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Paula Cordeiro Especialista em comunicação
14.07.2026

As massas insustentáveis

O verdadeiro luxo deixou de ser o fio de água da piscina a perder-se no mar. É alguém que se lembra. Só que lembrar-se exige conhecer, conhecer exige tempo, e tempo é precisamente aquilo que um hotel com muitos quartos não tem para dar.

Recentemente, dormi em dois hotéis diferentes, no Algarve. E guardo de cada um, duas manhãs. Na primeira, o pão estalava. Massa-mãe, códea grossa, alguém o tinha feito nessa madrugada. O café, de filtro, sem açúcar. O pormenor que faz a diferença, e que o hotel memorizou. Manhã seguinte, outro hotel. Um pão sem história, aquele cuja massa se vende congelada para depois o pão ser finalizado no forno, no local de consumo. Já todos o experimentámos. O café esperava-me numa cafeteira,  a ferver desde as sete. Ninguém se lembrava de mim, ninguém me tinha visto. Éramos centenas.

Os dois hotéis cobram preços diferentes e seria fácil terminar o assumo aqui. Contudo, o que me ficou destas experiências, foi outra coisa. A piscina do segundo era maior. O mármore, mais recente. Os ginásios equivalem-se, os colchões vêm do mesmo fornecedor, as amenities cheiram todas a Algarve. A infraestrutura é a parte fácil. Compra-se. Qualquer fundo de investimento constrói uma piscina infinita em dezoito meses. O que o dinheiro não constrói, no mesmo tempo, é uma equipa que repara que prefiro a mesa junto à janela, que sabe o meu nome ou que adivinha o meu pensamento.

De acordo com o INE; Portugal fechou 2025 com máximos históricos no turismo e o Algarve continua a liderar. O discurso oficial celebra o crescimento, porque cada hóspede rendeu mais. No Algarve, o rendimento por quarto disponível também cresceu nos últimos três anos. Também se cobra mais mas, o pão…

Isto para dizer que preço não é valor. Valor é o que resta quando desmontamos o o cenário. E o cenário nunca foi tão bom: a indústria percebeu que o nicho vende e começou a produzi-lo em série. São muitas “experiências únicas” iguais em todo o lado, o mesmo welcome drink, as águas aromatizadas, o buffet com os mesmos queijos, a mesma vela à porta do spa. Até o mesmo aroma no ar. Mais do mesmo a preço diferente. A famosa economia da experiência. Quase trinta anos depois, boa parte da hotelaria confunde commodities, cenografia e a experiência real.

O hóspede, entretanto, cansou-se. Viaja mais do que nunca e reconhece o guião. Sabe que a “seleção de queijos regionais” veio do mesmo grossista, aqui ou em qualquer parte do mundo. A carta de vinhos nem sempre tem a mão do sommelier, por vezes resulta do que o distribuidor tem para ofecerer. O sumo de laranja do Algarve? Reconhece-se só pela cor e muitas vezes aquela laranja nasceu num pacote. E nada disto seria problemático se não estivesse embrulhado na ideia de experiência ou de exclusividade. Existem diferentes categorias de preço, experiência e alojamento, bem como diferentes níveis de exigência. Só não confundamos as coisas. Talvez por isso existam cada vez mais hóspedes que pagam, e pagam bem, a quem os trate como um, em vez de um de muitos. Infelizmente, não está ao alnance de todos. 

O verdadeiro luxo deixou de ser o fio de água da piscina a perder-se no mar. É alguém que se lembra. Só que lembrar-se exige conhecer, conhecer exige tempo, e tempo é precisamente aquilo que um hotel com muitos quartos não tem para dar.

O serviço são as pessoas: no Algarve, o turismo emprega milhares de pessoas, incluindo a restauração e a hotelaria. Em muitos casos, trabalho sazonal, pessoas cansadas, treinadas para despachar. A atenção é a única rubrica de custos que a massificação sabe cortar. É também a única coisa que o hóspede leva para casa. Conhecer o cliente não é ter uma base de dados. É o rececionista saber. Simplesmente, saber.

As massas (de gente) são insustentáveis; a massa (mãe) só se sustenta com atenção para produzir bom pão. Trouxe do Algarve massa mãe num frasco. Está na bancada da cozinha e pede atenção todos os dias, sem cerimónia e sem descanso. Se me esquecer dela, morre sem fazer barulho, como um pão sem história, ou um hotel onde não sabem o meu nome.

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