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Realizador Miguel Gomes conta ter filme "Selvajaria" pronto na primavera

"O filme está todo filmado", disse o cineasta português sobre "Selvajaria", que parte do livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha.

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Lusa 30 de outubro de 2026 às 16:34
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O cineasta Miguel Gomes vai estrear o seu próximo filme em 2027
O cineasta Miguel Gomes vai estrear o seu próximo filme em 2027 Valery HACHE / AFP

O cineasta Miguel Gomes disse esta sexta-feira que as filmagens do seu próximo filme, "Selvajaria", estão terminadas e que a montagem deverá estar pronta na primavera de 2027.

Questionado pela agência Lusa sobre "Selvajaria", que demorou quase 11 anos a ser realizado devido à interrupção pela pandemia de covid-19 e pelo impacto do período da presidência de Jair Bolsonaro no Brasil, como o próprio realizador explicou, Miguel Gomes declarou que não faltava nenhum dia de filmagem.

"Falta zero dias de filmagem, o filme está todo filmado. [...] Desde a vontade, o desejo inicial de fazer um filme, até este momento já passaram dez anos, mais de dez anos, talvez 11, portanto, foi um processo muito longo. Houve três [rodagens neste filme]. Mas a terceira já foi concluída, que foi a rodagem principal, que foi concluída agora, no mês passado, no Brasil, no estado da Bahia", contou Miguel Gomes, acerca do filme que parte do livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha.

Miguel Gomes acrescentou que "Selvajaria" está "no processo de montagem", esperando que a obra esteja terminada na próxima primavera, como disse aos jornalistas à margem de uma conferência de imprensa na Fundação de Serralves, no Porto, sobre a primeira exposição sobre a sua cinematografia, que é esta sexta-feira inaugurada na Casa do Cinema Manoel de Oliveira.

Miguel Gomes contou que o sítio onde filmou, em Canudos, era "muito pobre" e "um pouco isolado", no interior do estado da Bahia, tendo sido um "prazer imenso" trabalhar com aquela população, que passou a admirar ainda mais.

"Eu filmei no Brasil, mas filmei especificamente numa terra chamada Canudos, que é no interior do estado da Bahia, numa zona muito pobre e um pouco isolada, onde ocorreu uma guerra no final do século XIX. [...] O Brasil é um país imenso e ali era uma realidade muito específica, que tem um trauma, porque viveu uma guerra civil", contou o cineasta.

A Guerra de Canudos teve lugar entre 1896 e 1897 e foi relatada pelo jornalista Euclides da Cunha para o jornal Estado de São Paulo, tendo publicado em 1902 o livro intitulado "Os Sertões", misturando vários géneros literários.

Miguel Gomes contou que há mais de 100 anos um profeta entrou em Canudos, instalou-se naquele lugar e pregava contra as leis da República, pedindo às pessoas para não pagarem impostos e não obedecerem às leis da República.

"Nessa altura, o Governo brasileiro decidiu enviar militares e foi o início de uma guerra, houve uma resistência que não era esperada [...]. A realidade com que eu contactei tem muito a ver com esse momento e com qualquer coisa que terá a ver com sequelas do colonialismo. E com a história do Brasil, que é uma população completamente isolada daquilo que era a realidade em São Paulo", afirmou o realizador português.

Miguel Gomes acrescentou: "Politicamente é uma região muito marcada. Por exemplo, nestas eleições acho que teve 90% de votação no PT [Partido Trabalhista, de Lula da Silva] e 10% no [Flávio] Bolsonaro. E isso tem a ver com a cultura daquela região, é assim no Nordeste, essa divisão. O Brasil está partido a meio neste momento. Mas foi com esses que eu falei. Eu acho que muitos deles nem sequer têm noção da história do colonialismo".

"Selvajaria", ainda assim, não é uma adaptação de um romance, com histórias com protagonistas, explicou o realizador.

"Houve um momento em que quase desisti do filme", confessou Miguel Gomes, admitindo que só depois de ter sido premiado em Cannes com "Grand Tour", com o galardão de melhor realizador, é que voltou a pegar nele.

"Tive aquela sorte de ter tido um prémio em Cannes com o 'Grande Tour' e nessa altura percebi que talvez fosse o momento de regressar a este filme, ao 'Selvajaria', que seria mais fácil financiá-lo, as condições políticas já eram diferentes, e portanto, foi o meu primeiro pensamento após ganhar esse prémio, foi: 'quero regressar a Canudos, ao Brasil'", contou.

Questionado sobre o que o levou a interessar-se pela história de Canudos, o cineasta justificou com o livro: "Li o livro e achei que era um dos melhores livros que eu conheço escritos em língua portuguesa. Eu acho que tomei essa decisão após ter lido umas 20 páginas do livro. Nem sequer sabia no que é que me estava a meter. Acho que fui completamente irresponsável".

A Casa do Cinema Manoel de Oliveira inaugura esta sexta-feira a exposição dedicada ao trabalho de Miguel Gomes, que fica patente até 30 de maio de 2027.

A exposição revela, além de excertos das longas e curtas-metragens do cineasta, as metodologias que o artista usou para desenvolver as suas obras cinematográficas, como por exemplo artigos de jornais.

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