Sábado – Pense por si

Manuel João Vieira leva universos míticos e políticos ao MAAT

Entre pintura, desenho e escultura, o artista apresenta no MAAT a exposição “A ilha púrpura: notas e paisagens”, uma reunião de cerca de 50 obras onde convivem mitologia, banda desenhada, política e história da arte.

Capa da Sábado Edição 12 a 18 de maio
Leia a revista
Em versão ePaper
Ler agora
Edição de 12 a 18 de maio
Renata Lima Lobo 18 de maio de 2026 às 23:16
Manuel João Vieira junto ao seu “O atelier de Lenine” (2020)
As esculturas de Orgasmo Carlos (2005)
Mais um
O Martírio de São Sebastião (2004),  de Manuel João Vieira
Retábulo com várias pinturas a óleo, de Manuel João Vieira
Manuel João Vieira junto ao seu “O atelier de Lenine” (2020)
As esculturas de Orgasmo Carlos (2005)
"Salazauro rubro" (2021), de Manuel João Vieira
"O Atelier de Lenine" (2020), de Manuel João Vieira
"Auto-Retrato" (2026) de Manuel João Vieira
Mais um "Auto-Retrato" (2026),  de Manuel João Vieira
O Martírio de São Sebastião (2004),  de Manuel João Vieira
Retábulo com várias pinturas a óleo, de Manuel João Vieira

Faltavam três horas para a inauguração da sua última exposição e Manuel João Vieira ainda dava uns retoques a Banda-Desenhada. Composta por 18 desenhos a tinta da china sobre papel (com 20 metros de comprimento, iniciada em 2024) é, assim, a sua mais recente obra. E uma de um total de 50 que compõem “A ilha púrpura: notas e paisagens”, exposição de Manuel João Vieira que inaugurou esta segunda-feira no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa. Para ver até 7 de setembro.

Entre pintura, desenho e escultura se desenha a última exposição de Manuel João Vieira, um conjunto de obras selecionadas com a curadoria de João Pinharanda, a partir da coleção do próprio museu e dos ateliers de Manuel João Vieira. A exposição não foi pensada como uma retrospetiva, embora no seu conjunto integre obras concluídas na década de 80, como Corrente (1980) ou Pic-Nic (1984), ambas vindas da coleção do pintor. Mas a grande maioria das obras que compõem esta nova exposição são deste século.

“Uma característica engraçada deste trabalho é que não faz muito sentido estamos a olhar para ele a pensar que há uma evolução, que há um caminho”, começa por explicar o curador. A lógica, diz, é “figurativa e narrativa” e inclui elementos tão diversos como bonecos de banda-desenhada, deuses, faunos ou figuras literárias.

Manuel João Vieira a terminar
Manuel João Vieira a terminar 'Banda Desenhada'

Alguns exemplos disso mesmo são claros em pinturas como Minnie e Mickey (2026), O Sono de Sansão (2024) ou O Regresso de Ulisses (2026). “O Manuel João alimenta-se desse universo de personagens míticas, literárias (a obra central é A Ilha dos Amores, datada de 2004), históricas, religiosas, que entram todas umas em diálogo umas com as outras e connosco”, explica João Pinharanda, destacando a “ideia de palco” que Vieira expressa nas suas obras. “Um sonho de infância dele é entrar dentro dos quadros”, revela o curador.

Nestas muitas paisagens, o artista plástico subverte convenções tradicionais, como a da perspetiva, misturando influências de várias épocas e correntes artísticas, do renascimento ao romantismo, passando pelo maneirismo, o barroco, o simbolismo, o dadaísmo ou mesmo o surrealismo, sem se enquadrar totalmente em qualquer um destes estilos.

Na verdade, foi com a banda-desenhada que Manuel João Vieira deu os primeiros passos. “Comecei a desenhar quando era pequeno e quando tinha 20 anos ainda queria fazer banda desenhada. Quando fui para as Belas-Artes [Lisboa] fiz uma data de pinturas e alguns desenhos que foram para a gaveta, até encontrar uma figura que me entusiasmou, ou que me pôs a pensar num estado mais ou menos cataléptico, e, a partir daí, comecei a orientar as coisas, e consegui perceber que tinha algum interesse em fazer pintura e separar o texto das imagens”, explicou o artista aos jornalistas presentes na visita de imprensa. Mas a ligação com a BD tem acompanhado a sua obra. Manuel João dá um exemplo de um dos quadros mais “antigos” que tem na exposição: uma “paisagem rochosa”, presente na obra Corrente, um ambiente inspirado no álbum O Segredo de Espadão, de Blake & Mortimer, quando “os heróis são abandonados no meio de uma paisagem granítica e estranha”, recorda. “Ainda gostava de fazer uma bandeira desenhada gigante”, confessa.

As obras revelam forte influência da infância, de referências culturais e artísticas (como Tintoretto - num dos auto-retratos em exposição é evidente - ou temas mitológicos), criando cenas com um tom simbólico e “dionisíaco”. A exposição foi organizada a partir de uma pintura central (A Ilha dos Amores) instalada numa larga parede curva (e por isso sem moldura), optando-se por apresentar muitas obras juntas, sobrepostas, à semelhança dos antigos museus. Um conjunto expositivo assemelha-se, por exemplo, a um retábulo, com dez pinturas semi encavalitadas.

Escultura e política

Nem só de pintura a óleo vive a exposição. Há dois conjuntos escultóricos também em destaque. De um lado, quatro esculturas de esferovite, assinadas pelo seu pseudónimo Orgasmo Carlos: Totem, Burro em pé, O bebé marciano e o Pato cubista, todas de 2005, que faziam parte do ambiente de uma performance.

E de outro, a instalação O atelier de Lenine (2020) em relação com a escultura Salazauro rubro (2021). A primeira, diz Manuel João Vieira, representa o local “onde Lenine fabricou a sua arte política, digamos assim, o internacionalismo proletário”. “Aquele comboio dá a volta ao mundo e é uma reflexão um bocado acerca da política e da ligação entre o nosso ditador, que também é um cão fiel, que olha soberanamente para o mundo bolchevista”, descreve o artista. Pinharanda acrescenta: “Eu desafiei-o a fazer mais três salazauros, porque isto só lá vai com três salazauros”.

Manuel João Vieira enfrenta o
Manuel João Vieira enfrenta o 'Salazauro rubro'

Já que estávamos a entrar em terreno político, a SÁBADO pediu a Manuel João Vieira que falasse sobre a ligação entre a sua arte e a sua vida política, no papel do popular Candidato Vieira, um dos seus muitos alter-egos, somando-se aos musicais. “Existe um interesse por aqueles tiques políticos, pelos discursos políticos, pelos discursos muitos deles absurdos dos políticos. Há um exagero nesse próprio discurso, mas não sou a primeira pessoa que faz isso, o Coluche [comediante francês] fazia, várias pessoas fizeram. Mas o que me interessa também é o lado performativo da coisa, criar um personagem que é responsável por essa performance e que não sou eu. Uma coisa aliás que me acontece quando faço música - por exemplo com os Ena Pá 2000 - é encarnar um personagem mais ou menos abjeto. E eu acho que sem esse personagem não conseguia estar a cantar aquelas músicas em público”.

Artigos Relacionados
A Newsletter SÁBADO Edição Manhã no seu e-mail
Tudo o que precisa de saber sobre o que está a acontecer em Portugal e no mundo. Enviada de segunda a domingo às 10h30