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Onde está o #MeToo? Cate Blanchett lamenta que tenha sido "morto rapidamente"

A atriz e protagonista de Tár falou no festival de Cannes, onde já havia protestado contra as assimetrias de género na indústria do cinema. Passados nove anos, o que se passa com o movimento?

Pedro Henrique Miranda 18 de maio de 2026 às 19:30
Cate Blanchett aborda o movimento #MeToo no festival de Cannes AP Photo/Andreea Alexandru

A atriz Cate Blanchett lamentou este domingo que o movimento #MeToo, iniciado em 2017 no seio de Hollywood, tenha sido "morto rapidamente" no seio da indústria do cinema. A declaração surgiu à margem do Festival de Cannes, que decorre em França até sábado, 23, e onde a atriz, conhecida pela postura interventiva, já havia protestado contra a assimetria entre homens e mulheres no cinema.

"Foi morto rapidamente, o que acho interessante", disse Blanchett, referindo-se ao clamor popular em torno do movimento. "Há muitas pessoas com plataformas que conseguem falar com relativa segurança, e dizer 'isto aconteceu comigo', e a mulher média na rua está a dizer 'me too'. Porque é que isso é reprimido?" rematou. 

"Ainda estou em locais de filmagem e faço a contagem todos os dias. Há 10 mulheres e 75 homens todas as manhãs", acrescentou, em aparente referência a 2018, quando foi presidente do júri do festival. Nesse ano, Blanchett integrou um momento de protesto na passadeira vermelha com 81 outras mulheres, representando o número de realizadoras selecionadas para o alinhamento da competição de Cannes ao longo de todas as edições, contra um total de 1866 homens -- mais de 22 vezes o número de nomeações femininas.

Nessa edição -- a primeira depois da eclosão do #MeToo, no ano anterior, em que a atriz Asia Argento subiu ao palco para declarar que também tinha sido violada por Harvey Weinstein --, o festival foi criticado por incluir apenas 3 filmes realizados por mulheres na sua seleção oficial, apenas um sexto dos 18 filmes realizados por homens a integrar a lista. Na altura, Blanchett defendeu o festival, dizendo que "a mudança não vai acontecer de um dia para o outro".

Um movimento em convulsão

Iniciado no final de 2017, o movimento surgiu na sequência de dezenas de acusações de abuso sexual e violação ao produtor Harvey Weinstein, fundador da Miramax e da Weinstein Company, que desencadearam uma onda de protestos e revelações que afetaram, entre outros, os executivos Les Moonves e Scott Rudin, os atores Kevin Spacey, James Franco e Armie Hammer ou os realizadores Brett Ratner, Bryan Singer e Luc Besson.

A onda de indignação rapidamente ultrapassou os limites de Hollywood, atingindo músicos como R. Kelly, Marilyn Manson ou Plácido Domingo, políticos como Andrew Cuomo ou Al Franken e o comediante Louis CK. Era o arranque de um novo paradigma cultural conhecido como cancel culture, ou cultura do cancelamento, que exortava o público a crer nas vítimas e ostracizar os acusados, enfatizando a responsabilização social dos agressores pelas suas ações. 

O movimento não tardou a gerar detratores, que apontaram o que viam como defeitos deste movimento de massas: a inversão do ónus da prova e da presunção de inocência, os problemas do julgamento em praça pública ou a inibição do discurso público. Os seus apoiantes, por outro lado, defendiam que uma verdadeira cultura do cancelamento (termo que ganhou conotações pejorativas) nunca chegou, realmente, a existir, já que a esmagadora maioria dos acusados não condenados criminalmente tiveram poucas ou nenhumas repercussões reais. 

As convulsões alteraram consideravelmente o panorama cultural em Hollywood, com a indústria a abraçar mais visivelmente filmes em torno das temáticas do assédio -- Bombshell: O Escândalo (2019), The Assistant (2019), Uma Miúda com Potencial (2020) ou A Voz das Mulheres (2022) -- e a adotar uma faceta de feminismo cristalizada no filme Barbie (2023), o êxito internacional de Greta Gerwig com Margot Robbie. Em simultâneo, no entanto, foi ganhando força uma vaga de filmes que questionava os preceitos tanto dos proponentes do #MeToo quanto dos seus opositores. 

Em 2022, a própria Blanchett protagonizou o aclamado Tár, de Todd Field, um filme que, ao passo que lidava diretamente com a temática do #MeToo -- a atriz interpreta Lydia Tár, uma célebre maestrina cuja vida e carreira são desmoronadas por acusações de assédio sexual --, assumia uma postura tida pelos críticos como ambígua, rejeitando a narrativa simplificada de vilão e vítima e problematizando as variáveis de género, poder e prova em torno de casos deste género.

O êxito do filme, e a sua canonização nos mais elevados altares de Hollywood -- recebeu seis nomeações nos Óscares desse ano, incluindo para Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Realizador -- era o testemunho de uma pedra no charco cultural, que teve réplicas em filmes como May December: Segredos de Um Escândalo (2023), de Todd Haynes, ou Depois da Caçada (2025), de Luca Guadagnino, que exploraram, de maneira semelhante, as nuances nas entrelinhas destes conflitos de poder.

A questão colocada por Cate Blanchett mantém-se, ainda assim, pertinente: se, passados nove anos, depois da reforma, contrarreforma e questionamento, as desigualdades persistem na indústria e na sociedade na qual ela é moldada, não terá o #MeToo morrido precocemente?

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