morta, em 1827.

Aos 10 anos, depois da morte do pai, vai viver com a irmã para casa de uma tia em Vila Real. A sua vida adulta será passada maioritariamente no norte do País. Casa aos 16 anos e um ano depois vai estudar para a universidade onde mantém relações extra-maritais.

Aos 22 anos publica os seus primeiros romances Carlota Ângela e Cenas da Foz. Ao mesmo tempo começa a escrever para o jornal A Aurora do Lima. Viverá inteiramente destas duas atividades, escritor e jornalista. Nunca fugia de uma polémica e era bastante apreciado pelas classes mais altas pelo seu estilo acutilante e bem trabalhado.

No Jornal do Povo exercia a sua veia de crítico sublime, muita vezes veiculando uma crítica vestida de elogio, como quando descreveu a sala de visitas do comendador Sousa Guimarães como sendo um "dourado quiosque para sultanas na hora da sesta".

Olhando para os parcos retratos que nos chegam de Camilo - com o seu bigode farto e elaborado sobre uma fisionomia frágil que lhe dava ares de Yosemite Sam - não adivinharíamos que ali se encontrava um dos mais mordazes autores do seu tempo. Um homem que vivia da pena e de escrever romances para serem devorados por um público maioritariamente feminino. Agustina comparou-o ao escritor francês: "Um Voltaire à moda do Porto, com mais tripas do que carne do lombo".

Mas a verdade é que apesar da "fraca figura" foi um homem com várias paixões, a maior das quais Ana Plácido. Mesmo correspondida, Plácido casaria com Manuel Pinheiro Alves, um negociante brasileiro que servirá como modelo para muitos dos antagonistas das novelas e romances camilianos (como n'A Brasileira de Prazins).

Tomados de amores, Camilo e Ana Plácido fogem, tendo sido capturados e julgados. O amor entre Camilo e Ana Plácido chegou às páginas dos jornais e ao contrário da moral vigente daqueles séculos, os populares tomaram o lado do amor proibido. Foram ambos enviados para a Cadeia da Relação, no Porto. Ali Camilo conheceu Zé do Telhado e escreveria Memórias do Cárcere. Depois de serem absolvidos do crime de adultério (pelo pai de Eça de Queirós), Camilo e Plácido puderam viver juntos, tendo três filhos.

A sua vida foi cheia de peripécias e amores. Teve uma dívida por se ter endividado por causa do jogo, viu o filho mais velho de Ana Plácido (subsiste a dúvida se também seria filho de Camilo) morrer ainda sem ter chegado à idade adulta, cegou devido à sífilis e, por fim, suicidou-se com um tiro de revólver.

A escrita

Para sustentar a família o escritor começa a escrever de forma voraz. A sua escrita variava entre o ultra-romantismo (a história de amor de Simão, Teresa e Mariana), a crítica de costumes (A Brasileira de Prazins) e até uma aproximação, se bem que satírica, ao realismo (com Eusébio Macário). Camilo definia-se como um "folhetinista absoluto" que escrevia sobre tudo desde que interessasse a um público.

Abel Barros Baptista, na obra Camilo e a Revolução Camiliana, afirma que Camilo escreveu sobre aquilo que interessava na altura às leitoras mais particularmente, mas também aos homens: "Os bailes, os funerais, as festas, os suicídios, os crimes, os cafés, os assuntos de religião, os títulos e condecorações, a emigração, a prostituição, as procissões, a política, o comércio, a agricultura, e, evidentemente, a própria actividade jornalística". 

Jorge de Sena invocava Camilo Castelo Branco, no seu verbatim sobre a literatura portuguesa destinado à 15.ª edição da Enciclopédia Britânica escrito em 1971, (recentemente editado num volume isolado pela Guerra & Paz), dizendo que tinha sido o responsável por evoluir o romance da sua fase de "historicismo evocativo" para "retratos da vida na província e nas cidades", ao estilo de um Balzac, apesar de, como nota Abel Barros Baptista, Camilo Castelo Branco não ter construído a sua comédie humaine, como fez o autor de Ilusões Perdidas ou Eugénie Grandet. Sena escreve ainda, sobre Camilo, que era um "prosador de génio e um realista mesmo com entrechos um tanto manchados de paixão romântica".

Sobre a veia romântica de Camilo, escreveu Sena, desta vez para O Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária (igualmente editado num volume isolado pela Guerra & Paz): "Quem herdará todos os lugares-comuns do pequeno aristocratismo tradicionalista, do burguesismo dramatizando-se a si mesmo, e de uma visão de paixão como avassaladora e destrutiva (erros que se expiam), será Camilo Castelo Branco, cujas novelas reflectem, através de casos que são ou se querem autênticos, um mundo pré-liberal de raptos, fugas, adultérios, ligações ilegítimas, que explorando o gosto do público leitor, era, na intensidade trágica constantemente cortada de ironia e de sarcasmo, uma dupla sátira contra a ordem tradicional (que daquela desordem marginal se mantinha) e contra a própria respeitabilidade burguesa (identificando-se contraditoriamente com a ordem e a desordem da tradição). Muito mais complexo do que as suas calculadas hipocrisias e declamações sentimentais podem fazer supor, e mais estruturado do que a precipitação e a displicência que afecta, Camilo tem do amor um entendimento muito livre e profundo que transcende, pela sugestão do mórbido, do ilegítimo e da violência, os próprios lugares-comuns de que se aproveita (e a sua famosa prosa é capaz de ajustar-se subitamente à expressão de complicações sentimentais mais intimas do que as convicções lhe permitiam como escritor da burguesia leitora e de um público largamente feminino).

O bicentenário

Continua este ano a publicação da Edição Crítica da obra camiliana. O 14º volume é dedicado a O Romance dum Homem Rico, aquele que o autor considerava ser o seu melhor livro. Este trabalho desenvolvido por Ivo Castro, professor catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem trazido alguns dos romances menos conhecidos do autor como A Sereira - "Um belíssimo romance que não é dos mais lidos". Na verdade, apesar das centenas de livros escritos por Camilo, o Plano Nacional de Leitura contem quase exclusivamente versões de Amor de Perdição, O Retrato de Ricardina ou A Queda de um Anjo.

Para o escritor A. M. Pires Cabral, que foi organizador das Jornadas Camilianas, o ano de 2025 é de festa e uma ocasião para se comemorar a vida e a obra de Camilo Castelo Branco (1825--1890), mas, na sua opinião, era também "muito bom" se, em consequência do bicentenário, o Ministério da Educação desse um lugar de "mais relevo", nos programas escolas, à obra camiliana.

No próximo domingo, Vila Real associa-se às comemorações do bicentenário com a inauguração da exposição "Memória de Camilo na biblioteca de Vila Real" e o lançamento do livro Camilo por terras de Vila Real - antologia breve.

Ao longo do ano decorrerão outras iniciativas como o lançamento de um livro de Pires Cabral com textos que escreveu sobre Camilo Castelo Branco, serão recordadas as Jornadas Camilianas, realizados concursos literários e de caricaturas e a dramatização de textos camilianos.

O diretor do Centro de Estudos Camilianos, Sérgio Guimarães de Sousa, considera mesmo que "Camilo é tão valioso como um Machado de Assis, um Dante, um Shakespeare" e que é descendente de autores como Cervantes ou Rabelais. "Camilo é um descendente direto desse tipo de criadores livres. É um escritor indisciplinado, irreverente, incondicionalmente livre, que é como quem diz um autor que não segue um rumo fixo, linear, e que subverte os códigos de género", conclui.

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