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Urbanista diz que trotinetes tornaram-se alvo a abater num Portugal ainda dominado pelo carro

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Numa altura em que vários municípios estão a terminar os serviços partilhados nos seus territórios, citando, entre outras, questões de segurança.

O urbanista Frederico Moura e Sá considerou esta sexta-feira, à Lusa, que as trotinetes se tornaram um "inimigo a abater" nos municípios portugueses, que ainda têm um "ambiente urbano profundamente motorizado" em que o "modelo de cidade" continua por alterar.

Trotinetes
Trotinetes Cofina Media

"Eu acho que o desafio maior é nós lermos isto sempre de forma muito setorial. Vamos discutir as trotinetes? Não, não vamos. Não estamos a discutir trotinetes, estamos a discutir que espaço público é que nós temos numa cidade, ou seja, nós temos de discutir que modelo de cidade é que queremos", defendeu o também professor universitário e investigador na área do urbanismo.

Neste contexto, em que as cidades portuguesas têm um "ambiente urbano profundamente motorizado", "a trotinete transforma-se no inimigo a abater", numa altura em que vários municípios estão a terminar os serviços partilhados nos seus territórios, citando, entre outras, questões de segurança.

Para Frederico Moura e Sá, "a bicicleta e a trotinete não são inimigos" do espaço urbano, pondo a tónica da segurança, precisamente, em quem utiliza modos suaves para se deslocar.

"Andar de bicicleta e andar de trotinete num espaço público é ainda um ato de sobrevivência" em Portugal, refere, notando que a perceção da responsabilidade dos acidentes de viação cai amiúde sobre a vítima e não sobre o carro, normalmente presente em sinistros com consequências mais gravosas.

O país também está "a tardar em inverter o programa de espaço público que outras cidades já fizeram com grande sucesso", em que as "áreas centrais" bem servidas por transportes públicos são mais restritas ao carro, considera.

Para o académico sediado no Porto, "a pergunta que fica é: porque é que um ciclista utiliza o passeio? Porque é que uma trotinete utiliza o passeio? Porque o ambiente urbano das nossas cidades em Portugal é, de facto, de um espaço público profundamente motorizado", em que é "inseguro andar na faixa de rodagem", onde "impera a lei do mais forte", o automóvel.

"Basicamente, nós temos uma sociedade que é hipermotorizada. De forma genérica, três em cada quatro deslocações são feitas de carro. Isso significa que nós normalizamos a utilização do carro. O espaço público é para o carro, ponto final, parágrafo", ilustra.

Para "quebrar este ciclo", definido pela autora norte-americana Jane Jacobs como "retroalimentação positiva" - "quanto mais espaço eu der ao carro, mais carros existirão e, em consequência, mais espaço eu tenho que afetar ao carro" - só mesmo "invertendo o programa" e "reconcebendo o modelo de cidade".

"Nós estamos absolutamente viciados em que o espaço público tenha uma função que é a mobilidade. A primeira alteração que nós temos que introduzir é que a principal função dos espaços públicos é a interação social, não é a mobilidade", apesar de se continuarem "a conceber ruas como se fossem estradas e canais que só servem para uma coisa: circular".

Para o urbanista, "uma rua e uma estrada não podem ser iguais", salientando a diferença entre modelos de cidade em que, por exemplo, "as crianças possam ir a pé para a escola sozinhas" ou em que "têm que ir obrigatoriamente com os pais de carro até à porta da escola", ou em que "pessoas de idade podem sair à rua sozinhas ou não podem, porque o único espaço que têm para utilizar é o passeio, que é cada vez mais exíguo, descontínuo, e agora ainda leva com uma bicicleta ou trotinete em cima".

Questionado sobre a remoção das trotinetes em vários municípios, a maioria com novos autarcas eleitos nas eleições de 2025, além de contestar o foco num só meio, considerou que "é uma resposta de curto prazo àquilo que a maioria exige".

"Mas a política de cidades não se deve fazer em função só nessa perspetiva eleitoralista e populista. A política de cidades deve ter o desígnio de melhorar a cidade", para a qual se devem lançar "desígnios coletivos" com "processos de participação" em que até se pode "não estabelecer uma solução de consenso", mas sim de "compromisso".

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