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Oito filmes e séries para (re)descobrir João Canijo (1957-2026)

No rescaldo da sua morte, estes são os títulos que ajudam a contar a história de um dos mais emblemáticos cineastas nacionais - alguns dos quais, disponíveis gratuitamente em streaming.

Pedro Henrique Miranda 30 de janeiro de 2026 às 17:11
João Canijo Soeren Stache/picture alliance via Getty Images
Em 2004, aquando do lançamento de Noite Escura, João Canijo dizia que o grande tema do seu cinema era “a incapacidade do português de olhar para si e para o outro”. Não é claro que tenha mantido esta opinião até ao fim da vida, mas o eixo de pensamento ajudaria a explicar a sua fase tardia, mais bem sucedida, marcada pela angústia, a dificuldade e a dolorosa conformidade. Nem sempre foi assim, no entanto: os seus primeiros filmes denotavam uma jovialidade libertina, ainda que trágica, que daria lugar a uma postura mais contemplativa que o levaria ao realismo social pelo qual se tornou icónico. Fique com oito filmes e séries que simbolizam um percurso de relações estreitas com atrizes icónicas, retratos dos mais desfavorecidos e reconhecimento internacional do cinema português.

Três Menos Eu (1987)

Pode não ser o seu melhor filme, mas a estreia do cineasta na longa-metragem, um triângulo amoroso entre Rita Blanco, Anne Gauthier e Pedro Hestnes, é consequente por vários motivos. Foi a primeira aposta do produtor Paulo Branco num jovem realizador cujos frutos iria transformar numa das mais marcantes carreiras do cinema português; ensaia a estética – uma imagem, gravada em 16mm, granulada e degradada, mas também mais visceral e autêntica – e a estrutura triangular da narrativa que empregaria em filmes subsequentes; e inaugura nos seus filmes as performances marcantes de Rita Blanco, com quem desenvolveria uma parceria de carreira. Filha da Mãe (1990), o seu próximo filme, com presença mais firme de Blanco, segue-lhe os passos de perto.  

Alentejo Sem Lei (1991)

Por toda a troça que gerou nos anos subsequentes – foi e as suas falas mais icónicas tornaram-se referências de conversa –, não há como negar que esta série de três episódios, com a premissa simples mas eficaz de situar um drama de ação do tipo western no Alentejo do século XIX, se tornou num fenómeno de culto, de tal forma que foram feitos . Com música original de Manuel João Vieira, o elenco é bem recheado: Adriano Luz, Miguel Guilherme, Rogério Samora, Vítor Norte, Paulo Branco, Herman José, Maria Vieira e, é claro, Rita Blanco. A série está disponível para ver na íntegra na , gratuitamente.

Ganhar a Vida (2001)

Canijo já tinha sido exibido em França, com algum sucesso, mas este foi o primeiro filme seu a estrear nos grandes palcos internacionais – o Festival de Cannes, na secção Un Certain Regard –0 e talvez aquele que estabeleceu Rita Blanco como uma grande atriz portuguesa de cinema. Blanco é Cidália, uma mãe portuguesa emigrada nos bairros sociais de Paris, que trabalha obstinadamente numa comunidade fechada sobre si própria e cuja vida é virada do avesso quando o seu filho mais velho é morto num tiroteio. Para muitos, inaugura uma nova fase da carreira de Canijo, em que o fulgor e excentricidade da juventude dão lugar à crueza trágica do realismo.

Noite Escura (2004)

Adaptação de um clássico autor grego Eurípedes ao interior rural português, é o encontro de Canijo com três outras atrizes que o acompanhariam ao longo da carreira, Beatriz Batarda, Anabela Moreira e Cleia Almeida. Enquanto que em Ifigénia em Áulide, Agamémnon oferece a filha, Ifigénia, como sacrifício aos deuses para garantir o sucesso no saque de Tróia, em Noite Escura a ação decorre num bordel gerido pela família Pinto – os pais, Fernando Luís e Rita Blanco, e as filhas, Beatriz Batarda e Cleia Almeida – em que o pai se envolve num negócio que corre mal e é obrigado a vender a filha mais nova. Nas palavras do próprio realizador, é uma "reflexão sobre a capacidade de sacrifício e a possibilidade de sentimentos profundos sobreviverem no meio da mentira e da indiferença". Estreado no Festival de Cannes, foi escolhido como o candidato português ao Óscar, sendo premiado, por cá, com o Globo de Ouro de Melhor filme.

Sangue do Meu Sangue (2011)

É, para muitos, o melhor filme de Canijo, um marco do realismo social português que rendeu frutos muito além do corte de sala: uma versão de 190 minutos, uma minissérie da RTP e um documentário sobre o seu processo de criação. A vida difícil de Márcia e Ivete Fialho (Rita Blanco e Anabela Moreira), duas irmãs da classe trabalhadora, contrasta com a força do amor incondicional que nutrem pelos filhos de Márcia, uma estudante de enfermagem (Cleia Almeida) e um pequeno criminoso (Rafael Morais), que criaram com muita dificuldade no bairro camarário do Padre Cruz. Uma história de amor, tragédia e superação envolta num drama social que capta o espírito do tempo no ano do resgate da Troika e da Geração à Rasca, foi agraciada com vários prémios no festival Caminhos do Cinema Português, e foi mais uma vez seleccionado pelo País para concorrer aos Óscares. Pode ser visto nas plataformas de streaming e .

Fátima e Caminhos da Alma (2017)

O filme de Canijo sobre a peregrinação de um grupo de mulheres transmontanas a Fátima pode ser visto como apenas superficialmente sobre religião. Ela está lá, como porto de chegada, mas Fátima é muito mais sobre a penosa jornada a pé deste grupo, um road movie sem carros em que, à medida que são levadas ao limite pelo cansaço, vão surgindo à tona os problemas familiares destas mulheres – muitos deles motivações, pela fé ou pelo escape, para se porem à estrada. Com um elenco brilhante – Rita Blanco, Ana Bustorff, Cleia Almeida, Anabela Moreira, Sara Norte –, deu ainda origem a uma série de cinco episódios da RTP, Caminhos da Alma, que expande a caracterização e motivações destas personagens e que pode ser vista na íntegra, gratuitamente, na .

Mal Viver (2023)

Obra-prima tardia da carreira de Canijo, pode-se argumentar que é inseparável de Viver Mal (2023), o outro lado do díptico que explora os dramas pessoais dos hóspedes de um hotel rural decadente e das pessoas que os servem. Mas foi em Mal Viver, do lado dos mais desafortunados, que Canijo encontrou o maior sucesso, vencendo um Prémio do Júri no Festival de Cinema de Berlim. Fê-lo ao explorar o intemporal drama das relações familiares entre três gerações que se sentem mutuamente incompreendidas: Sara (Rita Blanco), a sua filha, Piedade (Anabela Moreira) e a filha desta, Salomé (Madalena Almeida), cujo aparecimento vai despertar ressentimentos e mágoas adormecidas, bem como um rol de fortes papéis femininos. A estrutura bifurcada de Mal Viver/Viver Mal, que podem ser vistos em qualquer ordem, tem seguimento nos dois últimos filmes deixados por João Canijo antes de morrer: Encenação, sobre uma companhia de teatro no processo de criação da sua última produção, e As Ucranianas, a peça dentro do filme. Ambos já rodados, o Público. Quanto a Mal Viver, pode ser visto , na plataforma de streaming e arquivo da RTP, a RTP Play. Já Viver Mal .

Hotel do Rio (2024)

Não é um acrescento ou um complemento, mas a "visão total dos dois filmes", disse Canijo em comunicado, "uma visão que não esconde nada e mostra coisas que não se podiam imaginar em cada um dos filmes". Uma expansão do universo de Mal Viver e Viver Mal, a versão em série, apesar de ter o mesmo elenco e trama, difere por ser apresentado em ordem cronológica, o que recontextualiza os dramas dos hóspedes e dos donos do hotel que compõem cada um dos filmes. Dividida em quatro episódios, pode ser vista na íntegra na .
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