Carro amarelo
Ser pai é lembrar-se da queda do muro de Berlim, ter jogado à estátua ou ao bate-o-pé e conhecer ao mesmo tempo a Abelha Maia, o Gumball, as Winx ou iCarly. Tudo culminando num debate sobre as regras do “carro amarelo”.
A discussão começou por causa de um autocarro. As regras estão no TikTok, mas são suficientemente fluidas para se refazerem em cada viagem. Ele acabava por arbitrar, numa espécie de “deixem lá isso”. “Mas assim não vale!”, reclamava alguém, para logo ser confrontado com o famoso viés de confirmação – acabara de passar um carro vermelho. As conclusões pareciam inevitáveis: mais uma vez se demonstrava que quem vê um carro amarelo vê um carro vermelho; e era óbvio que os autocarros amarelos tinham de valer.
Ser pai é isto. É lembrar-se da queda do muro de Berlim, ter jogado à estátua ou ao bate-o-pé (uma tragédia que só agravava o drama dos acanhados) e conhecer ao mesmo tempo a Abelha Maia, o Gumball, as Winx ou iCarly. Tudo culminando num debate sobre as regras do “carro amarelo”.
Não há melhor do que a bolha de coisa nenhuma. Aquele momento em que se agitam os braços, assumindo que o “six seven” não serve para mais nada que não seja sorrir. Ou seja, serve para tudo.
Arrancou para a viagem solitária. Havia promessas de rever emails e de entrar num “Teams”. Havia o propósito de estruturar o que o esperava, enquanto ouvia alguma música. E o telefone tocou e voltou a tocar. O tipo que se diz da assistência da Microsoft, a gravação que anuncia ter recebido o currículo, a empresa de comunicações que quer oferecer gigas de que não se precisa e descontar um ou dois euros a bem da fidelização (as fidelizações mais fáceis dos tempos modernos, apesar de tudo – ou era ele que estava só azedo), a fatura do gás que pode sempre baixar se mudar de fornecedor duas vezes por semana… e os clássicos “tens um bocadinho?” ou “já viste aquele email?”. Há ainda as mensagens porque um descendente disparatou ou esqueceu-se do telemóvel, do material, do equipamento; há os grupos que se silenciam, mas que convém espreitar de vez em quando; os ascendentes que têm um assunto muito importante por causa da vizinhança – “lembras-te daquele?”; “felizmente, não me lembro de coisa alguma!”.
Depois, as notícias: Trump e as suas tropelias, Ucrânia, manifestações, problemas económicos, radicalizações, donos da verdade, mestres do insulto, as violências de um quotidiano que não sabe lidar com frustrações, que se pode separar a qualquer momento, mas prefere agredir quem diz um dia ter amado.
E a chamada mais longa: o desabafo de uma amizade que tinha visto o mundo colapsar, como se mais nada valesse a pena. Um daqueles momentos do “tudo corre mal”, porque o amor, o trabalho e a saúde resolveram organizar um arraial de contrariedades, como quem faz uma aposta para ver se há um pedaço de Job em cada um. A amizade apara lágrimas, segundo dizem os mais otimistas. Para ele não. A amizade era a sua forma mais egoísta de ser. Enquanto se ocupava de aliviar as dores alheias, esquecia-se das suas. Não havia nada a agradecer porque havia no cuidar dos outros um cuidar de si, premiando-o com a satisfação da vaidade – aquela que só as vaidades úteis podem dar.
Ainda teve tempo de organizar as ideias para as apresentações. Almoçou no colóquio, trocou um ou outro contacto e fez-se à estrada de regresso.
O autocarro não valia, mas não ia dizer aos miúdos.
A bateria reclamou e parou numa estação de serviço. Lá estava ele! Não havia ombro onde bater, mas imaginou-se a gritar “carro amarelo!”. Dois lugares à frente, o sem sentido da confirmação. Tirou a foto, enviou para o grupo: “carro amarelo e carro vermelho!”. Acrescentou um “meme” “six seven”, com o despropósito que a tendência impõe. A resposta não tardou: “Pai… isso é tão 2025…”
Carro amarelo
Ser pai é lembrar-se da queda do muro de Berlim, ter jogado à estátua ou ao bate-o-pé e conhecer ao mesmo tempo a Abelha Maia, o Gumball, as Winx ou iCarly. Tudo culminando num debate sobre as regras do “carro amarelo”.
O homem que não se lembra de nada
Não fixa caras – as que retém são manchas que lhe dizem qualquer coisa, com vago ou nenhum contexto e, claro, sem nome.
Sardinhas com banana
Tudo muda quando o corpo muda. Até o pensamento sobre a vida e o mundo. A disposição não é tudo, mas é muita coisa.
Augusto Ascenso Pascoal
Com o “Doutor Pascoal” a ciência era só um sintoma do homem honesto. Conhecia-me de ginjeira, sabia perfeitamente que eu era muito menos do que parecia, que tinha as minhas ambições e peneiras. Pascoal era o oposto: discreto e silencioso; sólido. Ele era a enciclopédia e eu uma espécie de resultado de pesquisa de IA.
Chegada
Aos poucos, já começava a "sonhar para a frente e a sorrir para trás", recuperando a mensagem adormecida de uma curvada idosa e a sabedoria dos levadeiros que preferiam encaminhar a água para fazer vida a desperdiçar vida à espera da água.