Desligar para existir: insustentável cansaço digital
Estará o modelo de subscrição musical digital ameaçado? Ainda não mas, se pensarmos que veio substituir décadas de relação individual com a música, e que são os mais jovens a procurar alternativas para abandonar esta lógica, talvez estejamos perante uma inflexão cultural.
Está tudo a mudar e mais depressa do que parecia possível. Ou talvez seja o algoritmo a funcionar, a devolver-me o que procuro. Encontro cada vez mais publicações que não só apelam à mudança, como a ensinam.
Estará o modelo de subscrição musical digital ameaçado? Ainda não mas, se pensarmos que veio substituir décadas de relação individual com a música, e que são os mais jovens a procurar alternativas para abandonar esta lógica, talvez estejamos perante uma inflexão cultural.
O Spotify, plataforma líder de streaming de música, com 290 milhões de subscrições pagas a nível global, cresceu 10% no último ano. As pesquisas por "iPod" no eBay cresceram mais de 8% em relação ao ano anterior. Mesmo que não seja uma inversão, é um sinal, uma tendência que importa observar.
Os anos 2000 estão na moda. Regressaram como estética e promessa de relação mais simples com a tecnologia. Representam, sobretudo, um tempo em que os dispositivos tinham funções específicas e nenhum concentrava todas as funcionalidades numa só, oferecendo, ainda, múltiplas formas de distração. É isso que os jovens querem recuperar, encontrando no iPod, e outras fórmulas para ouvir música, uma solução para as constantes interrupções que o smartphone permite.
Estudos mostram que 95% dos jovens entre os 13 e os 17 anos usam a internet todos os dias, e cerca de 46% afirmam estar online quase constantemente (Pew Research Center). Vários estudos alertam para a relação entre uso intensivo de redes sociais digitais e aumento de ansiedade, dificuldades de atenção e perturbações do sono. A síndrome da vibração fantasma, aquela sensação de que o telefone vibra quando nada aconteceu, tornou-se banal e revela que o corpo antecipa o estímulo, o cérebro mantém-se em estado de hipervigilância
Admito que comprei (finalmente) um gira-discos para dar uso aos LPs que ia acumulando apenas por prazer e, de facto, a música só interrompe para mudar o lado do disco, nunca para receber uma chamada. Tranquilizador. Satisfatório.
Dados da Recording Industry Association of America indicam que as vendas de vinil estão a crescer há 19 anos consecutivos. Várias marcas estão a criar salas de escuta, relacionando a experiência da música com o conceito de marca, e o Spotify criou um Listening Lounge em Londres que representa um novo tipo de espaço musical, centrado na atenção, na qualidade do som e no próprio acto de ouvir,contrário à lógica algorítmica desta plataforma.
Para uma geração que nunca conheceu o silêncio digital, o analógico não é nostalgia, é descoberta, e talvez por isso seja tão apelativo.
No caso da música, o preço e a indisponibilidade de algumas músicas limitam muitos jovens, a par do pagamento injusto aos artistas e o envolvimento do CEO do Spotify em empresas de armamento de guerra, tema que tem feito correr tinta um pouco por todo o mundo. Mas há mais, e o paradoxo é curioso: esta estética do desligar nasce, em grande parte, nas plataformas que procuramos evitar. No Pinterest, por exemplo, as pesquisas por “analogue aesthetic” cresceram mais de 200%. Queremos descobrir mas este passado é filtrado, devolvido como tendência.
Além dos telefones-tijolo que as celebridades exibem e que muitos voltaram a usar, surgem aplicações e dispositivos para nos ajudar a equilibrar esta relação com os ecrãs. Descobri um dispositivo físico que desliga aplicações e reduz notificações. A diferença em relação às ferramentas que já temos no telefone é que não temos como ignorar o limite de tempo definido. Precisamos tocar com o telefone no aparelho - um pequeno tijolo - para o telefone voltar ao modo “normal”.
Coachella, por exemplo, um dos maiores festivais de música no mundo, vai ter uma activação de marca do Pinterest “phone free”, ou seja, os telefones ficam à entrada. Objectivo? Desconectar para reconectar.
É esta uma nostalgia mediada, uma construção cultural ou a tentativa de criar experiências mais autênticas, ainda que profundamente mediadas? A questão impõe-se: se ninguém registar e mostrar ao mundo, estarão mesmo a desconectar?
Desligar para existir: insustentável cansaço digital
Estará o modelo de subscrição musical digital ameaçado? Ainda não mas, se pensarmos que veio substituir décadas de relação individual com a música, e que são os mais jovens a procurar alternativas para abandonar esta lógica, talvez estejamos perante uma inflexão cultural.
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