Deixem-nos respirar
Henry Nowak tornou-se mártir precisamente porque tentaram silenciá-lo.
Há imagens que ficam para sempre agarradas à nossa consciência colectiva. Não por aquilo que mostram apenas, mas pelo incómodo moral que provocam. Pelo desconforto. Pelo contorcimento interno.
As imagens de Henry Nowak, lívido, branco pela perda do próprio sangue que lhe escorria do corpo, prostrado no chão, algemado por polícias claramente fora do seu estado racional, após cinco profundas facadas, provocaram-me exactamente a mesma sensação que, há cinco anos, me haviam provocado os intermináveis minutos de asfixia de George Floyd, subjugado ao joelho de um polícia em Minneapolis.
“I can’t breathe”.
Duas frases iguais. Dois homens diferentes. Dois contextos diferentes. Duas sociedades igualmente "doentes".
Mas há uma diferença essencial.
O mundo inteiro soube de George Floyd praticamente em tempo real. O planeta indignou-se. Houve protestos, manifestações, revoltas, oportunismos, vandalismo, aproveitamento político e um gigantesco movimento mediático global.
Já Henry Nowak morreu quase em silêncio.
Não soubemos do seu assassinato no momento em que aconteceu. Soube-se seis longos meses depois. Seis meses. Meio ano de silêncio desconfortável. Um manto pesado, cúmplice, constrangido.
E isso diz muito sobre a Inglaterra de hoje. Sobre a Europa. Sobre o mundo ocidental.
Porque não foram apenas os polícias que ocorreram ao local, após o repugnante telefonema do irmão do assassino, clamando por justiça por um inexistente “crime racista”, que se revelaram toldados pela histeria racial contemporânea. Ignorando um rapaz esfaqueado que morreria segundos depois, enquanto perguntavam, condoídos, ao homicida se o sobrolho avermelhado lhe estava a doer.
Não. Também a comunicação social. Também a classe política. Também parte da sociedade civil. Todos reféns daquele estranho terror moral contemporâneo: o medo absoluto de ofender determinadas minorias, mesmo perante a evidência brutal dos factos.
A isto chamam alguns “Two Tier Policing”. Polícia a duas velocidades. Justiça emocionalmente condicionada. Critério diferente conforme a origem, a etnia, a narrativa útil.
E talvez o mais assustador seja perceber que isto deixou de ser teoria conspirativa de pub inglês para passar a ser visível, quase caricatural.
Uma sociedade inteira envenenada pelo politicamente correcto.
Uma sociedade onde até o Metro de Londres, uma instituição centenária, resolveu submeter-se à novilíngua neutra e asseptizada dos anúncios “inclusivos”, abolindo expressões tradicionais para não melindrar susceptibilidades identitárias. O eterno, ou assim o julgávamos, e puramente britânico Ladies and Gentlemen transformado num pouco polido Hello Everyone para não ferir meia dúzia de hipersusceptíveis.
Parece uma paródia. Mas não é.
E pior: depois de Rotherham, depois de milhares de jovens britânicas abusadas sexualmente durante anos por redes organizadas de origem paquistanesa, com autoridades locais, polícia e serviços sociais claramente constrangidos pelo medo de serem acusados de racismo caso atuassem, alguém ainda tem dúvidas de que esta doença cultural existe?
O problema do politicamente correto é este: começa por querer evitar injustiças e acaba frequentemente a impedir a verdade e a causar, paradoxalmente, outras injustiças.
Também em Portugal temos exemplos desconfortáveis.
A morte de Bruno Candé foi trágica. Fútil. Absolutamente irreparável. Um homem perdeu a vida. Uma família ficou destruída.
Mas o colectivo de juízes foi taxativo: não havia dúvidas de que Candé foi morto por ser negro. Essa seria a motivação central do crime.
Será assim tão simples?
Ignora-se, muitas vezes, um historial antigo de conflitos absurdos entre o octogenário assassino e Bruno Candé por causa da cadela deste último. E qualquer pessoa minimamente honesta intelectualmente sabe que dezenas de homicídios entre vizinhos começam exatamente da mesma forma: canos de água, barulho, lugares de estacionamento, muros, árvores, cães, heranças, galinhas, música alta ou discussões de trânsito.
Portugal inteiro conhece histórias destas.
Claro que o assassino utilizou insultos raciais. Repugnantes. Indefensáveis.
Mas isso basta automaticamente para transformar toda a motivação do crime numa questão racial?
Se o vizinho fosse obeso, o agressor provavelmente chamá-lo-ia “gordo”, “balofo” ou coisa pior. Passaria então o homicídio a ser motivado por “fat shaming”? Se fosse homossexual? Se fosse cigano? Se fosse rico? Ou benfiquista numa aldeia sportinguista?
O insulto usado no auge do ódio corresponde necessariamente ao verdadeiro núcleo psicológico do conflito?
Não sei.
E ao contrário dos fanáticos contemporâneos, das militâncias irrepreensíveis, tenho cada vez menos certezas absolutas.
Porque há casos onde o racismo é claríssimo, inequívoco, indesmentível. Alcindo Monteiro, assassinado faz precisamente 31 anos neste 10 de Junho, é um desses exemplos evidentes. Tal como vários outros crimes de ódio reais, concretos, objetivos.
Mas talvez seja perigoso, e intelectualmente preguiçoso, transformar automaticamente toda a violência interracial numa narrativa exclusivamente racial. Narrativa essa que será, e aí tenho poucas dúvidas, também evidentemente racista.
Até porque a consequência social disto está à vista.
Uma multiculturalidade mal gerida, sem integração séria, sem exigência mútua, sem assimilação mínima de valores comuns, está a produzir sociedades desconfiadas, fragmentadas e permanentemente inflamáveis.
E paradoxalmente, quanto mais as autoridades tentam esconder problemas para não alimentar movimentos radicais, mais os alimentam.
Henry Nowak tornou-se mártir precisamente porque tentaram silenciá-lo.
Tal como muitos britânicos comuns começaram a desconfiar das instituições não por serem racistas, mas porque sentem que há temas onde a verdade deixou de poder ser dita integralmente.
Até no futebol isto já se percebe.
O caso Vinícius Júnior e Gianluca Prestianni mostrou como a acusação de racismo se tornou simultaneamente arma de ataque, escudo defensivo e mecanismo instantâneo de pressão pública. A acusação inicial era racial. Afinal, o que existiu foi um insulto homofóbico. Grave na mesma. Mas diferente. Porém, bastou a suspeita racial para parar jogos, abrir processos, incendiar redes sociais e mobilizar estruturas internacionais. Pior: gente responsável a bradar pela inversão do ónus da prova. Como se Vinicius, que já foi comprovadamente vítima de racismo, não acumulasse desde então um anormal rácio de alegados ataques racistas, sem paralelo, e sem lógica, mesmo no excêntrico mundo da bola.
Porque hoje a palavra “racismo” funciona quase como um botão nuclear moral.
Tudo paralisa, treme e condiciona.
E isso, mais cedo ou mais tarde, acabará inevitavelmente por banalizar até os verdadeiros casos de racismo.
No fundo, George Floyd e Henry Nowak acabam unidos por algo profundamente perturbador: ambos morreram em sociedades incapazes de respirar normalmente.
Uma sufocada pelo racismo estrutural e pela brutalidade policial.
Outra sufocada pelo medo patológico de parecer racista.
E talvez o mais inquietante seja perceber que ambas podem coexistir ao mesmo tempo.
“I can’t breathe”.
Talvez seja altura de deixar respirar as nossas sociedades antes que impludam de vez.
Deixem-nos respirar
Henry Nowak tornou-se mártir precisamente porque tentaram silenciá-lo.
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