Na pequena freguesia de Lanhas, em Vila Verde, há mãos
marcadas por décadas de vida no meio rural que descobriram uma nova missão.
Entre hortas, oficinas de barro, pinturas tradicionais e trabalhos artesanais,
os mais velhos voltam a sentir-se úteis ao transmitir saberes aprendidos ao
longo da vida.
À sua volta, jovens com deficiência cognitiva e pessoas com
doença mental escutam, experimentam, aprendem e fazem. Uns ensinam a plantar, a
moldar o barro ou a pintar os tradicionais lenços dos namorados. Outros
descobrem capacidades que nunca imaginaram ter. E, no meio desta troca de
saberes entre gerações, nasce algo maior do que um simples projeto social:
nasce confiança, autonomia e um renovado sentido de pertença.
É este o espírito do projeto TREVO – Tratar, Revitalizar,
Empoderar e Viver Origens, desenvolvido pelo Centro Social do Vale do Homem,
distinguido com uma Menção Honrosa na categoria Ambiental e Social dos prémios
de sustentabilidade SME EnterPRIZE, uma iniciativa da Generali Tranquilidade.
Fundada em 2006, a instituição emprega cerca de 250
colaboradores e atua em seis concelhos do distrito de Braga. Ao longo dos anos,
foi alargando respostas sociais nas áreas do envelhecimento, infância,
deficiência, saúde mental e inclusão, com valências como apoio domiciliário,
estruturas residenciais, creche, respostas para Alzheimer e projetos de
autonomização. Foi desta convivência entre diferentes gerações e públicos que
nasceu o TREVO. “Os nossos seniores são os mentores dos nossos jovens”, resume
Zélia Lopes, diretora de Serviços da instituição. “São eles que ensinam a
cultivar, a cuidar dos animais, a trabalhar o barro ou a pintar. Muitas vezes,
sentem-se professores, e isso é muito importante para eles”, afirma. A ideia
surgiu da vontade de unir dois mundos: idosos que precisavam de estímulo e
valorização e jovens com deficiência que necessitavam de formação e integração
social.
A resposta apareceu naturalmente no ambiente rural que
rodeia a instituição. “Percebemos que tínhamos todas as condições para um
projeto de inclusão intergeracional único: os utentes, o espaço, as tradições e
o conhecimento. Então decidimos avançar”, explica Zélia Lopes. No fundo, o
projeto funciona como um espaço de ecoeducação e inclusão social. Os idosos
transmitem conhecimentos ligados à agricultura, aos animais e aos ofícios
tradicionais da região. Já os jovens aprendem tarefas práticas, desenvolvem autonomia
e ganham ferramentas que poderão facilitar uma futura integração profissional.
Dos lenços ao barro e ao vime
Em Vila Verde, os famosos lenços dos namorados fazem parte
da identidade cultural da região, tal como o trabalho em barro e o vime. Essas
tradições foram integradas nos ateliers da instituição. “Considerámos importante divulgar as tradições da zona em que estamos inseridos. Os nossos
jovens trabalham nos ateliers de pintura dos lenços dos namorados, no
barro e noutras atividades artesanais que fazem parte da nossa cultura”, conta
a responsável. Assim, o projeto ajuda também a preservar memórias e saberes que
corriam o risco de desaparecer. “Os nossos idosos vêm maioritariamente do meio
rural. Eles têm este know-how e gostam de o partilhar”, sublinha.
O reconhecimento trazido pelo prémio trouxe uma nova
visibilidade ao TREVO. “Isto teve um impacto muito positivo. O projeto deixou
de ser uma coisa pequenina e passou a ser conhecido fora da nossa zona”, afirma
Zélia Lopes. Porque, ao contrário de outros programas sociais inspirados em
modelos já existentes, o TREVO nasceu de raiz dentro da instituição. “Não
replicámos nenhum projeto. Este surgiu mesmo das nossas necessidades e da
realidade que temos aqui”, explica.
Refira-se que o próximo passo já está em marcha e passa por
desenvolver uma marca própria chamada Amarte, que permitirá divulgar e vender online
os trabalhos produzidos nos ateliers.
Percebemos que tínhamos todas as condições para um projeto de inclusão intergeracional único.
Zélia Lopes, Diretora de serviços do centro social do vale do homem