Em Ponta
Delgada há um hotel e restaurante que recebe como quem conhece o nome de toda a
gente. Num tempo em que a hotelaria avança com ecrãs de check-in e ementas
plastificadas, esta casa ainda faz uma coisa rara: privilegia pessoas. E isso,
hoje, é uma diferença de mercado. Pedro Melo, gestor do Alcides, di-lo sem
rodeios: “O digital existe. Mas não substitui o contacto humano.” Ignorar o
digital é comprometer o futuro, no entanto, descaracterizar o Alcides seria uma
“total perda de identidade”. É nesse meio-termo que a casa procura novos
alicerces sem abdicar do calor humano que diz ser a sua marca desde sempre.
A cozinha
começa antes do fogão. O Alcides consome cerca de 4,5 toneladas de carne por
ano, em que 83% tem origem açoriana. Porém, este é um número que diz mais do
que parece. É uma escolha financeira e ideológica com impacto direto nas
margens de lucro. Num mercado globalizado onde a carne de importação esmaga os
preços, o restaurante assume o custo da autenticidade. O investimento direto na
economia da ilha reflete-se no prato e na qualidade indiscutível do produto que
o cliente local e o visitante reconhecem.
A ementa é curta de propósito. “Estamos cada vez mais focados na sazonalidade e
nos recursos existentes nos Açores”, explica Pedro Melo. Portanto, quem se
senta à mesa come o que está na época, o que vem de perto e o que a cozinha
conhece de cor. Há menos escolha, mas há mais razão para voltar.
Não tenta
parecer novo. Tenta ser bom
Fundado em
1908, o Alcides chegou ao presente sem se converter em peça de museu. A
modernização existe. Mas faz-se em silêncio, com pequenas mudanças, contínuas,
que mantêm a casa reconhecível sem a congelar no passado. É essa contenção que
torna o Alcides credível. Não tenta parecer novo. Tenta ser bom. Há uma
diferença enorme entre as duas coisas.
A
Hospitalidade Açoriana tem aqui tradução prática. Não é um slogan, mas sim uma
forma de receber. Uma experiência singular, com amabilidade, com calor humano,
com “amor açoriano”, como a própria casa define. Significa não tratar hóspedes
como números e fugir ao modelo em que tudo é igual em todo o lado, preservando
também uma relação com a cidade que os hotéis de cadeia não conseguem
reproduzir.
Fora da
cozinha, a casa também age. A Bolsa Académica Alcides apoia alunos de
enfermagem e gestão e nasceu como tributo à mãe do gestor, que “além de ter
sido professora, tinha uma enorme propensão para ajudar os mais carenciados”,
recorda Pedro Melo. E isso dá-lhe outra densidade: a formação como gesto de
retorno à comunidade
O horizonte
é claro e sem concessões. A casa quer chegar a 2050 sendo disruptiva, corajosa
e arrojada. Não para impressionar, mas para sobreviver. E para continuar a ser,
em Ponta Delgada, o sítio onde se come bem, se dorme bem e se é tratado como
gente.
Há poucas
razões para não ir aos Açores. E agora há mais uma para ir ao Alcides.
Ementa
sazonal, reduzida e com qualidade
O bife
Alcides é o chamariz do restaurante, mas ementa, sazonal e reduzida mas com muita
qualidade, contempla outros “pratos”, como as bochechas de porco guisadas, língua de vaca
estufada, rabo-de-boi guisado, alcatra regional, moreia frita, chicharros
recheados ou abrótea cozida.