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Habitação: cineasta Miguel Gomes quer filmar acampadas e utilizar imagens no seu próximo filme

O realizador de "Tabu" e "Grand Tour" já enviou à Câmara de Lisboa um "pedido urgente de autorização de rodagem". Produtora explica: intuito é utilizar "imagens de resiliência".

Gonçalo Correia 02 de novembro de 2026 às 15:18
Valery HACHE / AFP

O realizador português Miguel Gomes e a produtora de cinema Uma Pedra no Sapato avançaram com "um pedido urgente de autorização de rodagem" à Câmara Municipal de Lisboa para "filmar as acampadas que decorrem no Rossio, em Lisboa". A informação é avançada pela produtora, em nota enviada à comunicação social, e o intuito é integrar as imagens dos protestos que têm decorrido na cidade - à semelhante do que acontece no Porto - em Selvajaria, próximo filme do cineasta de Aquele Querido Mês de Agosto (2008), Tabu (2012), As Mil e Uma Noites (2015) e Grand Tour (2024), entre outras longas-metragens.

Selvajaria foi filmado em grande medida no Brasil "e deverá estar concluído na primavera de 2027", lê-se no comunicado, que lembra ainda que a película "parte de uma adaptação livre da obra-prima Os Sertões, de Euclides da Cunha". O livro, originalmente publicado em 1902, "dá conta da obscura guerra que teve lugar na Bahia no ano de 1897" e coloca os sertanejos, liderados pelo profeta Antônio Conselheiro "em finais do século XIX", cercados por "milhares de soldados do exército da jovem república brasileira." O objetivo dos militares "é o de capturar o líder religioso e dissolver a comunidade hostil ao novo regime".

O aprofundamento da sinopse permite perceber as teias implícitas na relação entre a obra Os Sertões e as acampadas recentes em Portugal: "A guerra dura há vários meses, os soldados não contavam com a resiliência dos locais nem com o aspeto inóspito do lugar. Sofrem, passam fome e adotam os hábitos do inimigo para também eles tentarem sobreviver. Mas a chegada de reforços e mantimentos altera a perspetiva dos militares. Chegou a altura para nova batalha, um ataque generalizado ao bastião dos revoltosos."

Sobre esses pontos de contacto, a responsável da produtora Uma Pedra no Sapato, Filipa Reis, afirma, citada na nota oficial: "Selvajaria revela-nos o poder da luta e da resistência, quando o poder autoritário quer impor a sua visão sobre os valores que devem reger a sociedade, quando não há abertura para expressar opiniões ou contestar as leis que são implementadas. O que temos assistido em Lisboa e no Porto, com manifestações pacíficas de milhares de pessoas em prol de um direito básico e constitucional, como é o da habitação, faz com que queiramos também integrar estas imagens de resiliência no nosso filme.”

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