Repara, contudo, que os turistas não deixam de acorrer ao local da tragédia: "No sítio onde o elétrico bateu, os tiram fotos e selfies a toda a hora." A maioria dos hóspedes do hotel onde trabalha pergunta-lhe, com frequência, sobre o acidente. "Porque isto teve repercussões internacionais e questionam onde foi, como foi, quantas pessoas morreram."
2Circulação na rua baixou
Na perpendicular à Calçada da Glória, virando na primeira à direita, chegamos à Rua da Glória. Está praticamente vazia. Um ou outro turista caminha, de mapa na mão ou empurrando o trólei. Os restaurantes típicos e étnicos, com ementas bilingues à porta, não têm movimento, apesar de se aproximar a hora de almoço. Já passa do meio-dia.
Michele Bono, siciliano de 63 anos, traz Itália para a mesa com um restaurante acolhedor, o Piazza Sicilia-Osteria, onde serve pratos difíceis de confecionar em casa, rodeado de mobiliário vintage comprado em Sintra, como aquelas cristaleiras art déco que nos fazem recuar um século. Nota que a circulação na rua baixou, desde a tragédia.
Às autoridades, o chef pede mais rapidez no processo, a bem do transporte para moradores, turistas e comerciantes. Não entende a demora de a nova instalação só chegar em 2029, de acordo com o que a Carris anunciou a 31 de agosto. "Os meus clientes são portugueses, a maioria são
estrangeiros residentes, mas seguramente se passava um turista e via o
restaurante e gostava, ia marcar. O negócio baixou", lamenta.
3A 20 metros da tragédia
Naquela tarde de 3 de setembro de 2025, pelas 18h03, quando ocorreu o descarrilamento pela rotura do cabo de tração, Michele estava no restaurante. Dois colaboradores saíram do local e, por escasso tempo, escaparam à tragédia. "Subiram 30 segundos depois do impacto. A rua ficou fechada."
Quem também escapou ileso foi António Silva, veterano da Rua da Glória. Trabalha há 18 anos numa loja de ferragens, uma das poucas antigas que ainda sobrevivem, e recorda à SÁBADO que a época de manutenção do Elevador da Glória costumava ser no Verão e demorava um mês – ainda que não tivesse modificações significativas desde janeiro de 1986.
No dia da fatalidade, António saiu do estabelecimento, como habitualmente, às 18h. Caminhava em direcção ao local do acidente, quando ouviu um estrondo e recuou. Estava a 20 metros do local. "Parecia uma bomba. Assustei-me e voltei para trás. Se o elevador não ficasse ali entalado, levava o outro que estava lá em baixo parado e cheio de turistas. Seriam muitos mais do que 16 mortos", diz. Em casa, acompanhou a situação pelos noticiários.