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Tiago Freitas Analista em Assuntos Europeus
22.08.2026

A última fuga de Cabul

(Ou quando o capitalismo obriga à democracia)

Há imagens que sobrevivem aos acontecimentos. A de um helicóptero a retirar pessoas do telhado de um edifício em Saigão, em abril de 1975, tornou-se durante quase meio século o símbolo maior de uma derrota americana.

Até Cabul.

Passaram cinco anos desde aquele agosto de 2021 em que vimos pessoas agarradas a aviões, multidões desesperadas no aeroporto e, finalmente, o último militar americano a abandonar o Afeganistão.

Foi um dos momentos mais baixos da hegemonia americana e, por arrasto, da própria NATO. Provavelmente o mais baixo.

Saigão, vista à distância de cinquenta anos, quase parece hoje uma saída pela porta principal.

Convém repartir responsabilidades. A retirada não nasceu com Joe Biden. Nasceu do desastroso Acordo de Doha, assinado pela Administração Trump com os Talibãs em fevereiro de 2020, praticamente à margem do próprio Governo afegão. Washington estabeleceu um calendário de saída e ofereceu aos Talibãs aquilo de que mais necessitavam: a certeza de que bastava esperar.

Descobriu-se então, pasme-se , uma nova categoria político-religiosa: uns, supostamente fofinhos, " Talibãs - Moderados. Um verdadeiro oxímoro geopolítico, uma contradição de termos, semelhante a um machista-gaybombeiro-pirómanoabstémio-alcoólico ou comunista-democrata. 

A realidade pós-Doha tratou de resolver a dúvida: regressados ao poder, os supostos "moderados" voltaram a impedir as raparigas de estudar, afastaram as mulheres de grande parte da vida pública e restauraram a sua interpretação radical da Sharia. Afinal, a moderação dos Talibãs existia sobretudo nas salas climatizadas dos hotéis de Doha onde se negociava com eles.

Mas se Trump assinou o infame acordo,  Biden, que tomou posse em janeiro de 2021, teve meses para avaliar os seus termos, perceber as suas consequências e alterar o caminho. Não o fez.

E havia uma realidade pouco compatível com a narrativa doméstica da chamada "guerra eterna": quando Biden chegou à Casa Branca estavam no Afeganistão apenas cerca de 2.500 militares americanos, o menor contingente desde 2001. Mais importante ainda, boa parte do verdadeiro cordão umbilical que sustentava o Estado afegão já nem era propriamente militar. Era logístico.

Havia milhares de contratantes que asseguravam manutenção, peças, software e apoio à força aérea afegã. Quando essa estrutura desapareceu, desapareceram também os helicópteros no ar, a capacidade de reabastecimento, a informação e, sobretudo, a convicção dos militares afegãos de que ainda valia a pena combater.

É curioso, aliás, o conceito de "guerra eterna".

Vinte anos no Afeganistão pareceram uma eternidade. Os Estados Unidos estão militarmente presentes no Japão há mais de oitenta e na Coreia do Sul há mais de setenta. Mantêm dezenas de milhares de militares nos dois países. E vale a pena recordar que as duas Coreias continuam, formalmente, sem um tratado de paz que tenha encerrado a guerra iniciada em 1950.

A diferença é que ninguém chama a isso uma guerra eterna.

No Afeganistão, porém, 2.500 homens passaram a representar uma intolerável eternidade americana.

O resultado conhecemo-lo.

Mais de 2.400 militares americanos mortos, mais de mil militares aliados, dezenas de milhares de soldados, polícias e civis afegãos mortos e um custo americano estimado em mais de dois biliões de dólares. Tudo terminou com os Talibãs novamente em Cabul.

Mas a maior derrota talvez nem se meça em mortos ou dólares.

Mede-se na esperança.

Na menina que entrou numa escola porque acreditou que poderia ser médica. Na jovem que foi para a universidade. Na mulher que começou a trabalhar, a circular livremente e a imaginar uma vida diferente daquela que lhe estava destinada no Afeganistão dos anos 90.

Cinco anos depois, as raparigas voltaram a estar afastadas do ensino secundário e superior e as mulheres excluídas de grande parte da vida económica e pública. As Nações Unidas continuam a identificar essas restrições como um dos maiores obstáculos à recuperação e reintegração internacional do país.

Foi também isso que caiu de um avião naquele agosto.

Há, porém, uma ironia histórica interessante.

Cinco anos depois de expulsarem os americanos, são os próprios Talibãs que lhes pedem para regressar.

Não com soldados. Com diplomatas e dinheiro.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Amir Khan Muttaqi, convidou recentemente Washington a reabrir a embaixada em Cabul e os americanos a investirem nas minas, barragens e estradas do país. Diz que o "capítulo da guerra" terminou e que pretende iniciar outro, baseado no relacionamento económico.

Talvez aqui exista uma oportunidade.

Não para esquecer o que são os Talibãs. Muito menos para aceitar como normal um regime que impede metade da população de estudar ou participar plenamente na sociedade.

Mas para experimentar aquilo que as armas não conseguiram: criar interesses.

O capitalismo é suficientemente criticado para dispensar propaganda. Mas possui uma característica extraordinariamente útil: cria dependências. Para haver investimento é necessário haver bancos. Para haver bancos é necessária previsibilidade. Para explorar minas são necessários engenheiros, tecnologia, estradas, energia, seguros, contratos e segurança jurídica. Para atrair quadros internacionais é preciso abrir o país. E para manter capital é preciso deixar de assustá-lo.

Veja-se, com todas as diferenças, o que aconteceu no Golfo.

Mohammed bin Salman está longe de ser um democrata liberal. O assassinato de Jamal Khashoggi permanecerá associado ao regime saudita. Mas seria intelectualmente desonesto ignorar a transformação ocorrida na Arábia Saudita.

Há pouco mais de uma década as mulheres não podiam conduzir, os cinemas estavam proibidos e a polícia religiosa possuía uma capacidade de intervenção quotidiana hoje difícil de imaginar. A abertura económica não trouxe democracia. Trouxe, porém, cinemas, concertos, turismo, mulheres ao volante, maior participação feminina na economia e uma sociedade incomparavelmente mais aberta. Até Ronaldo e Georgina contribuíram para essa abertura e para ganhos indiscutíveis de direitos civis.

Nos Emirados, Dubai e Abu Dhabi perceberam ainda mais cedo que não poderiam ser apenas petróleo. Construíram centros financeiros, turísticos e empresariais globais e, com eles, uma sociedade muito mais aberta ao exterior e à convivência religiosa.

O Qatar seguiu outro caminho, usando gás, investimento, universidades, desporto e diplomacia para adquirir uma influência internacional absolutamente desproporcionada face à sua dimensão. É, aliás, Doha que há anos serve de ponte entre os Talibãs e o Ocidente.

Nenhum destes países se transformou numa democracia ocidental.

Mas negar a sua transformação, negar que se tornaram arejados para visitar, viver ou investir, é deitar areia para os olhos.

A história fornece exemplos ainda mais interessantes. Coreia do Sul e Taiwan passaram de regimes autoritários para democracias consolidadas à medida que enriqueceram, criaram classes médias, empresas, universidades e cidadãos economicamente autónomos. Espanha, Portugal ou Chile fizeram, com circunstâncias muito diferentes, percursos onde desenvolvimento económico, abertura externa e transformação política acabaram por se encontrar. Pinochet criou os Chicago Boys, e estes mostraram ao general que só poderia aplicar a doutrina que aprenderam se o seu regime ficasse. 

Não existe determinismo. A China demonstra precisamente que é possível a existência de 2 sistemas, autoridade de Estado e Abertura económica, mas é apenas a exceção que confirma a regra, vinda precisamente de um país/civilização com características únicas.

De regresso ao Afeganistão existe, porém, uma pergunta que vale a pena fazer.

Se vinte anos de guerra, mais de dois biliões de dólares e milhares de mortos não conseguiram transformar definitivamente o Afeganistão, poderá a necessidade de vender cobre, lítio, energia e acesso a mercados conseguir abrir pequenas brechas onde os F-16 não conseguiram?

Provavelmente. 

É indisputável que os mesmos Talibãs que há cinco anos celebravam a expulsão dos americanos hoje lhes pedem investimento.

É uma extraordinária ironia da História.

Talvez o próximo combate pelo futuro das meninas afegãs não tenha de ser travado com soldados americanos em Cabul.

Talvez possa começar com engenheiros, empresas, contratos, bancos, diplomatas e uma condição muito simples: para entrar no mercado global, o Afeganistão terá também de abrir algumas das portas que fechou em agosto de 2021.

Seria uma forma inesperada de dar algum sentido à esperança que deixámos para trás naquele aeroporto.

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