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Paula Cordeiro Especialista em comunicação
05.01.2026

Uma certa e insustentável inocência

As redes estão preparadas para alavancar o óbvio: emoção, contradição, discussão. O que nos provoca raiva ou indignação ganha uma força que a mesma história, contada de outra forma, não consegue alcançar. E, por isso, se queremos, realmente, fazer por mudar, o digital ajuda mas não chega.

Continuamos a acreditar na promessa inicial de democratização da internet, no fácil acesso e na conexão entre as pessoas. Não é ignorância; é uma suspensão voluntária da consciência crítica. Se é verdade que um simples vídeo pode chegar a milhares de pessoas, alertar para as mais variadas situações, promover causas e ajudar o próximo, também é verdade que muita indignação com prazo de validade nunca sai dos limites do sofá. É rapidamente trocada por outra causa, outro vídeo ao estilo manifesto político. E mesmo que pareça ter tocado muitas pessoas com a sua mensagem, só toca, ao de leve, aqueles a quem a mensagem é dirigida: os políticos e a política. 

As redes estão preparadas para alavancar o óbvio: emoção, contradição, discussão. O que nos provoca raiva ou indignação ganha uma força que a mesma história, contada de outra forma, não consegue alcançar. E, por isso, se queremos, realmente, fazer por mudar, o digital ajuda mas não chega. A expressão e a manifestação da opinião já não se limitam ao nosso círculo pessoal ou ao bairro onde vivemos. Atravessa fronteiras, se preciso for, contudo, o que acontece a seguir? Dependendo da causa ou da forma como nos atinge, poderá, ou não, provocar a mudança. Muitas vezes provoca apenas indignação e partilha, sem solução. 

As tendências manifestam-se de várias formas e em diferentes sentidos. Estamos cansados, exaustos mas voltamos sempre, atraídos pela luz. Queremos diferente mas quase já não sabemos fazer ou viver de outra forma. E cedemos, uma e outra vez, cheios de vontade de outras coisas, uma outra vida, diferente da que estamos a viver. Vago? Não. Aquilo que parece apenas distração ou expressão individual é, na verdade, matéria-prima de um sistema político-tecnológico altamente organizado. Falo do contexto digital, do ambiente em que nos movemos e da tendência para trocar o online pelo offline, o digital pelo analógico. Há poucos anos, a jornalista de investigação Carole Cadwalladr foi levada a tribunal pelas suas afirmações numa Ted Talk, na qual dizia que a democracia não iria sobreviver ao sistema tecnológico que estava a ser construído. Carole sobreviveu ao julgamento e voltou para nos alertar. E lembra que, globalmente, os presidentes das maiores nações, e com maior poder militar, mentem e actuam de forma que atenta contra leis internacionais. Estamos a assistir, em tempo real, ao colapso da ordem internacional. E, na verdade, assistimos a tudo isto através das plataformas que os barões da tecnologia criaram: as plataformas digitais. Carole chama a isto uma ‘broligarchy’, ou seja,  uma relação bastante opaca entre os grandes da tecnologia e a política, embora muito clara em termos dos interesses subjacentes, criando uma estrutura de poder que nunca antes conhecemos, que permite todo o tipo de distopia. A ideia de termos uma avaliação que nos permite viver de uma ou de outra forma o acesso às nossas finanças mediante determinados critérios, ou sermos limitados nas nossas deslocações por motivos que não controlamos, está cada vez mais perto, numa relação directa entre a tecnologia e uma autocracia que representa bem a ‘broligarchy’ de que fala Cadwalladr. Uma oligarquia de políticos e figuras da tecnologia. E o que podemos fazer? Pouco. E nem adianta inundar as redes sociais, um dos destinos mais populares da internet, de conteúdo antitecnológico ou antissistema tecnológico. Primeiro, não teremos o alcance  que conteúdos altamente emocionais e pouco racionais conseguem ter. Segundo, tem de começar em nós e propagar a mensagem, através da nossa atitude e do nosso exemplo, para  reequilibrar o papel da tecnologia nas nossas vidas. Cedemos sempre quando nos dizem algo como “como assim, não tens (inserir o nome de qualquer plataforma, como Facebook ou WhatsApp)??”. E, para poder comunicar, instalamos. Como o fazemos com a aplicação do banco, ou de email, ou …. Escolham. Talvez esta seja a nossa maior contradição: desconfiamos do sistema, mas não prescindimos dele. Sabemos que as plataformas amplificam mentiras, distorcem a realidade e alimentam estruturas de poder opacas, mas continuamos a usá-las como se fossem neutras, inevitáveis, naturais. Cedemos sempre. Cedemos para comunicar, para trabalhar, para existir socialmente. Instalamos mais uma aplicação, aceitamos mais um termo, ligamos mais uma conta. Não é falta de informação. É uma certa inocência, também confortável, funcional e profundamente insustentável, que nos permite continuar a viver como se nada estivesse realmente em jogo, enquanto tudo, silenciosamente, está em jogo. 

Game over?

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