Entrevista
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Paulo Flores: "Em cada batida celebramos uma tristeza"

Paulo Flores cansou-se de cantar músicas alegres: no seu novo disco, Independência, em que reflete sobre o estado de Angola 45 anos depois, prefere celebrar a triste cadência que só o seu país tem.

No dia 11 de novembro de 2020, celebraram-se os 45 anos da independência de Angola sobre Portugal. A ocasião seria de festa para muitos angolanos, mas Paulo Flores canalizou a efeméride num disco que busca o oposto da celebração irrefreada - a reflexão.
Fê-lo, em Independência, editado a 30 de abril, através de canções que refletem a "venda da memória de um país" (Heróis da Foto), homenageiam "a luta das mulheres africanas" (Si Bu Sta Dianti na Luta, do poeta guineense José Carlos Schwarz), ou ironizam o "jeito alegre de chorar dos angolanos" (Esse País) - tudo isso enquanto faz avançar o género da semba.

Porquê fazer um disco sobre a independência angolana?
Vim para Lisboa com 2 ou 3 anos, com a minha mãe, e vivi entre dois mundos: Portugal era o ocidental, e Angola era o outro lado do Muro de Berlim, com o bloco soviético, o partido único, esse lado de propaganda que guardo nas minhas memórias. São todas essas histórias mal contadas, e a lembrança dos meus heróis, que me fizeram refletir sobre estes 45 anos de independência. Como canto: "Que é feito do homem novo que traria um novo dia, se afinal quem ganha a guerra e conta a história é que é o herói?" Talvez seja como dar a última voz àquelas vozes todas que se calaram.

É um disco político?
No início estranhei um pouco, porque a minha intenção não é derrubar políticos, ou mudar governos. Para mim isto não é política, é amor ao que eu sinto, aos meus e aos meus princípios. Mas não há como não ser político, porque tudo o que eu sinto tornou-se, devido ao contexto atual, político. Todas as metamorfoses por que Angola passou foram tornando essa independência em dependências, desde a guerra financeira ao ataque feroz que hoje é feito aos que tentam sobreviver. Em Angola, em cada batida celebramos uma tristeza, em cada semba uma perda, e às vezes é nessa unidade que se encontra a tal nação que até hoje procuramos.

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