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A outra face do arquipélago

Os prémios chegam todos os anos. Entre destino de aventura, destino sustentável, destino europeu de excelência. Porém, o mais interessante é o que não está no reconhecimento, mas em tudo o que ele pode deixar de fora.

GettyImages
03 junho 2026 11:13

Praticamente toda a gente conhece os Açores antes mesmo de chegar. A Lagoa das Setes Cidades vista dos miradouros, o cozido das Furnas enterrado com o vapor a subir ao abrir da tampa, golfinhos que emergem a metros de um barco enquanto os passageiros levantam o telemóvel para a fotografia. É uma versão verdadeira, mas trata-se da superfície de um arquipélago que tem outras camadas por baixo.

São Jorge, por exemplo, não perdoa a pressa. No Grupo Central, é a ilha que mais resiste à visita rápida. As encostas caem a pique sobre o Atlântico. Entre a rocha e a água existem as fajãs, plataformas criadas por desabamentos sísmicos. A Fajã da Caldeira de Santo Cristo formou-se num colapso de 1757. Hoje, a lagoa é reserva natural e produz a amêijoa da Caldeira: espécie endémica, de textura carnuda e conhecida localmente como uma raridade que não existe noutra parte do país. Chegar exige trilho a pé pela encosta. As coxas ficam a saber bem disso no dia seguinte.

Na costa sul da mesma ilha, a Fajã dos Vimes foi o berço do café da família Nunes, produzido de forma artesanal e servido no próprio Café Nunes, numa chávena simples sem marca nenhuma. O processo é manual, do cultivo à torra e, ao lado, a Casa de Artesanato Nunes, que tece tapetes com uma paciência que contrasta com a pressa lá de fora.

A montanha mais alta de Portugal

No Pico, a montanha mais alta de Portugal não se anuncia, está simplesmente lá, a 2.351 metros. A paisagem vitícola em redor é Património da UNESCO desde 2004: os currais, labirintos de pedra basáltica negra, foram construídos ao longo de séculos para reter o calor das videiras e proteger do vento atlântico. Subir o Pico começa com curiosidade e termina com os pulmões a negociar cada passo acima dos 1.500 metros. A vista do topo, quando o nevoeiro abre pela primeira vez, justifica toda a antecipação.

Vinhas na ilha do Pico
Vinhas na ilha do Pico

A oeste, nas Flores, a ilha mais húmida de todo o arquipélago, o trilho entre Lajedo, Fajãzinha e Fajã Grande passa por rocha negra e quedas de água. O cheiro a musgo e a terra molhada é tão espesso que quase se mastiga. Santa Maria, por sua vez, é o oposto absoluto, seca e calcária. O Barreiro da Faneca, ou “Deserto Vermelho dos Açores”, que o diga. O nome pode parecer, mas não é exagerado. Esta maravilha geológica abre-se em argila vermelha numa cratera que não combina com nenhuma das outras oito ilhas, como se alguém tivesse colado um bocado do Alentejo a meio do oceano sem pedir licença.

Os Açores não escondem nada. Quem chega com três dias marcados vê o que cabe em três dias marcados. O resto fica sempre para quem fica mais tempo, pergunta, desvia e aceita os sapatos molhados: esse vai ver o resto. E, honestamente, vale a viagem.

Geoturismo: entrar no interior das ilhas

Há algo que os Açores têm e que nenhum outro destino europeu consegue imitar, o chão move-se. Não no sentido figurativo, não como metáfora turística. Ferve, expele vapor, muda de cor, ergue ilhas novas do oceano. O que se vê à superfície, as lagoas, as fajãs, as montanhas, é a parte visível de um sistema geológico ativo.

Em São Miguel, as Furnas são um bom exemplo. As caldeiras a ferver a temperaturas que permitem cozinhar dentro da terra e o cozido que dali sai é uma curiosidade gastronómica e uma consequência da geologia. Mais acima, a Lagoa do Fogo revela uma cratera quase intacta, onde se percebe a escala dos fenómenos vulcânicos.

Santa Maria é a exceção que confirma o conjunto. Mais antiga do que as outras, com solos vermelhos no Barreiro da Faneca e fósseis marinhos na Pedreira do Campo, mostra um passado diferente das restantes ilhas.

Na Terceira, destaque-se o Algar do Carvão e as Furnas do Enxofre, que libertam vapor constante. O cheiro a enxofre avisa antes de se ver. A Gruta das Torres, no Pico, com mais de cinco quilómetros, é o maior túnel de lava de Portugal e mostra o percurso da lava solidificada

No Faial, os Capelinhos são a erupção de 1957 ainda à vista, uma extensão de terra criada do nada, onde a ilha parece não ter terminado de se formar.

O geoturismo nos Açores é uma forma de perceber que estas ilhas não são estáticas, estão em construção. E em muitos casos, visitar implica descer, entrar ou aproximar-se o suficiente para ver aquilo que normalmente fica escondido.

Campos entre o mar e a montanha

Difíceis de imitar  são também os campos de golfe açorianos, com os deus fairways, lagos e bunkers com uma paisagem única composta por falésias, cristas vulcânicas e oceano infinito.   

A grande vantagem reside na sua exclusividade e equilíbrio. O clima temperado permite jogar em qualquer estação, longe da pressão das grandes multidões dos destinos tradicionais. Esta baixa densidade de jogadores traduz-se num ambiente em que a modalidade convive pacificamente com o turismo ativo, permitindo conciliar uma manhã no campo com uma tarde de trilhos ou observação de cetáceos.

Neste contexto, a marca Azores Golf Islands, por exemplo, reúne três campos de referência: Batalha e Furnas, em São Miguel, e o Clube de Golfe da Ilha Terceira. Cada um tem carácter próprio. O Batalha, com 27 buracos e vista sobre a costa norte, combina exigência técnica com um panorama oceânico que entra no jogo. O Furnas, desenhado em 1936 e expandido para 18 buracos, preserva um estilo britânico rigoroso, fairways ondulados, greens de leitura difícil e uma floresta de criptomérias. O Açoriano da Terceira herdou o campo dos militares americanos da Base das Lajes e oferece, no buraco 18, um par 3 protegido por lagoa, com a Baía de Angra do Heroísmo, Património Mundial da UNESCO, como cenário de jogo.

Para quem procura “golfe de destino”, os Açores oferecem o luxo do silêncio e o desafio de uma modalidade que respeita a força da paisagem atlântica.

Caldeira Velha, São Miguel
Caldeira Velha, São Miguel

Ferro, lava e sal

No que a banhos diz respeito, na Ponta da Ferraria, encontra-se o mais singular de São Miguel. Estas termas naturais juntam o frio do Atlântico com o calor vulcânico no mesmo banho. Com maré baixa, a temperatura sobe do fundo rochoso e a laje negra cria tanques naturais onde o choque térmico se sente na primeira braçada. Nas Furnas, também em São Miguel, as termas são diferentes. Ferro, lodo e cheiro a enxofre que fica na pele durante horas. A Caldeira Velha tem quatro poças de água férrea com fumarola ativa ao lado. O Terra Nostra é o clássico e fica próximo, com a água amarela de ferro e o jardim botânico que envolve tudo.

Para quem procura praia, Santa Maria quebra a regra dos Açores. Enquanto o resto do arquipélago entrega basalto negro e praias de calhau, na Praia Formosa encontra-se areia clara, águas límpidas e pouco profundas.

Também há piscinas, que não foram construídas, mas abertas pelo mar ao longo de séculos no basalto. Nos Biscoitos, na Terceira, a água entra e sai sozinha com a maré. Os bordos cortam os pés de quem não tem cuidado. Em São Jorge, a Poça Simão Dias fica encostada à escarpa, acessível por caminho de terra sem sinalização. Vale cada passo.

Um verão de fé, tradições e foguetes

Além das praias e piscinas naturais, as festas também animam os meses de calor nos Açores.

Comecemos pelas Sanjoaninas, que começam a 19 e terminam a 28 de junho. São consideradas as maiores festas profanas do arquipélago, realizam-se em Angra do Heroísmo, a capital da Terceira, e celebram os 50 anos da Autonomia com o tema “Angra e a Açorianidade”. Desfiles temáticos, música, tauromaquia, gastronomia… nada falta nestas icónicas festividades.

Julho é do Pico. Nas Festas da Madalena, a fé é um ritual oleado, carrinhas param para a bênção ao meio-dia, filarmónicas desfilam, procissão une mar e praia ao santo padroeiro. Existe também o Império da Terça-feira, irmandade do Espírito Santo que distribui milhares de rosquilhas de mão em mão e colhe uvas das vinhas para oferecer ao santo. Começa a 17 e termina a 22 julho.

Nas Lajes das Flores, a Festa do Emigrante (17 a 20 de julho) comemora o regresso anual dos que partiram há 40 anos para Canadá, EUA ou Rhode Island e se reúnem em missas, concertos e bodo comunitário de caldo de peixe.

Agosto é porto e mar. A Semana do Mar na Horta (31 julho a 9 agosto) junta velejadores que cruzam o Atlântico com barcos tradicionais de caça à baleia. Santa Maria planta rock na Maré de Agosto (19 a 22 agosto), onde a Praia Formosa vira acampamento até o mar engolir o som. Neste mês, festas como o PDL White Ocean 2026 ou o Festival MEO Monte Verde também animam a ilha.

Nas festas açorianas, não há turista que passe sem ser puxado para o meio, é o sentimento de pertença que conta.