Pensar o futuro
No século XXI, se as democracias não conseguem ser mais rápidas a acompanhar acontecimentos e mudanças, então têm de ser mais inteligentes para antecipar e preparar-se para o que pode estar para vir.
Visto de Bruxelas, a União Europeia e os 27 devem apostar mais no desenvolvimento e consolidação de um modelo de ‘democracia antecipatória’ que articule aspetos estruturantes das democracias, incluindo eleições e alternância de poder, com um pensamento de longo prazo, para melhor preparar os futuros que aí vêm. No século XXI, se as democracias não conseguem ser mais rápidas a acompanhar acontecimentos e mudanças, então têm de ser mais inteligentes para antecipar e preparar-se para o que pode estar para vir. Para os europeus, pensar e preparar o futuro deixou de ser um luxo. É uma necessidade.
Permacrise e prospetiva
Na «era da permacrise», caracterizada por elevados níveis de incerteza, fragilidade e imprevisibilidade, em que tensões e crises parecem seguir-se umas às outras, governos e instituições precisam de ter maior capacidade de antecipação estratégica, preparação e meios para agir — em vez de reagir — face a potenciais vicissitudes. Como disse em 2016 um ex-governante italiano, Enrico Giovannini, os europeus precisavam de passar «da “gestão de crises” à governação prospetiva» para enfrentar o mundo que aí vinha.
Ora, no primeiro quartel do século XXI tem-se assistido a um crescimento muito importante do uso da ‘prospetiva estratégica,’ uma disciplina prática de análise de futuros, na elaboração de políticas públicas e no planeamento. Apesar de não ser uma atividade nova, as sucessivas crises que afetaram a Europa e o mundo neste período — a crise económica e financeira espoletada pela queda do banco Lehman Brothers, a Primavera Árabe, o Brexit, a pandemia de COVID-19 e a guerra de agressão russa contra a Ucrânia — aumentaram a procura de instrumentos que possam dar maior robustez às estratégias e planos de entidades públicas (e também privadas).
A globalização, apesar de contestada por alguns, faz com que sejamos afetados por eventos que acontecem a milhares de quilómetros de distância (a COVID-19 é um exemplo paradigmático). Riscos geopolíticos, a emergência de um padrão de interdependência competitiva que acentua vulnerabilidades económicas e dependências estratégicas entre países e blocos, bem como a aceleração da revolução tecnológica e digital, com um potencial transformador sem precedentes, sublinham a necessidade de construir economias, sociedades e instituições mais ágeis e resilientes para lidar com potenciais problemas futuros.
União Europeia
Na União Europeia (UE) e em muitos dos seus países, incluindo Portugal, o interesse pela prospetiva cresceu significativamente desde que a Comissão Europeia nomeou, pela primeira vez, um vice-presidente responsável por esta área, em 2019. Desde então, multiplicou-se o debate sobre o tema, assim como a criação de unidades de prospetiva estratégica que sustentam a elaboração de políticas e apoiam o processo de tomada de decisão de governos na UE, apesar de alguns países europeus terem uma tradição já antiga nestas atividades, como é o caso da Finlândia. Pelo mundo fora abundam outros exemplos de utilização de abordagens deste tipo e do aumento do interesse pela atividade, como é o caso de Singapura.
O ensaio
O objetivo do ensaio que acabo de publicar com a Fundação Francisco Manuel dos Santos é introduzir o tema da ‘prospetiva estratégica,’ debruçando-me brevemente sobre as suas origens e contextualizando a sua atual relevância. Além disso, explico o que é (e o que não é) esta disciplina, para que serve, o seu potencial impacto e como é utilizada especialmente no setor público, incluindo algumas das metodologias mais frequentes: a análise de tendências, os cenários, a exploração de horizontes, o visionamento (visioning, em inglês), entre outras.
Neste contexto, é importante refletir não só sobre o enquadramento institucional em que estas atividades podem ter mais êxito, mas também sobre alguns dos obstáculos mais comuns enfrentados por quem aplica estas metodologias no setor público. No ensaio, debruço-me igualmente sobre determinadas funções e atores principais associados à prospetiva — os produtores, os consumidores e os tradutores —, sobre horizontes temporais para lidar com a incerteza de forma mais sistemática, sobre técnicas complementares aos métodos prospetivos e, finalmente, concluo com uma apresentação do que se pode chamar a ‘zoologia’ da prospetiva estratégica.
Aproveitando a frequente analogia entre viagem e estudos de futuro, o texto assume depois a forma de um périplo prospetivo — pela Europa, pelo mundo e, finalmente, por Portugal —, e apresenta exemplos da utilização desta abordagem na elaboração de políticas públicas, examinando aspetos fundamentais que se prendem com os modelos de integração destas práticas nos casos analisados, com as metodologias usadas, o conteúdo dos estudos prospetivos e o impacto de alguns deles. Ou seja, centro-me principalmente no «onde», no «como» e no «quê» da aplicação da prospetiva estratégica.
O convite aos leitores
Aqueles que têm acompanhado a Visto de Bruxelas já conhecem o meu interesse sobre a análise de futuros e a prospetiva estratégica. Convido-vos, pois, a embarcar comigo nesta viagem pelos futuros – boa leitura!
Link para o ensaio na página da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
NB: Parte deste texto é retirado e adaptado da introdução do ensaio.
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