A ausência de empatia como política
Uma imagem muito comum nas nossas cidades é a de alguém numa bicicleta ou motorizada, com uma mochila volumosa às costas, a atravessar ruas e avenidas para fazer uma entrega. Uma imagem que não pertence apenas aos dias amenos, mas que se repete à noite, à chuva ou ao frio. E, no entanto, raramente nos detemos nela.
A empatia, como capacidade de se colocar no lugar do outro e compreender a sua experiência, colocando-se no seu lugar, continua a ser central para a vida em sociedade e para o nosso bem estar individual. A investigação tem demonstrado que a empatia se associa a uma maior probabilidade de comportamentos pró-sociais e à qualidade das relações, desde equipas desportivas até contextos de saúde. Ou seja, a empatia não é apenas uma característica abstrata, mas um fator de coesão social e sustentação da convivência coletiva.
A crescente individualização das sociedades contemporâneas, combinada com a transformação digital das interações humanas, têm em todo o caso levantado dúvidas sobre um possível declínio da empatia, com impacto na fragilização das redes de apoio, do sentimento de pertença e, com isso, na confiança e na coesão social. Isto tem muitas consequências, desde logo políticas. A ausência de empatia e a degradação de laços sociais não é apenas uma questão emocional ou das relações de cada um. É também uma ameaça à democracia e uma condição cultivada ou explorada por projetos que se alimentam da divisão e da abertura a narrativas de “nós contra eles”.
É aqui que a empatia volta a ser central. O contacto com pessoas diferentes e a capacidade de se colocar no lugar do outro reduzem a disponibilidade para o excluir ou discriminar. Inversamente, quando essa capacidade falha, abre-se espaço para a desumanização. Quando deixamos de ver o outro como semelhante, torna-se mais fácil
aceitar a sua exclusão. Talvez por isso a imagem do estafeta na chuva seja mais importante do que parece. Não apenas como símbolo de precariedade, mas como teste quotidiano à nossa capacidade de reconhecer o outro.
P.S.: No âmbito do último artigo nesta coluna, intitulado “A inteligência artificial está a pensar por nós?”, fiz uma pequena experiência: perguntei a modelos de IA se a IA estava a pensar por nós. E, claro, obtive resposta. Uma parte dessa resposta transcrevi, com algumas adaptações, para um dos parágrafos do texto, para depois fazer uma verificação, com outros modelos, se aquele texto tinha tido ou não intervenção de IA. Os resultados foram mistos: alguns certificam que o texto foi escrito com IA e outros têm dúvidas. Este pequeno exercício, mais do que provocatório ou de curiosidade académica, permitiu-nos ver que, não só foi possível obter um articulado coerente, como a sua distinção do que seria um texto inteiramente humano não foi fácil. É disto que estamos a falar quando discutimos este tema e olhamos para o papel da IA nos nossos mecanismos de pensamento e de comunicação.
A ausência de empatia como política
Uma imagem muito comum nas nossas cidades é a de alguém numa bicicleta ou motorizada, com uma mochila volumosa às costas, a atravessar ruas e avenidas para fazer uma entrega. Uma imagem que não pertence apenas aos dias amenos, mas que se repete à noite, à chuva ou ao frio. E, no entanto, raramente nos detemos nela.
A inteligência artificial está a pensar por nós?
A interação constante com sistemas de IA influencia a identidade e a autoestima e torna-se especialmente crítica na formação de opinião, onde a fácil produção e disseminação de conteúdos levantam dúvidas sobre autenticidade e credibilidade,
A crise da habitação (também) é uma crise de saúde mental
A perspetiva de vulnerabilidade que está associada à possibilidade contínua de não ter onde viver não é propriamente o melhor cenário para o otimismo ou a segurança necessária para enfrentar os desafios da vida.
As pessoas mudam?
Durante décadas, predominou a visão de que a personalidade era praticamente imutável a partir de certa idade, especialmente após a juventude. Na verdade, o cenário é mais complexo.
Os opostos atraem-se?
A questão é justamente saber se as diferenças que se encontram – os casais podem diferir em características de personalidade, altura ou ritmos de sono – são mais a regra ou a exceção.