Oito filmes e séries para (re)descobrir João Canijo (1957-2026)
No rescaldo da sua morte, estes são os títulos que ajudam a contar a história de um dos mais emblemáticos cineastas nacionais - alguns dos quais, disponíveis gratuitamente em streaming.
O cineasta português morreu esta quinta-feira, 29 de janeiro, com 68 anosSoeren Stache/picture alliance via Getty Images
Em 2004, aquando do lançamento de Noite Escura, João Canijo dizia que o grande tema do seu cinema era “a incapacidade do português de olhar para si e para o outro”. Não é claro que tenha mantido esta opinião até ao fim da vida, mas o eixo de pensamento ajudaria a explicar a sua fase tardia, mais bem sucedida, marcada pela angústia, a dificuldade e a dolorosa conformidade.
Nem sempre foi assim, no entanto: os seus primeiros filmes denotavam uma jovialidade libertina, ainda que trágica, que daria lugar a uma postura mais contemplativa que o levaria ao realismo social pelo qual se tornou icónico. Fique com oito filmes e séries que simbolizam um percurso de relações estreitas com atrizes icónicas, retratos dos mais desfavorecidos e reconhecimento internacional do cinema português.
Três Menos Eu (1987)
Pode não ser o seu melhor filme, mas a estreia do cineasta na longa-metragem, um triângulo amoroso entre Rita Blanco, Anne Gauthier e Pedro Hestnes, é consequente por vários motivos. Foi a primeira aposta do produtor Paulo Branco num jovem realizador cujos frutos iria transformar numa das mais marcantes carreiras do cinema português; ensaia a estética – uma imagem, gravada em 16mm, granulada e degradada, mas também mais visceral e autêntica – e a estrutura triangular da narrativa que empregaria em filmes subsequentes; e inaugura nos seus filmes as performances marcantes de Rita Blanco, com quem desenvolveria uma parceria de carreira. Filha da Mãe (1990), o seu próximo filme, com presença mais firme de Blanco, segue-lhe os passos de perto.
Alentejo Sem Lei (1991)
Por toda a troça que gerou nos anos subsequentes – foi parodiado pelos Gato Fedorento e as suas falas mais icónicas tornaram-se referências de conversa –, não há como negar que esta série de três episódios, com a premissa simples mas eficaz de situar um drama de ação do tipo western no Alentejo do século XIX, se tornou num fenómeno de culto, de tal forma que foram feitos videojogos em sua homenagem. Com música original de Manuel João Vieira, o elenco é bem recheado: Adriano Luz, Miguel Guilherme, Rogério Samora, Vítor Norte, Paulo Branco, Herman José, Maria Vieira e, é claro, Rita Blanco. A série está disponível para ver na íntegra na RTP Play, gratuitamente.
Ganhar a Vida (2001)
Canijo já tinha sido exibido em França, com algum sucesso, mas este foi o primeiro filme seu a estrear nos grandes palcos internacionais – o Festival de Cannes, na secção Un Certain Regard –0 e talvez aquele que estabeleceu Rita Blanco como uma grande atriz portuguesa de cinema. Blanco é Cidália, uma mãe portuguesa emigrada nos bairros sociais de Paris, que trabalha obstinadamente numa comunidade fechada sobre si própria e cuja vida é virada do avesso quando o seu filho mais velho é morto num tiroteio. Para muitos, inaugura uma nova fase da carreira de Canijo, em que o fulgor e excentricidade da juventude dão lugar à crueza trágica do realismo.
Noite Escura (2004)
Adaptação de um clássico autor grego Eurípedes ao interior rural português, é o encontro de Canijo com três outras atrizes que o acompanhariam ao longo da carreira, Beatriz Batarda, Anabela Moreira e Cleia Almeida. Enquanto que em Ifigénia em Áulide, Agamémnon oferece a filha, Ifigénia, como sacrifício aos deuses para garantir o sucesso no saque de Tróia, em Noite Escura a ação decorre num bordel gerido pela família Pinto – os pais, Fernando Luís e Rita Blanco, e as filhas, Beatriz Batarda e Cleia Almeida – em que o pai se envolve num negócio que corre mal e é obrigado a vender a filha mais nova.
Nas palavras do próprio realizador, é uma "reflexão sobre a capacidade de sacrifício e a possibilidade de sentimentos profundos sobreviverem no meio da mentira e da indiferença". Estreado no Festival de Cannes, foi escolhido como o candidato português ao Óscar, sendo premiado, por cá, com o Globo de Ouro de Melhor filme.
Sangue do Meu Sangue (2011)
É, para muitos, o melhor filme de Canijo, um marco do realismo social português que rendeu frutos muito além do corte de sala: uma versão de 190 minutos, uma minissérie da RTP e um documentário sobre o seu processo de criação. A vida difícil de Márcia e Ivete Fialho (Rita Blanco e Anabela Moreira), duas irmãs da classe trabalhadora, contrasta com a força do amor incondicional que nutrem pelos filhos de Márcia, uma estudante de enfermagem (Cleia Almeida) e um pequeno criminoso (Rafael Morais), que criaram com muita dificuldade no bairro camarário do Padre Cruz.
Uma história de amor, tragédia e superação envolta num drama social que capta o espírito do tempo no ano do resgate da Troika e da Geração à Rasca, foi agraciada com vários prémios no festival Caminhos do Cinema Português, e foi mais uma vez seleccionado pelo País para concorrer aos Óscares. Pode ser visto nas plataformas de streaming Filmin e HBO Max.
Fátima e Caminhos da Alma (2017)
O filme de Canijo sobre a peregrinação de um grupo de mulheres transmontanas a Fátima pode ser visto como apenas superficialmente sobre religião. Ela está lá, como porto de chegada, mas Fátima é muito mais sobre a penosa jornada a pé deste grupo, um road movie sem carros em que, à medida que são levadas ao limite pelo cansaço, vão surgindo à tona os problemas familiares destas mulheres – muitos deles motivações, pela fé ou pelo escape, para se porem à estrada. Com um elenco brilhante – Rita Blanco, Ana Bustorff, Cleia Almeida, Anabela Moreira, Sara Norte –, deu ainda origem a uma série de cinco episódios da RTP, Caminhos da Alma, que expande a caracterização e motivações destas personagens e que pode ser vista na íntegra, gratuitamente, na RTP Play.
Mal Viver (2023)
Obra-prima tardia da carreira de Canijo, pode-se argumentar que é inseparável de Viver Mal (2023), o outro lado do díptico que explora os dramas pessoais dos hóspedes de um hotel rural decadente e das pessoas que os servem. Mas foi em Mal Viver, do lado dos mais desafortunados, que Canijo encontrou o maior sucesso, vencendo um Prémio do Júri no Festival de Cinema de Berlim. Fê-lo ao explorar o intemporal drama das relações familiares entre três gerações que se sentem mutuamente incompreendidas: Sara (Rita Blanco), a sua filha, Piedade (Anabela Moreira) e a filha desta, Salomé (Madalena Almeida), cujo aparecimento vai despertar ressentimentos e mágoas adormecidas, bem como um rol de fortes papéis femininos.
A estrutura bifurcada de Mal Viver/Viver Mal, que podem ser vistos em qualquer ordem, tem seguimento nos dois últimos filmes deixados por João Canijo antes de morrer: Encenação, sobre uma companhia de teatro no processo de criação da sua última produção, e As Ucranianas, a peça dentro do filme. Ambos já rodados, noticia o Público. Quanto a Mal Viver, pode ser visto gratuitamente online, na plataforma de streaming e arquivo da RTP, a RTP Play. Já Viver Malpode ser visto na Filmin.
Hotel do Rio (2024)
Não é um acrescento ou um complemento, mas a "visão total dos dois filmes", disse Canijo em comunicado, "uma visão que não esconde nada e mostra coisas que não se podiam imaginar em cada um dos filmes". Uma expansão do universo de Mal Viver e Viver Mal, a versão em série, apesar de ter o mesmo elenco e trama, difere por ser apresentado em ordem cronológica, o que recontextualiza os dramas dos hóspedes e dos donos do hotel que compõem cada um dos filmes. Dividida em quatro episódios, pode ser vista na íntegra na RTP Play.