Sábado – Pense por si

Maria Henrique Espada
Maria Henrique Espada
03 de março de 2026 às 23:00

Sócrates deve rir-se ao espelho

Choque político com o comportamento de José Sócrates? Não se vê. Poder e oposição, partidos em geral e protagonistas em particular não têm um discurso, uma posição, sobre o mais extraordinário caso judicial deste século em Portugal.

Primeiro, foram os recursos para tribunais superiores, que, diz a mais recente contabilidade, chegaram aos 134, o que, se a categoria constasse do Guinness, dariam recorde. Ao longo deste verdadeiro festim recursivo, só muito tarde a justiça arranjou forma de contrariar a questão. Tinham passado anos. Podemos criticar a justiça, claro, lenta, a ser anos a fio ridicularizada em recursos. Mas pelo menos reagiu. Mas as leis que permitiram a Sócrates este comportamento foram feitas e são mantidas pela classe política. E, embora a comunicação social e o comentariado nacional nunca tivessem deixado de dar atenção a Sócrates, nunca a classe política, o PS no governo primeiro, o PSD desde há dois anos, se lembrou de, sim, comentar, sim, criticar e sim, agir, no sentido de evitar o carrossel, como foi batizado, de recursos. A justificação de que para o PS o tema é tóxico percebe-se mas não se aceita: o tema é demasiado importante para ser tabu em política. E também se percebe, mas não se aceita, que ‘não se legisla sobre casos concretos’, não só porque o dito caso concreto tem 11 anos (fica-se 11 anos inibido de refletir, agir, mudar?), mas também porque está a deixar de ser um ‘caso concreto’, passou a tratado abrangente sobre as muitas falhas garantísticas do sistema. Perante um caso que mostra que o sistema de justiça vai nu, o que fazem os partidos de poder? Fingem não ver a nudez. Nada têm a dizer sobre ela, muito menos agir.

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