Faltavam três horas para a inauguração da sua última exposição e Manuel João Vieira ainda dava uns retoques a Banda-Desenhada. Composta por 18 desenhos a tinta da china sobre papel (com 20 metros de comprimento, iniciada em 2024) é, assim, a sua mais recente obra. E uma de um total de 50 que compõem “A ilha púrpura: notas e paisagens”, exposição de Manuel João Vieira que inaugurou esta segunda-feira no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa. Para ver até 7 de setembro.
Entre pintura, desenho e escultura se desenha a última exposição de Manuel João Vieira, um conjunto de obras selecionadas com a curadoria de João Pinharanda, a partir da coleção do próprio museu e dos ateliers de Manuel João Vieira. A exposição não foi pensada como uma retrospetiva, embora no seu conjunto integre obras concluídas na década de 80, como Corrente (1980) ou Pic-Nic (1984), ambas vindas da coleção do pintor. Mas a grande maioria das obras que compõem esta nova exposição são deste século.
“Uma característica engraçada deste trabalho é que não faz muito sentido estamos a olhar para ele a pensar que há uma evolução, que há um caminho”, começa por explicar o curador. A lógica, diz, é “figurativa e narrativa” e inclui elementos tão diversos como bonecos de banda-desenhada, deuses, faunos ou figuras literárias.
Alguns exemplos disso mesmo são claros em pinturas como Minnie e Mickey (2026), O Sono de Sansão (2024) ou O Regresso de Ulisses (2026). “O Manuel João alimenta-se desse universo de personagens míticas, literárias (a obra central é A Ilha dos Amores, datada de 2004), históricas, religiosas, que entram todas umas em diálogo umas com as outras e connosco”, explica João Pinharanda, destacando a “ideia de palco” que Vieira expressa nas suas obras. “Um sonho de infância dele é entrar dentro dos quadros”, revela o curador.
Nestas muitas paisagens, o artista plástico subverte convenções tradicionais, como a da perspetiva, misturando influências de várias épocas e correntes artísticas, do renascimento ao romantismo, passando pelo maneirismo, o barroco, o simbolismo, o dadaísmo ou mesmo o surrealismo, sem se enquadrar totalmente em qualquer um destes estilos.
Na verdade, foi com a banda-desenhada que Manuel João Vieira deu os primeiros passos. “Comecei a desenhar quando era pequeno e quando tinha 20 anos ainda queria fazer banda desenhada. Quando fui para as Belas-Artes [Lisboa] fiz uma data de pinturas e alguns desenhos que foram para a gaveta, até encontrar uma figura que me entusiasmou, ou que me pôs a pensar num estado mais ou menos cataléptico, e, a partir daí, comecei a orientar as coisas, e consegui perceber que tinha algum interesse em fazer pintura e separar o texto das imagens”, explicou o artista aos jornalistas presentes na visita de imprensa. Mas a ligação com a BD tem acompanhado a sua obra. Manuel João dá um exemplo de um dos quadros mais “antigos” que tem na exposição: uma “paisagem rochosa”, presente na obra Corrente, um ambiente inspirado no álbum O Segredo de Espadão, de Blake & Mortimer, quando “os heróis são abandonados no meio de uma paisagem granítica e estranha”, recorda. “Ainda gostava de fazer uma bandeira desenhada gigante”, confessa.
As obras revelam forte influência da infância, de referências culturais e artísticas (como Tintoretto - num dos auto-retratos em exposição é evidente - ou temas mitológicos), criando cenas com um tom simbólico e “dionisíaco”. A exposição foi organizada a partir de uma pintura central (A Ilha dos Amores) instalada numa larga parede curva (e por isso sem moldura), optando-se por apresentar muitas obras juntas, sobrepostas, à semelhança dos antigos museus. Um conjunto expositivo assemelha-se, por exemplo, a um retábulo, com dez pinturas semi encavalitadas.
Escultura e política
Nem só de pintura a óleo vive a exposição. Há dois conjuntos escultóricos também em destaque. De um lado, quatro esculturas de esferovite, assinadas pelo seu pseudónimo Orgasmo Carlos: Totem, Burro em pé, O bebé marciano e o Pato cubista, todas de 2005, que faziam parte do ambiente de uma performance.
E de outro, a instalação O atelier de Lenine (2020) em relação com a escultura Salazauro rubro (2021). A primeira, diz Manuel João Vieira, representa o local “onde Lenine fabricou a sua arte política, digamos assim, o internacionalismo proletário”. “Aquele comboio dá a volta ao mundo e é uma reflexão um bocado acerca da política e da ligação entre o nosso ditador, que também é um cão fiel, que olha soberanamente para o mundo bolchevista”, descreve o artista. Pinharanda acrescenta: “Eu desafiei-o a fazer mais três salazauros, porque isto só lá vai com três salazauros”.
Já que estávamos a entrar em terreno político, a SÁBADO pediu a Manuel João Vieira que falasse sobre a ligação entre a sua arte e a sua vida política, no papel do popular Candidato Vieira, um dos seus muitos alter-egos, somando-se aos musicais. “Existe um interesse por aqueles tiques políticos, pelos discursos políticos, pelos discursos muitos deles absurdos dos políticos. Há um exagero nesse próprio discurso, mas não sou a primeira pessoa que faz isso, o Coluche [comediante francês] fazia, várias pessoas fizeram. Mas o que me interessa também é o lado performativo da coisa, criar um personagem que é responsável por essa performance e que não sou eu. Uma coisa aliás que me acontece quando faço música - por exemplo com os Ena Pá 2000 - é encarnar um personagem mais ou menos abjeto. E eu acho que sem esse personagem não conseguia estar a cantar aquelas músicas em público”.